Olhos regados.

Certo dia, quando já estava de luvas e colhendo tulipas, pois-se a cheirar as tulipas antes de chegar a cozinha e sentiu o cheiro da terra molhada como nunca antes. Levantou as sobrancelhas e salivou de repente. Imaginou-se então, coberta de terra. Sem olhar para os lados Carmem encheu as mãos de terra molhada e engoliu. A terra, marrom avermelhada grudou no céu de sua boca e pintou seus dentes, e as salivas chegavam cheias de pretensão, como se estivessem seduzindo, para que a terra fosse deslizando logo pelo o organismo inteiro. Carmem adorou o gosto da terra molhada e engoliu mais uma vez. Foi para a cozinha cantando e esperou pelo beijo de chegada de Aurélio. Ele chegava, perguntava o que ela achava sobre algumas pessoas do seu trabalho, as quais ela pouco conhecia, e sem esperar o achismo dela, os dois, enchiam suas bocas de comida e bebida.
Anoiteceu e Carmem não conseguia dormir, sentia o cheiro de terra molhada nos lençóis e salivava. Pois a mão perto dos olhos do marido e mexeu para conferir se estava acordado, não estando foi para o jardim. Molhou a terra e comeu. Sorriu para a lua cheia, acariciou as tulipas, e comeu de novo.
Aurélio nunca descobriu o que a esposa andava fazendo. A terra marrom avermelhada nunca descobriu que trazia felicidades não só para tulipas.
E Carmem acordou feliz aquela manhã, sem abrir os olhos é claro.
Teve um sonho sublime, terra no jantar.
Comentários
Lembrei-me de uma passagem de Cem anos de Solidão, onde a Rebeca comia terra e reboco de paredes!
Adooorei! Sublime!