Para: "As plantas".

Eu deveria ter uns 7 anos, minha casa ainda era amarela, Júlia ainda trabalhava nela, e eu acordava cedo todas as manhãs para assistir um desenho de detetives e mistério que só dava para assistir se acordasse bem cedo.
Na frente da casa havia o portãozinho, o portãozão, e do lado três árvores das quais eu nunca descobri a espécie. Tinham folhas de formato xifoide, e espinhos. Espinhos por todo o caule.
Da direita para à esquerda, a primeira portava flores amarelas, a outra flores rosas e por último e a de caule mais grosso, e talvez por isso, me passasse a impressão de ser a mais experiente das três, brotava flores brancas.
Não me lembro como começou, só sei que eu conversava com elas, elas três, as árvores. As chamava de: "As plantas". As nomeei de "Brancas", "Amarelas", e "Rosas". Isso mesmo! No plural, porque minha professora dizia que uma planta apesar de ter uma folha bem distante da outra, possuir flores, no todo é uma só. Eu achava meio estranho, conversar com uma árvore que ao mesmo tempo era a folha e a flor e o espinho, e era essa minha explicação do nome ser no plural, fazia sentido, pensando melhor, eu fui genial!
Eu as ouvia, era uma voz cantada, várias vozes juntas, como se cada flor e folha estivesse falando junto e ao mesmo tempo, o vento me ajudava a entendê-las melhor, como se a voz fosse carregada. Era fininha, fininha...mas dava para ouvir...
Eu contava para elas coisas que eu andava aprendendo, sobre o pessoal da escola, família, alguns sonhos, rotina, às vezes aparecia furiosa e desabafava, outras risonha... ou simplesmente ficava lá sem falar nada, escutando-as e me divertindo.
Uma vez eu me enfureci com algo da escola, e contei para elas, "Rosas" reagiu como se estivesse me caçoando e eu acabei arrancando trilhões de folhas dela em uma mãozada. Ficamos um bom tempo sem nos falar...
Certo dia, mamãe disse que não gostava de escuridão, acrescentou que as plantas deixavam a frente da casa escura, que seria melhor cortá-las. Logo, dei a notícia para as plantas que se desesperaram juntamente a mim. Choramos juntas, pensei em amputá-las e plantar essa parte delas em outro lugar, mas não fiz. Não seria a mesma coisa.
Uma tardezinha, dessas que eu chegava feliz pela escola ter terminado, "Rosas" não estava mais lá, havia apenas um toco.
O toco... parecia recortado, ele estava todo cheio de pontas, marrom, calado. Perguntei as outras plantas quem tinha feito isso, e me mandaram para a calçada. Lá vi uma fogueira, "Rosas" toda despedaçada e embrulhada queimava sem nenhum sinal de dor. Júlia estava observando o fogo, perguntei então o que houve, ela disse que a casa estava escura, que um moço veio e cortou, e que precisava se livrar daquela plantaiada, acho que fiquei com vontade de chorar, não me despedi de "Rosas", e mesmo tentando, não a ouvia mais.
Nunca mais foi a mesma coisa, e acabou que com "Amarelas" e "Brancas" eu só falava de "Rosas".
Creio que fiquei meio desgostosa com as outras depois desse acontecimento, penso que depois de ter visto aquele toco todo recortado e calado eu preferi me afastar delas.
A frente da casa nunca mais foi a mesma, e com o tempo "Amarelas" e "Brancas" cresceram tão alto que se encontraram lá em cima, entrelaçaram-se, e no meio havia aquele buraco, o buraco que era antes o lugar de "Rosas", talvez, elas se uniram por se sentirem sozinhas, inclusive sem mim.
Passei tempos sem dar atenção a elas, evitei seus balanços que tanto gostava de ver, e com o tempo escureceu-se a casa de novo, e foram cortadas.
A casa ficou clara, bem clara e agora na frente, havia um portãozinho, um portãozão e três tocos. Três tocos calados.
(Em um diário de 1999, existem algumas páginas falando sobre as três.)
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Te amo!
(Jean-Paul Sartre, A Náusea)