A suicida

Os sentidos vinham dessa vez de queimar o corpo, ao acordar, ao pensar, na hora de se alimentar e enquanto respirasse. Todos de uma só vez, vinham para buscá-la, era hora de enfrentar os piores tormentos, era hora de saber até onde realmente era capaz de chegar. Menos fraca do que podia querer ser, a raiva ouriçada veio num caminho trôpego sem saber porque causava. Não havia mais discernimento no que queria do que se sentia, não havia mais pincéis o bastante pra pintar separadamente o que lhe era colorido e o que seria sempre branco. Era puro desalinho e ninho de rato. Pra variar, tinha que escolher entre ficar ali estacionada ou percorrer um caminho de cacos de vidro sem sapatos. Era a única saída que existia, um anjo lhe soprara baixinho no final de um pesadelo que se escondia atrás das pedras do inferno, ganhando tempo com os demônios.
Descalça, sangrou até o último caquinho. Na tentativa de transformar lentamente a dor em uma única só, crua e nítida, como não costumava se resumir, se distraiu por trás do vermelho do sangue, dando-se um pouco de prazer e tentação, o qual somente o vermelho é capaz de proporcionar. Talvez pela perca de sangue, tenha ficado um pouco insana e sentiu uma sútil alegria de pensar que seu sangue iria se perder daquele corpo que já não tinha controle e dicernimento para estar punjante e reluzante nos cacos, realçando o escarlate e marcando território de vitória e rastros.
Quando terminou de atravessar o diabo quis tomar seu lugar mais uma vez, mas alguma coisa nela já era capaz de não permitir. O fôlego de belzebu era tão quente que a pele dela num momento estava bronzeada.
- Você não tem medo de mim? - perguntava o diabo como se perdesse algo lentamente.
- O que lhe dá mais prazer? - devolvia com outra pergunta, para infernizá-lo.
- Sua infância.
- Eu morria de medo de você...Mas ainda assim foi a melhor época da minha vida.
- Você sabe que não está viva como antes, não é?
- Sei...eu estou mais madura e menos tensa.
- Você acha mesmo que maturidade te livra do medo das coisas?
- Talvez não sempre, mas ajuda.
- Você sabe que eu não vou desistir de você, não é? O medo é inevitável em qualquer fase e você sabe...eu posso me transformar no que eu quiser.
- Sei, mas também já sei te ouvir sem obedecer.
- Enquanto me ouvir serás minha.
- Na verdade não, enquanto eu te ouvir, saberei para onde não ir e mais! Saberei que você está numa posição ainda mais humilhante que a minha, a de precisar ser ouvido.
O diabo sumiu feito fumaça dos seus olhos, ela coçou um pouco os olhos e continuou andando.Uma coisa que nunca entendia era o porquê de alguns nascerem covardes e outros já não ousarem tamanha covardia contra a própria vida.
Despertada naquela raiva ela não queria mais gritar, pois o grito já não era salvação, nem o silêncio prece, nem os barulhos pistas. Percebeu que conseguia sem pânico, lidar com toda aquele situação.
Quando dormiu num jardim escuro que encontrou, o anjo lhe soprou ao fim de outro pesadelo que ao amanhecer os pés estariam cicatrizados e que todas as vezes que olhasse pra eles, se lembrasse de como a dor é passageira.
Ao amanhecer, percebeu que o fardo estava leve...mas ainda não podia ter encontrado Deus, tudo ainda estava muito imperfeito, e ela sabia que quando fosse a hora, não haveria dúvidas nem decepções. O fardo estava leve porque estava sendo carregada por oito sombras desbotadas de defeitos e má vontade, a qual ela era fonte de alimento com todo seu pessimismo, agora...era hora de mudar os hábitos, até que as oito vomitassem seus pedaços.
Comentários