Na ponta dos pés
O ócio me era tão preocupante que de repente eu decidia que deveria
criar uns sentidos pra viver. Certa vez acordei com tanta vontade de descobrir
uma razão pra viver que criei num instante a ideia de que tudo que eu precisava
era saber dançar. Tomando meu leite com chocolate, eu tentava imitar aquelas
dançarinas que via pela TV e nas pontinhas dos pés eu colocava meu copo de
leite na cabeça e passava de azulejo em azulejo sem pisar nas linhas.
Depois sem o copo, em saltos eu pulava de sofá em sofá e na cozinha a
regra era dar piruetas enormes até a secretária notar meu grande sucesso.
E era isso, sim... eu era uma grande e ainda não descoberta
bailarina. Certamente, quando desse o feriado, o circo chegaria na cidade,
calculadamente eu ia dar uma pirueta de brincadeira no intervalo do circo,
um palhaço iria me ver com um grande sorriso e se encantar com meu talento,
fugiria com aquele povo maquiado de alegria a noitinha.
Mamãe e Papai jamais saberiam meu paradeiro muito menos que eu
estaria dando comida aos leões, mandaria cartas secretas para Nina e seria
simplesmente aplaudida por crianças tão ociosas quanto eu era, crianças em
busca de uma alegria que sempre parece chegar mas que nunca avisa quando e que
quando vem, passa tão rápido, mais tão rápido que nos amordaça de saudade e nos
deixa bêbadas, trôpegas e cheias de ressaca nessa busca de sentidos de viver.
Quase conformada, eu percebi que aquela bailarina e eu, não
podíamos ser a mesma pessoa. É que na bailarina havia sempre uma paixão
bonita mas que não me prendia, uma função que não me segurava por muito tempo e
sua maior empolgação haveria de estar sempre em uma apresentação e haveria de
ter uma rotina de tirar a maquiagem, pra não envelhecer tão rápido, de ensaiar
até sair perfeito, de muita ordem e disciplina, glamour e aplausos, corpo e
alma... mas espera! Tudo isso ainda não preenchia as migalhas que eu deixava
pelo caminho, pra encontrar minha casa de doces.
Na verdade eu nem gostava de ser magrinha e dispensava meus
vestidos cor de rosa se estivesse disponível outra cor no guarda roupa. Espera
ai, eu preferia brincar de lutinha com os meninos, que diabos de ideia era essa
de ser bailarina?!
Ai abandonei o circo, me despedi dos leões e nunca mais dancei nos
palcos mais lindos, mais caros, mais imundos e nem visitei os camarins
mal assombrados. Minha vida de bailarina chegou ao fim sem nem começar, porque
o que me perseguia não estava na ponta daquelas sapatilhas, deveria de estar
então em outro lugar.
Em uma pirueta no escritório de livros de papai derrubei um livro
chamado: "O que é filosofia?", olhei para o livro, ele se mostrou
pequeno de poucas páginas, lembro que respondi o livro com outra
pergunta: "Será que criança pode ler esse livro?", deixei o livro num
lugar que eu não pudesse esquecer, continuei com as piruetas do meu fracasso de
bailarina porque na verdade descobri que eu adorava rodar. Rodar, rodar... tão
rápido até perder a noção da realidade! Foi incrível pra mim descobrir que
quando se roda apenas seu próprio mundo fica perdido, o do outro continua
intacto. De alguma forma eu me encontrava completamente excitada pelo fato de
poder ser enganada por uma ilusão dos meus olhos e saber disso mas não poder
controlar quando meu corpo ia caindo no chão. Toda vez que eu caia, caia
sorrindo, se minha bailarina visse este tipo de comportamento diria que aquilo
era uma tragédia.
E era mesmo, porque de tanto rodar, eu já não caia como antes,
consegui controlar a ilusão de um jeito que perdeu a graça, acabava em mim a
alegria de rodar.
Caída no chão sem sorrir, eu suspirei curiosa e me perguntei se
todo mundo era assim feito eu, preocupada com a existência, preocupada com os
sentidos, preocupada com o que era ou não verdade. Talvez, eu estivesse presa
naquele corpo de criança, talvez minha irmã, Papai e Mamãe fossem uma grande
ilusão dos meus olhos, mas no fundo também estivessem sozinhos e preocupados.
Mas porque é que eles faziam seus papéis sem reclamar? Eu imaginava mamãe
dançando, papai dançando, Nina dançando...fechava os olhos e sorria. Seus
papéis realmente não combinavam com a vida de uma bailarina.
-Como era mesmo aquele nome que eu li?
-Falou comigo? -perguntou a secretária.
-Falei comigo.
-As pessoas não falam com elas mesmas, só os loucos fazem
isso...você tem muita minhoca na cabeça, não tem menina?
E imaginei que talvez era louca, mas antes que chorasse por
ser louca, imaginei as minhocas na minha cabeça e sorri daquilo.
-Você também ri sozinha? Você é louca mesmo, eu queria ter essa
capacidade, queria entrar nessa sua cabecinha.
Era Filosofia o nome que eu esqueci. Corri para o escritório e
abri chocando-me cada vez mais em cada página que passava. Descobri que iguais
a mim havia milhões, que temos muitas perguntas que não poderão ser respondidas
mas que temos o poder de criar hipóteses e de viver com, sem e para elas.
Aprendi a palavra crise e que ela podia persistir por muito tempo,
que podia ser cessada por alguma razão ou que poderia simplesmente viver comigo
até a morte mas controlada e adaptada ao meu modo de viver a vida.
Eu não era bailarina, não era peão de roda, eu era aquela palavra
que li e nunca mais esqueci: Inconformada. E aquilo não era tão ruim do ponto de
vista do livro, aquilo era essencial, transformador e racional, isto é, se eu
não me cansasse de continuar a buscar.
Talvez a secretária estava errada e certa sobre mim...eu não era
louca, o que eu tinha era minhoca na cabeça, aquele livro não era livro pra
criança ler. Agora eu sabia um monte de coisas mas me sentia
extremamente culpada por sabê-las, agora eu sabia que buscar era normal,
anormal era sentir medo.
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