A babá do meu irmão
-Ela vai morar com a gente, chama-se Luciene. Cuidará de seu
irmão enquanto eu não estiver em casa.
-Luci...ene?! Mas porque não Luciana?
E imaginei que talvez
fosse uniformizada, bem maquiada, com alma de anjo, comportada e quase uma
santa. Nunca havia visto outro tipo de babá que não as americanas de filmes da
sessão da tarde. Quando ela chegou, fiquei observando cada detalhe
daquela mulher naturalmente engraçada. Luciene sorria feito uma criança por
qualquer coisinha, tinha um cabelo crespo, mais tão crespo que até a água
demorava a molhar os fios. Eu lembro que quando ela saia do banho, os cabelos pareciam que
ainda estavam secos. Usava um corte extremamente masculino, mas eu não conseguia
imaginar outro corte para o seu tipo de cabelo. Tinha as unhas dos pés enormes,
estavam sempre bem pintadas e seu tamanho ultrapassavam o chinelo.
-Sabia que seus pés são de bruxa?- lhe dizia.
-De bruxa? Ela olhava e sorria parecendo não se importar
muito, porque achava os próprios pés lindos daquele jeito mesmo e de tanto
achar, começou a me parecer bonitos também.
Luciene não era das mais bonitas, mas tinha uma auto estima
de dar inveja em qualquer uma e aquilo realmente a deixava muito bonita.
-Qual sua cor preferida Luciene? - eu perguntava
-Preto. Eu não vivo sem preto. - ela respondia passando um batom no espelho.
Aquilo ficou na minha cabeça. Eu como criança, não poderia
entender que graça havia no preto, porque preto realmente era uma cor meio
tenebrosa, do mal e sombria.
-Preto? Mas preto é tão sem graça!
-Preto combina com tudo, posso usar de dia e de noite, todas
as minhas roupas pretas combinam com tudo e o melhor,
nos deixa mais magra.
-As bruxas gostam de preto, eu gosto de roxo.
-Eu só tenho uma blusa roxa, vou usar ela hoje pra você.
Luciene era empinada de um jeito que mesmo
que só usasse havaianas, sempre parecia estar de salto. Ela estava sempre
contando de um novo namorado para a Júlia, uma secretária muito séria que viveu muitos anos com a gente. Vivia cantarolando pelos quatro cantos da casa, como se
fosse a mulher mais feliz do mundo.
Luciene pegava na vassoura e começava a dançar e cantar uma música
para Dudu que aprendia a andar.
-Balança morena, balança loira, quero ver você dançar na
dancinha da vassoura! E vai descendo até o chão, vai descendo até o chão,
fazendo nheco-nheco
nheco-nheco no salão!
-O que é nheco-nheco Luciene? - eu perguntava mais uma vez.
Quando assistíamos novela, assim que a mocinha ou
a vilã terminavam de falar, Luciene repetia a fala. Aquilo me deixava um pouco
curiosa.
-Luciene porque você ta repetindo o que ela tá falando?
-Não fia, é meu jeito mesmo.
Se o jornalista dissesse "boa noite" ela respondia e muitas
vezes tinha crises de riso terríveis de algumas cenas da novela que só parava
quando engasgava. Quando descobri que era fácil fazê-la sorrir, fazia de
tudo pra que ela sorrisse. Virei sua fã nº 1, sua bestialidade muito me intrigava, Luciene era única. Então eu a assustava de traz das portas,
comentava sobre as letras de música que ela ouvia e cantava para o meu irmão
(um tanto bregas e engraçadas) , a imitava para as visitas e vizinhos lá de casa e perguntava se já havia amado alguém, se
sentiria nossa falta quando meu irmão crescesse e ela tivesse que ir embora, se
já tinha visto um fantasma, se tinha engravidado porque queria ou por descuido,
se gostava mais de mim ou da nina, se tinha medo do papai, se nunca se
estressava, se era feliz daquele jeito mesmo.
-Ovo é com v ou com f ? - Ela me perguntava.
-Com" v" Luciene, sempre com "v". - eu lhe respondia sorrindo enquanto ela fazia a
lista.
Luciene as vezes cometia algumas gafes na maneira de
escrever e falar, mas era tão graciosa e carinhosa que não demorou muito para
conquistar todos da casa e fazer meu irmãozinho sorrir de um jeito que ele
deixou de ser um bebê enjoado e virou a coisa fofa da casa, mamãe começou a
chamá-lo então de cucute.
Em alguns finais de semana Luciene ia para Piraquê, sua
cidade. Quando voltava sempre contava das festas, de um rapaz que beijara, de
como dançou e de como era bom viver. Ficava imaginando aquelas festas que ela
ia e todos os namorados que enganava e tinha. Luciene tinha uma filha, sua mãe
que a criava.
-Como ela é? - mais uma vez eu perguntava.
-Esperta e metida, feito o pai. - passava o lápis de olho lacrimejando nos olhos de frente para o espelho.
Depois do almoço quando meus pais se retiravam para ir para
o trabalho, Júlia, nina, Luciene e eu ficávamos na mesa do almoço contando
histórias de gente morta, de fantasmas, de diabo e coisas que dessem medo.
-Perdi meu irmão em um corgo, ele pulou e não voltou
mais.
-Como foi? - eu perguntava curiosa.
-Estávamos em casa, quando de repente veio um vento enorme
que derrubou os quadros com as fotos dele na parede, minha mãe gritou o nome dele e
mais tarde descobrimos que ele pulou no corgo e não voltou mais.
-Nossa Luciene que horrível!
-Um dia vi ele na rede que eu dormia, ele disse:
"Luciene sai da minha rede."
-E você não ficou com medo?
-Não, ele tava morto mesmo.
Júlia então contava:
-Deus me livre! Lá em Itacajá, no corgo perto da fazenda de papai tinha um
nego d'água.
-O que é isso? -eu perguntava com o coração já disparado de
medo.
-É um menininho que mora dentro do rio e tem a força de sete
homens juntos.
-Sete?! E o que ele faz?
-Afoga a gente.
-Isso não existe! É mentira Nanda, não conta pra Nanda que
ela é besta e acredita em tudo! Já ta com medo, olha a cara dela! -
dizia Nina saindo da mesa e depois gritando do quarto.
-Sobra pra mim
depois! Sobra pra mim! - gritava a menina coragem da casa.
Riamos, Júlia tirava os pratos, Luciene ia lavar as fraldas do meu irmão e eu passava umas três noites sem dormir.
Quando mamãe saia de casa, recomendava:
-Se essas meninas não estudarem a tarde toda, você me conta
viu Luciene?
-Pode deixar dona Elisa. - e piscava os olhos com força pra
gente.
Quando mamãe partia, Luciene dizia:
-Podem brincar! Eu não conto nada não. Estudar é ruim
demais, ne? Eu sei que é, dói a cabeça.
De tanta festa, Luciene beijou um sapo que virou príncipe,
ele a pediu em casamento e a vi pela última vez com uma saia preta que
adorava e beijando uma foto do meu irmão que ficava pregada na geladeira,
dizendo:
-Tchau cucute, vou sentir saudades.
E deixou de ser a babá de Eduardo partindo para sua nova vida de dona de casa. Luciene ia se casar e a vassoura da minha casa nunca mais foi convidada para dançar.
(Para Luciene que morreu tão jovem e acredito que alegre)
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bj
Mamãe