O desencontro sonolento.



Saíram aquele dia para jantar. Sentaram-se um, na frente do outro. Ele pegou o cardápio, ela acendeu o cigarro e pensou consigo, sem entender-se, o que estaria fazendo ali. Perguntou-se então, porque continuava com ele e como deixou que as coisas se prolongassem dessa forma. Assoprando a primeira fumaça, perdia o juízo por dentro, tentando encontrar o que ele tinha de interessante. Teve de súbito, uma horrível sensação, e imaginou que forças sobrenaturais a adormeceram por todos aqueles anos. De todos os anos, foi ali, que teve a certeza absoluta de que nada existiu. Não tinha ódio dele, tinha dó de si mesma, dó do seu sono preguiçoso e inocente que tanto demorou a se despertar. Fumou com vontade, como se aliviasse o lamento que acabara de sentir, descobrindo-se. Soprou pela segunda vez, deprimidamente e com um olhar frio e direto, o desprezou.

-Sua vez de escolher.

Foi o que a interrompeu, foi o que ele disse, entregando-lhe o cardápio. Ela então, colocou o cigarro no cinzeiro. Ele reparou as unhas vermelhas de sua mulher fumante e por um momento desejou ser o cigarro que acabara de sair daquela boca e ter passado por aquelas mãos, mãos que ele nem sabia até então que apreciava. A desejou ali, no momento que ela entregou o cigarro ao cinzeiro para escolher o prato de comida, e pensou que estar ali com ela era sua melhor sensação, que ter passado alguns anos com ela só valeram a pena por conta do que iam jantar daqui a pouco. Se descobriu, enormemente apaixonado pela dona daquelas mãos, daquela boca, daquele cigarro deitado. E sentiu uma horrível sensação, como se forças sobrenaturais o tivessem adormecido durante todos aqueles anos. De todos eles, foi ali, que teve a certeza absoluta de que tudo sempre existiu. E se viu sortudo pela vida, sortudo por não tê-la deixado escapar mesmo quando ainda nem adivinhava o quanto a amava e desejava.

-Esse aqui. Com cebola.

Disse ela para ele, apontando no cardápio qual era o pedido, parecendo estar com muito apetite. Ele chamou o garçom. Ela voltou a fumar o cigarro, e quando o cigarro encostou nos lábios, uma salva de palmas começou. Eram as outras pessoas do restaurante, o cantor ao vivo de MPB, perto do balcão, começava um grande sucesso.

Comentários

blog do gallo disse…
Grande! bonito conto... vou me colocar mais uma vez a disposição para ser seu revisor...
o seu texto está ficando genial...só peca na famigerada gramática... parabéns
ei


mpb faz parte dos meus textos

eashuieuashuiaeu

AONDE TU ARRANJA ESSAS FOTOSSSSSSSS

TAMBEM QUERO
eashiusaehiuhesa

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