domingo, 11 de setembro de 2016

Minha barriga é a primeira a me empurrar
O desejo passeia pelo precipício
Domina minha mente por segundos
Me faz voar
A realidade me interrompe
Estou acordada
Estou sonhando
Estou viva e iludida
Te quero
dia após dia
Te imagino
Venha comigo
Há planos mentais por todos os lugares
Pelos comodos,
Pelas ruas,
Pelas falas que eu decoro
como se tudo fosse dar certo em algum momento...
Torço,
Para esquecer,
Torço,
Para lembrar
Eu sou torcida viva de hora em hora
Por que teus olhos não saem de cima de mim?
Por que meus olhos tem que fingir que não estão vendo?
Teu medo senta do teu lado,
Tua coragem sempre surpreendida
tentando não acreditar no que vê
Não se renda
Nunca vou pedir isso
Não seria bom que tudo começasse pela fraqueza...
Espero pois que passe
Depressa
Ou
Devagar
Bom é ser torcida viva




sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Raiz de repente!
Não foi uma ideia
Chegou...
Flor eu já não seria mais
Quebra-se meu vidro
Não é mais sobre espinhos
Não é mais sobre sementes
A terra fala de um abraço
Sem morte
Sem drama
De repente mesmo!
Quer um abraço e alcançar o céu
Me dividir em ramos
Me alcançar de todos os lados,
Pra cima! Quer me atingir!
Agora eu fiquei grande
Não é mais sobre espinhos
Não é mais sobre sementes
Ar... balancei, sem sequer sair do lugar...
Quando o vento passar, meus pedaços vão cair...
E eu vou continuar,
sem morte,
sem drama.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Se eu pudesse escolher para que parasse
Escolheria agora
E agora pararia
Agora cessaria
Agora seria perfeito
Trágico
Dramático
Seria amor.

E se eu pudesse ainda que por um segundo, ser tua...
Te devoraria até os ossos,
Chuparia toda tua carne,
Descobriria teus segredos,
E as peles grudariam até ser uma só

Não ia sobrar parede,
Não haveria mais chão,
Teus olhos seriam eternamente meus
O sol nasceria com a minha alma de novo

Ah, se eu pudesse escolher para que parasse agora...

Ah se eu pudesse realmente não me perder no destino que eu traço todas as horas...

Não ia sobrar dúvidas
Não haveria mais fugas
Meu corpo seria festa
E a lua brilharia sem fim

Agora, tudo se movimenta
Tudo me desorienta
E se eu pudesse escolher para que parasse agora, agora deixaria de ser eu.


Não adianta não gostar dela
ela está em todos os lugares
na esquina
no bar
dentro da sua casa
nos quartos...
ela está dentro de todos os quartos.
Entregue-se
Posicione-se
Escolha suas armas
Não adianta não gostar dela
todos lugares estão cheios dela
Mexa-se
Ela vai te engolir
Então mastigue primeiro
Vomite, se for preciso
Dentro da sua casa
nos quartos...
dentro de todos os quartos.
Entregue-se
Uma hora sempre vai

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Tem uma vela acesa nos meus dias
imagino o fogo o tempo todo
nada aconteceu
E ao mesmo tempo é tudo tão suficiente
teu nome combina com todas as cartas mentais que eu não escrevi
Quero teu corpo, tua pele, tua voz e a minha cura.
Tudo apertou de repente e se encorajou.
Eu devia ter te conhecido primeiro...
Quais são as regras agora
É tudo tão raro e infinito
Desconheço minha própria respiração.
Queria respirar assim sempre.
Existe uma certeza peculiar de que estou exatamente em tempo e preparada pra isso.
O que é intuição, destino...
As vezes você simplesmente não pode ser real...
Estou incomodada
Você podia ao menos não me olhar tanto
não me olhe
não me olhe
tua presença me interrompe
Cancela meus planos de esquecer
Por que eu preciso tanto de explicação?
Quem está confusa não sou eu
Tudo apertou de repente e se encorajou.
Eu preciso de um plano,
do teu jeito.


quinta-feira, 7 de julho de 2016

No pátio da escola

Conheci a Aline no pátio da escola correndo. Eu era uma menina medrosa e insegura. Não corria por medo de cair e ser caçoada pelos colegas. Aline não. Aline corria de uma ponta da escola para outra com muita rapidez, Aline voava. E se caísse e alguém vaiasse, Aline virava uma fera, se defendia, mostrava a língua e o dedo, e aos berros, espantava todos que tentassem rir dela. E era assim que ela fazia também com quem ela amava, era assim que ela também defendia o Luiz Fernando, seu irmão surdo. Apesar de chamar a atenção dele a maioria do tempo.
Foi assim que eu descobri que queria ser a melhor amiga da Aline naquela escola. Era daquilo que eu precisava para ser uma menina respeitada no meio daqueles lobos e para ter com quem contar quando alguém me caçoasse. Coragem, segurança e correr mais rápido e sem medo de cair. Foram as coisas que aprendi com Aline sem perceber. E foi com a Aline e seu temperamento forte, que eu também tive minhas primeiras brigas longas. Apesar de serem briguinhas de criança e depois de adolescentes se descobrindo, foi perto dela que eu percebi também que algumas coisas não valem a pena se deixar magoar tanto, porque o perdão é o melhor amigo de qualquer amizade duradoura e bem humorada. 
Houve um tempo inclusive, que o bom humor era a sombra da minha amizade com Aline, ficávamos duas horas no telefone tagarelando sobre tudo. Nós ríamos de tudo que era besteira, gostávamos de imitar as pessoas, de arrebentar nas peças teatrais da escola, de ter crises de risos sem limites e com o tempo... Percebi. Nós estávamos mudando, nossas personalidades foram ficando mais distintas uma da outra, e com isso também vieram novas crises, aprender a lidar com as diferenças. Mesmo assim, ainda corremos na chuva, fizemos gols no jogo de handball e rimos de nós mesmas. Aprendi com a Aline que era permitido preservar nossas crianças interiores pra sempre em algum pedacinho da nossa história, por mais que a vida adulta bata na nossa porta. Por que ser, ou fazer escolhas, diferentes, não me tornava menos sua amiga e vice versa. Nós finalmente e graças a deus, não estávamos mais na sexta série. Agora nós finalmente podíamos odiar matemática pra sempre, sem precisar de pontos. Agora eu podia ser escritora e jornalista. Mas foi aí que eu parei pra pensar: e a Aline?! E então a tristeza pairou. Aline não viria comigo pela primeira vez na vida. Não haveria primeiro dia de aula, nem trabalho de dupla. Eu ia pra faculdade e Aline continuaria no cursinho. Aline queria outra coisa, aline não desistia, aline corria de novo, dessa vez com os livros, sem medo de cair, até que ela passou. 
Doutora, médica e CDF. Era isso que a Aline queria ser agora. E conseguiu. Parabéns minha amiga. Nossa amizade sobreviveu firme e forte com as diferenças, e a tecnologia nos tornou próximas novamente. Com muitas novidades e histórias novas pra contar. E hoje, eu aprendi mais uma vez com você. Que a distância é apenas um detalhe pra quem realmente se gosta. Tudo que eu posso desejar depois de quase 11 anos de amizade, é que aja sucesso, e que continue correndo sem medo de cair. Ousada. Determinada e Corajosa. Características que hoje, também entendi que não são só suas, mas também as características que mantiveram nossa linda amizade e que nunca vão sair de moda, nem cair em qualquer pátio de escola. Por tudo isso amo e desejo sucesso a você.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Primeiro de julho, depois de mim o amor.

Cheguei primeiro, você é a mulher do padre. Quando eu acordei, o amor estava debaixo da cama, dentro do guarda roupa, atrás da porta, emburrado, chorando dentro do banheiro faz meia hora. O amor cabe dentro do tanque, divide o shampoo comigo e troca nossas toalhas toda vez. O amor está comigo, contando moedas, em frente aquele bar, pra comprar dindin e cremosin. O amor sabe dar o troco certinho e caiu de bicicleta comigo. Ralamos o joelho, esfolamos o cotovelo, mas o amor não cansa de procurar as peças do quebra cabeça que sumiram, comigo. O amor sabe e conhece de todos os personagens que eu falo, dos defeitos e das qualidades dos nossos pais. O amor teve época que conversava a noite toda comigo. O amor me contou algumas mentiras, riu de mim, pulou de um sofá pro outro, e viu no chão os mesmos jacarés e vulcões que eu.
O amor está atrás da casa contando até dez, está escondido na dispensa, está discutindo bolacha recheada na fila do supermercado. O amor foi comigo pra escola, desligou a luz do quarto, gritou meu nome e está fazendo dinheiro de papel, e bolo e pastel de areia pra eu comer. O amor me deu um murro. Ás vezes, o amor é mais forte do que eu. O amor me fez chorar, se vingou de mim e contou tudo pra mamãe. O amor não quer mais brincar, me disse que não era assim, me defendeu na frente das pessoas, foi pra casa comigo a pé.
O amor entendeu as histórias como eu, cantou as músicas no mesmo ritmo, e é ainda mais forte quando levanta a mesma bandeira que eu.
O amor acreditou que era possível voar, flutuar, ser mágica, e caiu da rede comigo. O amor não lavou a louça, contou as estrelas comigo com medo das verrugas nascerem.
O amor me explicou melhor as coisas e me deixou com menos medo. O amor trancou a casa, correu do bicho comigo, e me jurou vários segredos.
Eu vi o amor aumentando, deixando de ser caçula, depois deixando de ser do meio. Não é 'val',  não é val... como eu disse, eu cheguei primeiro, e agora nem a mulher do padre o amor era mais. O amor era quatro e disputou atenção, ele cresceu, distanciou, ficou igual antes e beijou primeiro do que eu. O amor me viu cantar, chorar, despencar e rezou comigo. O amor me viu sonhar e querer, colocou bota e chapéu, me levou para os bares, deu comida para as tartarugas e encheu o copo comigo.
O amor às vezes só queria dormir pra sempre. Quando eu acordei, o amor estava em todos os detalhes, em todas as cenas, na sombra da infância, nas dúvidas da adolescência, e nas oportunidades de ser mais adulta. Quando eu acordei o amor estava em todos os lugares e era um MAR imenso, muito grande mesmo, que deveria caber em um nome, que deveria ter um apelido.
Eu cheguei primeiro, depois de mim, o amor: Nina 




  

quarta-feira, 4 de maio de 2016

O bairro

Tem um lugar atrás do meu bairro que no meu sonho é diferente. Quando eu estou dormindo é diferente. Me obrigam a buscar alguma coisa nesse lugar, e eu nunca sei porque eu vou, mas sempre sei que sentirei medo. Eu obedeço as ordens de alguém que eu não vejo, e quando estou lá acordada, aqui eu estou dormindo. Eu sou eu, há muito tempo atrás. Tem uma igreja enorme que arranha o céu, e de repente eu estou rezando muito mais do que eu rezo, de tanto medo. O diabo é um pretexto quando eu estou acordada. Lá, deus é que é. Mesmo assim, minha esperança é fugir. Fica sempre aquela impressão de que preciso enganar alguém, de que meu tempo está passando. Eu vou conseguir. Meu cheiro é lamentável, minha cabeça coça, minhas pernas estão roxas debaixo de um vestido que pesa. Tenho a impressão de que as minhas partes intimas são da cidade inteira. Eu não sou sagrada. Não sinto fome, não tenho dinheiro, mas de alguma forma eu sei que sou importante, eu estou fugindo. Os homens me apavoram, me traçam, me lambem. Tem uma caveira na porta da casa de uma macumbeira nesse bairro. Ao mesmo tempo que eu sei que é pra lá que tenho que ir, eu me escondo. Fico o tempo inteiro frenética, paranóica. Não sei porque, mas moro com mulheres que costuram e nunca as vejo. Somente os panos e retalhos por toda a casa, e eu me identifico com eles... perdidos em pedaços, não transformados, restos e restos... Pra onde eu corro eu nunca sei. Se eu não me movimento, me sinto cada vez mais enraizada no medo. Eu acordo sempre antes de encontrar uma solução. Aliviada e pertubada ao mesmo tempo, me pergunto o resto do dia se eu corria em busca de coragem ou em vão. Queria eu, ali dormindo, não voltar nunca mais pra descobrir. Mas os dias passam, os anos acabam, e uma hora ou outra quando eu não estiver acordada , lá estou eu... cumprindo ordens naquele bairro. 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Muita sorte - Parte I

Genivaldo nunca me ouviu direito, o que também não significava que me ouvia errado. Tudo que meu marido ouvia era o que ele queria ouvir. Essa era sua maior qualidade, e eu ficava impressionada em como Genivaldo tinha realmente nascido com esse dom. Quando pessoas como eu, cruzam o caminho de pessoas como o do Genivaldo, ter passado a maior parte da vida meio perdida e seguindo o que as pessoas pedem para que você faça e para que você conclua, começa a parecer uma grande sorte na vida. Pelo menos era isso que minha mãe dizia quando abotoava meu vestido de casamento. Você tem muita sorte minha filha, muita sorte. Uma pessoa decidida como o Genivaldo não é fácil de encontrar. Minha vó arrumava minha grinalda, tentando não transparecer a pena que sentia de mim. Ela bem sabia que eu não estava preparada para um casamento, mas como também considerava Genivaldo o cara, eu era uma menina que poderia ser uma mulher de sorte.
Pode ser também que eu já tenha nascida sortuda. Essa piedade me acompanhou na época do colegial. Professoras falavam coisas parecidas. Você tem sorte, só passou porque o conselho de classe te ajudou. Você tem sorte, a coordenadora não vai mandar cartas avisando de suas notas baixas dessa vez. Quando o apartamento estava pronto, meu irmão, numa visita com seus filhos, também disse. Você tem muita sorte, seu apartamento é realmente muito bonito maninha.
Demorei alguns anos pra perceber que as cores do apartamento, no final das contas nem era eu que tínha escolhido. Genivaldo tinha essa qualidade também, de parecer que eu era muito boa em escolher cores de paredes. Brigava comigo durante uma semana porque eu não me importava com as paredes do nosso próprio ninho. Depois, quando eu finalmente escolhia a cor, dizia que ela era boa, me dava um beijo e em seguida fazia uma cara de apaixonado e falava estar feliz por eu ter me esforçado. Daí então, escolhia ele mesmo, outra cor para pintar as paredes.
Enquanto fazíamos amor, Genivaldo era realmente o homem da minha vida. Aliás, era o único. Mas eu não gostava do cheiro do Genivaldo no meu corpo por muito tempo. Não sei como fui capaz disso, mas a verdade é que um dos motivos que me manteve firme no altar, era um pouco minha dependência sexual por Genivaldo. Não parece muito saudável falar sobre isso, mas evitei muitas brigas para que não ficássemos sem sexo quando fossemos nos deitar. E concordei com ele, em inúmeros problemas, mesmo que eu estivesse certa, por causa do sexo. Conviver com o Genivaldo sem o sexo, era insuportável pra mim. E não era bem o sexo que ele fazia propriamente dito, que me amarrava por completo. É claro que meu marido me fodia com qualidade, mas o que estou tentando dizer, era que Genivaldo me fazia sentir ser muito mais do que eu podia imaginar durante o sexo. Essa sensação de poder me agradava, me excitava e o principal! Me fazia sentir viva. Eu bem sabia que eu nunca fui realmente a mulher mais gostosa da vida de Genivaldo. Eu era fogosa, mas inexperiente, pouco curiosa, e com alguns pudores ainda difíceis de serem quebrados. Eu tinha plena consciência disso inclusive. Mas minha vontade de agradá-lo entrava em guerra com minha vontade de ver até que ponto ele me aceitaria daquele jeitinho mesmo. Genivaldo soube como aproveitar a vida, conquistou e quebrou corações. Tenho a impressão de que me casei com Genivaldo também porque sinto uma inveja absurda de como ele sempre tinha histórias legais e sabia o que queria. Meu marido já havia me contado muitas histórias calientes da sua vida, não sei como ele teve coragem. Eu não contei nem que era virgem na nossa primeira vez. Era excitante pra mim, de certa forma, vê-lo desconfiado e sem coragem pra perguntar algo a respeito da minha vida sexual. Imagine só, ser enganado por uma virgem depois de tantas experiências. Pelas histórias, dava, inclusive, pra se ter uma noção de quem era a mulher que realmente havia pirado seu cabeção e que infelizmente não deu certo. Talvez, deus tenha me dado um dom também... fazer as pessoas se abrirem pra mim, sem muitos rodeios e como se eu fosse uma porta aberta para que elas entrem, largue seus fantasmas, saiam e me deixem mal assombrada pra sempre.
Não me lembro bem quando comecei a mentir pra mim mesma, mas comecei a me convencer que eu também podia ser a sorte da vida de Genivaldo. Quem sabe eu não era mesmo o que meu marido sempre sonhou. Quem sabe eu não era alguém completamente perdida que ele pudesse ouvir exatamente o que ele queria, o que ele desejava. Pra quem não sabe o que quer, qualquer coisa que vier é lucro? Isso de certa forma parecia ser muita sorte. Talvez, ignorar fatos importantes da minha realidade complexa e da minha falta de auto estima, fosse de alguma forma atraente, fácil de moldar. Minha enorme nuvem negra, nunca saiu de cima da minha cabeça. Eu trazia um quadro feminino depressivo de uma série de tantos faz, perceptivelmente na minha sombra. Não sei bem como poderia ser atraente dessa forma, mas Genivaldo quase me convenceu de que eu era uma jovem realmente sedutora. Demorou algum tempo pra que eu percebesse que existia uma fantasia bem pessoal e traumática de Genivaldo, ao meu redor. Ele sempre foi muito bem tratado e cobiçado por outras pretendentes e tinha um trauma meio maluco que o fazia procurar por alguém que se importasse menos, com todos os cuidados que uma relação deveria ter. Genivaldo tinha muito medo de descobrir que era um canalha eterno. E foi exigente com outras mulheres, mentiroso, e sentia culpas horríveis por não ter feito dar tão certo antes, como dita-se as regras das pessoas boazinhas. A sensação que eu tinha era que Genivaldo tinha me encontrado exatamente como ele queria. Pra ser o homem mais bonzinho possível, pra ser perfeito e nenhuma culpa ser sua de novo. Na hora certa de algum plano urgente que ele tinha, pra vida dele não dar tão errado, caso ele não tomasse uma decisão muito rápida de se aprumar na vida. Genivaldo não queria e nem tinha tempo a perder, pra me enxergar como eu realmente era e ao mesmo tempo via muitas soluções na minha imagem problemática. Por todos esses motivos errados e malucos, construímos uma paixão bem sacana e intensa. Quantos mistérios e jogos de poder cabem no nosso apartamento? Ser um fantoche nunca incomodou Genivaldo, isso era meio impressionante pra mim. Me incomodava ser um fantoche, mas ainda não o suficiente. Eu tinha curiosidade de saber até quando ele realmente iria manter tantas certezas e controle da nossa relação, ou mesmo até que ponto eu seria capaz de me deixar dominar e não demonstrar estar me importando tanto. Eu estava por dentro de tudo, e minha nuvem negra na cabeça inchava a cada dia mais e mais. Eu não trabalhava, mal estudava, e me divertia com a reação dos amigos de infância e colegas de trabalhos de Genivaldo, com a reação das ex- namoradas dele. E com a vontade que meu marido tinha de ser um homem tradicional a procura de uma família e uma história de amor perfeita comigo. Comigo visivelmente arruinada. De certa forma, o desespero de Genivaldo me dava um prazer estranho. Eu tentava pensar nisso inclusive, pra gozar mais rápido. E também nos olhares dos amigos de Genivaldo, do comportamento deles quando eu chegava nos lugares... eu parecia para eles, sagrada e ao mesmo tempo perfeita na minha condição. Era triste e divertido ao mesmo tempo, ver tudo e não transparecer nada. Perceber e obedecer.
Eu era péssima com serviços domésticos, e também não sabia cozinhar. Por mim, o apartamento podia dar bicho. Meu marido nunca fez questão que eu cozinhasse. Ele dizia que gostava de mim do jeitinho que eu era, e acabei sendo desse jeitinho em várias outras situações. Confesso que eu esperava todos os dias, pelo dia em que Genivaldo iria exigir um pouco mais de mim. Durante muitos anos, abri as portas dos restaurantes simples e chiquérrimos que Genivaldo me levava pra comer (de modo que parecia ser qualidade minha as escolhas dos restauranres), com uma imensa vontade de fugir. Depois de discutir por algumas horas no carro, por eu não me atentar nem em escolher o lugar que poderíamos nos alimentar, e quando eu finalmente escolhia, receber seu beijo e cara de apaixonado, por eu ter me esforçado e feito uma boa escolha... Escutei a sugestão de outro restaurante. Mas não é um dia bom para comer frango, ele disse. Tudo revirou no meu estômago. Fui obsediada por uma sensação maldita e corajosa de fingir estar indo no banheiro pra lavar as mãos e retocar o batom, para finalmente pular a janela. Com muita sorte, eu ia pegar o primeiro táxi lá fora, me dirigir a um terminal rodoviário, e fugir do que eu era com Genivaldo. Ainda era tempo de descobrir o que eu poderia ser? Não tinha jeito pra mim com Genivaldo. Eu tinha sorte de ser daquele jeitinho mesmo?  

segunda-feira, 28 de março de 2016

cenário perfeito

Voltei pra escrever sobre um deserto atrás dessa porta. Dos buracos que fechei, disfarçado de romantismo e que esteve há alguns dias soprando uma desesperança. Por incrível que pareça, nosso carnaval sem máscaras, trocou nossas crianças. Conversando com ela, sobre você e tudo que você não me disse, fumávamos um cigarro, sentadas num tronco afastado da mesa principal. A gente dava gargalhada sobre a que ponto somos capazes de permitir lacunas dentro do nosso peito e como somos ingênuas e irrecuperáveis. Aquela noite, prometemos que iriamos dar até um beijo de solidariedade. Às vezes me pergunto até quando vou ter essa mania aventureira de beijar na boca das pessoas por amizade. Quando eu ou ela entendermos porque buracos se constroem tão rápido e sem permissão aqui dentro, no centro, e as vezes tão devastadores na caixa torácica, não precisaremos mais ficar por anos tentando compreender se a  culpa é dos causadores ou nossa. A culpa vai ser finalmente apenas uma fumaça. E conversando sobre tudo que você nem me disse, ela fazia piadas rápidas e diretas das minhas paranoias, que por deus... eu adoro. Tornar algo trágico em comédia, é uma arte para poucas. Eu deveria ter percebido dali que tragédia com mistério não vai combinar nunca comigo. E meio altas da catuaba, eu e ela planejávamos maneiras mirabolantes de se comportar quando você chegasse. Cenas de como iriamos fingir que eu nunca estive tão entusiasmada e cativada assim. Cenas de que você nunca foi pauta nas nossas conversas. Cenas de muita mentira e ações decoradas, caso você entrasse por aquele portão desconfiada de que eu podia ser alguma desesperada. É mais elegante não falar sobre o que se sente. O papelão e a vergonha, depois dos vinte e tantos anos, vem deixando de existir. Mesmo assim, ainda consigo ser muito deselegante, muito honesta, muito sossegada, e se for pra ser será é o caralho. Depois dos vinte e tantos anos, se for pra ser, a gente simplesmente faz acontecer. É chato agora, tudo que coopera com regras misteriosas, discretas e processos lentos. Vai pro ralo nas atuais circunstâncias o que é devagar. Mas eu confesso que por um longo tempo, eu já achei muito bonito essa calma toda pra desenrolar histórias que querem ser vividas. É bonito e chega a ser sagrada, essa crença de que forças ocultas vão fazer a nossa parte. É chato agora. E conversando sobre tudo que você não me disse, eu e ela ríamos das piadas da internet, e eu bebia as cervejas pensando no quanto a catuaba me esquentou depressa, “que felicidade estou sentindo agora”, eu dizia e ela sorria concordando. Ela fazia brincadeiras de que você ia chegar a qualquer momento por aquele portão, e meus sustos eram cômicos e trágicos ao mesmo tempo. Ela me dizia “sua cara achando que ela vai entrar por aquela porta é impagável”, nós sorríamos atrapalhadas em cima daquele tronco, quase caindo... quando você chegou de verdade, mudando todo nosso humor e nos fazendo entrar em cena depressa.

Na ousadia, você mal cumprimentou as pessoas da mesa e já foi diretamente ao tronco em que eu e ela estávamos prontas pra encenar. Vadia. Marcação cerrada. Apaguei o cigarro e você apertou a minha mão, seguida de uma brincadeira sem vergonha de terminar o aperto feito pinça. Pinçando três vezes a palma da minha mão, três vezes no centro da palma da minha mão... Sádica. Você não presta. Me perguntou então, com a boca cheia de dentes, se eu estou bem, como se eu fizesse realmente parte de alguma preocupação. Ainda paralisada da brincadeira feita na minha mão, uma vergonha sobrenatural se apossa do meu corpo. Ardilosa. Quem sabe é a vergonha acumulada que eu não tive de ter poupado minha declaração antes. Talvez eu precisasse beber aquela noite muito mais do que havia planejado. Cinza. Você é cinza. Nem preto, nem branco. “Pra quê tá fazendo isso com minha mão?!”, digo inquieta, e você sorri de um jeito que eu já sei que foi ponto pra você. Misteriosa, tem hora que parece até o meu pai. Descubro que estar nervosa e confusa foi um prazer imenso do qual eu não gozei. Eu queria falar um monólogo sobre como aquilo era constrangedor e você fez de propósito, mas hoje não. Eu vou dançar como se essa noite fosse uma despedida, vou sacudir meu corpo de olhos bem fechados pra enxergar o que está aqui dentro de mim e entender que o fato de eu ter me declarado não quer dizer absolutamente nenhuma fraqueza minha. Fico. Rebolo. Sinceramente gostaria de te deixar curiosa sobre o quanto seria mais interessante estarmos nos conhecendo. Eu sou de verdade, mulher. Vivo sincera numa lua sempre cheia. De repente, tenho a sensação de que estou maravilhosa de verde, e me vejo fora do meu corpo e também como se eu fosse você. Como se eu estivesse dentro de você, me vendo através dos seus olhos. E é acreditando nessa sensação que a noite passa a ser comandada por mim. Quando eu abrir os meus olhos, vou ver os teus exatamente do jeito que eu vi nesse carnaval sem máscaras... fugindo mulher. Assustada, fugindo, e tentando fingir que nem estou ali, dançando livremente. Preciso fazer xixi. Um passo que eu dou para fora do banheiro, lá está você. Me seguiu, arteira? Me enlaça. Me aperta. Estamos na parede. É beijo. Guardo como fotografia, a memória da tua safadeza, o barulho do meu sorriso surpresa, e o olhar de quando abri a porta do banheiro, pensando que você queria usar. Mas não era o banheiro, era sua coragem. E não desperdiço essa memória que me dá certeza e sinais de que por algum momento eu estava certa, absolutamente certa. Você também me queria. Compreendo agora que uma porta pode se abrir sem trinco. Eu perdi a oportunidade de comentar que teus lábios tem um gosto maravilhoso de impossível. Eu fiquei com muita raiva nos dias seguintes... foram lamentáveis e a cena que se repetiu por horas e horas no meu dia foi a tua safadeza. Queimo. Se eu não faço isso, tudo por dentro agora estaria devorado. Segui o manual, de me jogar na rua de novo. Rabiscar a parte que eu errei de novo, criar novos sentimentos e tribunais de defesa de novo. Desmanchei você, como a lei diz que tem que ser, e como aquele pôr do sol chapado em que nos vimos pela primeira vez, também se desmanchou para dar espaço pra noite. Aquele dia você chegou atrasada, e não desceu daquele carro sozinha, desceu bordando uma besteira enorme e bem particular na minha cabeça. Quanta bobagem... queria ilustrar que desde o início do teu chegar eu não poderia mais ser comum. Você expirava a fumaça e sorria, e aquilo já era o cenário perfeito para a beira do colapso que podia chegar com a minha permissão. Não percebi de tanto brincar, o quanto eu de repente queria ser muito interessante e notada. Quantas pessoas estão atrás e por trás das nossas portas? Eu deveria ter sido mais inteligente, ter roubado seu livro de poesias, devolvido com bilhetes, pedido caronas desnecessárias, desmarcado compromissos... é tarde e você estava certa. Eu sou muito rápida mesmo, parecida com a tua coragem imediata. A mesma que me estragou por alguns dias. Juro que estava fora do meu alcance, e do meu infinito tribunal, não me interessar por você. Não tem porque procurar meus erros, se eram apenas seus medos. Não tem porque procurar meus erros, se era apenas nosso desejo, nós duas na parede sorrindo por motivos tão diferentes que não demorou muito pra que você apertasse o gatilho. “Imediatista!”, você disse e então era esse o meu erro. Um erro que te trouxe pra perto. Que acerto! Que beijo! Então, você nem queria mesmo usar o banheiro. Coragem ou covarde... o que é que importa? Meu dever volta a ser o mesmo...fechar a porta e permitir começar um novo deserto no quarto do meu coração. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

o chão continua periodicamente limpo

Desde os tempos das balas de prata, é sobre fantasmas que eu sei conversar. É sobre eles que eu falo e suspeito. Eu os sinto por perto. É deles inclusive que tenho medo do abandono. É tudo tão ao mesmo tempo que não da tempo de ter uma ideia exata se tenho medo por tê-los por perto ou se tenho medo de sentir falta deles por me sentir sozinha. É confuso, mas de certo modo eu me acostumei a estar acompanhada por eles. Me pergunto as vezes porque eles não são capazes de me dar pistas mais concretas sobre o porão. Continuo cavando esse buraco mais e mais fundo, sendo observada por eles ou não. O que eu sei é que até um tempo atrás, não sabia muito bem porque cavava. Mas cavava com medo e escondida. É sempre essa compaixão inerte que pulsa, minha espinha tem poder de ordenar e fazer ter certeza das coisas que eu faço. Minha moral é muito grande. As vezes eu não consigo conviver tanto com ela, quanto mais eu cavo, mais eu encontro tantos erros que podem ser reaproveitados enterrados. São tantos que um dia pretendo compreender... por que os caminhos da vida são tão longos no inicio? A estupidez ganha um espaço grande demais no terreno intocável da minha areia. Uma paz estranha senta na minha calçada, mesmo que eu esteja em pequenos voos, em pequenas quedas, entrando e saindo. Me pergunto até que ponto sou eu mesma que esteja escrevendo minha própria história. E se for uma linha fina e obscura do destino puxando um grande fio no meio da minha cabeça? A realidade é tão estranha, não tem tempo, nem quadrado, nem parede. É por isso que eu continuo cavando. Busco a vida inteira por esse momento, eu consigo. Mas essa precisão de continuar cavando o buraco cada vez mais fundo, mesmo que muitas dúvidas continuem pelo jardim... algum dia... o sol nascerá mais claro com todas as explicações que talvez um pedacinho de mim ainda queira?! Eu sou mais torta, mais fora do eixo. Quantos anos haverão de chegar para que eu compreenda que espécie de sentimento era esse que me ordenava coisas, caminhava comigo e ainda respira ao meu lado. Ando escutando o barulho daquele chaveiro se quebrando, do cavalo correndo sem a cabeça, da porta daquele carro batendo, da chuva caindo de repente, do grito e o choro. Agora que você é assim, pode me responder se o tempo mostra que algumas coisas sempre estiveram lá? Ou elas sempre existirão? O meu estado é crítico quando paro pra pensar infinitivamente em qual seria a culpa que ainda me impede de dizer as coisas que eu nunca descobri. As coisas que eu pensei que seriam mais fáceis de descobrir com o tempo, escritas em um papel que nunca basta. As coisas que me transformam pra sempre, agora, nesse minuto e amanhã sucessivamente. O que é que pode realmente me machucar? Talvez se eu descesse no porão poderia tentar entender para dar um passo a frente e ai quem sabe descobrir que não é nada demais. O problema é que esses dias eu percebi que sou apaixonada por tudo isso. Apaixonada pelos detalhes e minúcias. E não é atoa que eu prefiro manter tudo intacto aqui dentro. Intacto pra nunca precisar descobrir o presente. Agora eu sei que quando estou dormindo, estou pintando todas as paredes desse museu que eu guardo dentro da minha cabeça. Quando estou dormindo estou lá, e nunca estou disposta a deixar que o museu dê aranhas, nunca deixo que as luzes se apaguem, e estou sempre de olho nas falhas da instalação, na poeria das janelas e observando se o chão continua periodicamente limpo. A verdade não dói mais, mas é absurda. Revela uma construção que cresceu em mim, enquanto eu dormia sonhando que no fundo eu nunca estive disposta a deixá-la. Eu não quero esquecer. É no museu que posso ter uma garantia de que talvez esteja sendo observada e em companhia pra sempre. 

domingo, 31 de janeiro de 2016

Vou menstruar em um miolo de pão

Se você me bater de novo Aurélia, juro que um dia eu vou te chupar até a morte. Seus olhos vão ser virados pra sempre e nesse dia vou esconder teu corpo debaixo da minha cama e faço questão de beijar a tua boca fria antes de te enfiar dentro do meu fogão. Pra ver se você aprende a deixar de ser insensível, meu amor, pra ver se você aprende a se manter quente pra sempre. Você vai feder a casa inteira, vai empestear essa casa igualzinho quando você diz que vai embora, quando você realmente vai embora. Mas dessa vez sou eu Aurélia, sou eu que vou te fazer empestear a casa. E eu vou guardar um pedaço do seu cabelo pra me masturbar as vezes e nunca mais quero ouvir a sua voz, ouviu bem? Nunca mais. Você vai morrer de prazer mulher. Nossa relação acabará fatalmente melhor do que das outras vezes. Eu vou me entregar na polícia, não se preocupe. Ainda mantenho um bom coração. Vou menstruar em um miolo de pão lá na cadeia e passar dias e noites lutando por um cigarrinho qualquer pra saciar a minha primeira vez Aurélia, a minha primeira vez em poder decidir cortar meu cabelo do jeitinho que eu quero e não do jeito que você gosta. Lá provavelmente não vai ter o shampoo que eu gosto, então é melhor ter menos cabelo mesmo. Eu quero que você suma quando eu estiver lá dentro. Vai ter muitas mulheres lá dentro, eu vou gozar outra vez Aurélia. Vou me perguntar muitas vezes se você criou essa espécie que eu sou agora ou se eu nasci assim e você apenas fez minha máscara cair. Até nisso você vai continuar querendo estar viva. Você caça muitas maneiras de estar viva dentro de mim Aurélia. E por muito tempo eu quase acreditei que era eu que inventava essas coisas, mas é verdade... você entra dentro da minha cabeça que eu sei. As pessoas mudam ou apenas se revelam Aurélia? Os meus dedos sujos não me darão paz sem as respostas, vou querer morrer de prazer também. Mas nada será capaz de me destruir, porque você não estará mais por aqui. Pra não sentir ciúmes, furei meus próprios olhos Aurélia, pra não te machucar, arranquei todas as minhas unhas, pra não me despedaçar, quebrei as roseiras que você mais gostava daquela janela amarela. Eu sempre me disse, depois que você virava as costas me dizendo já chega, que um dia era a minha vez, que um dia eu iria me livrar de você. Eu fui o gato ou o sapato? Quem é que sabe a essa altura do campeonato. No começo eu tinha certeza que eu tava certa. Eu era a vítima Aurélia, você sabia disso melhor do que ninguém. Mas o que foi que você fez que eu não me reconheço mais? O que foi que você fez depois que seu gosto já estava entre os meus dentes... um dia você acha que a gente daria certo casadas? Talvez um papel mude as coisas. Ou quem sabe são as coisas que mudam os papéis, não é mesmo minha flor...O certo é que eu vou menstruar num miolo de pão ou você vai acabar sendo ainda mais esperta do que eu Aurélia, como sempre desconfiei no fundo, no fundo, que fosse. Um dia eu vou te chupar tanto que você vai me matar primeiro Aurélia... asfixiada no meio das tuas pernas, eu vou morrer com a boca aberta e sorrindo. 

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Outra pessoa

Querer ser de novo, trazendo o bem e o mal, o desagrado e o conforto pueril, a memória do caminho atravessado. Aqueles olhares estúpidos, as palavras machucadas, um balde de gargalhadas num porão de escadas de lágrimas. Não desço, eu esqueço se sei nadar às vezes. A única coisa que eu sempre sei é que as batidas do coração parecem os passos de alguém que vai me pegar. O que eu possuo de fato? Parece ser tão verdadeiro e tão misterioso ao mesmo tempo, o que eu preciso pra enxergar? A vida me deixa cega das minhas posses. A atenção que concentro naquelas fraquezas, diminui minhas melhores descobertas, meus melhores atos de coragem.  O que eu sou? Uma mulher ou um gato? Corro magrela desesperada, desesperada, onde está minha proteção? Porque preciso correr tanto? Sinto medo e carrego comigo sempre que me sento na mesa. Abro portas e calço sapatos. Tenho medo, vocês sabem como isso funciona de verdade? Então, eu me afasto. Quantos anos são precisos para aumentar as pinceladas de uma reforma e tudo que preciso lembrar de outras formas? 
Complicar... sempre muito! Minha alegria, os roubos e sorrisos colecionados, as cartas que eu parei de escrever, eu não tenho mais cheiro. Chegou aquela idade em que antecipo meus anos. Me imagino voando sangrenta, não sou mais tão especial. Comporto-me no entanto, o tempo inteiro esquecendo-me dessa parte. Natural no mundo das aranhas, que destroem as próprias teias, vocês sabem praticamente do quê? Há uma dimensão! E me levaram pra lá, o tempo é diferente, como de erva, como de uma cidade de faroeste, de casa mal assombrada. Tantos fantasmas viciados em me seduzir. Aonde é que está o brilho dos olhos deles? E a sensação de sextas feiras intermináveis? 
Nós bebíamos tão alegres, não sinto mais nenhuma vontade. Eu queria entender que tipo de dia vem amanhecendo por aqui. O tipo da música que eu sou capaz de ouvir, e o porquê desconfiar de tantos sentidos.Tem algo um pouco errado nisso tudo que eu deixei pra mim. Algo errado na forma como eu me lembro disso sempre. 
Existe algo completamente fora da caixinha quando me veem as memórias dispersas, aleatórias, cheias de suspeitas certeiras...cheio de certezas cretinas. 
Há algo errado em como virei tudo de cabeça para baixo, depois revirei, depois ficou meio torto ou foi assim mesmo que deveria ficar. Eu, simplesmente sacudida, remexida, não me comportei como devia, não achei necessário. Já não sei o que são teorias e fatos. Mas há algo certo em eu não querer ser certa da cabeça. Há algo simplesmente verdadeiro em eu não querer ser tão certa da cabeça. Vem de dentro, uma força louca de não querer. No mais, mexeram nas pegadas que deixei pra mim, algum tempo atrás nessa mata. Apagaram, passaram por cima. Mas eu não sou infeliz completamente. Apenas fico perdida sem minhas pegadas, fica mais difícil procurar meu lugar desse jeito. Reviraram minha natureza, as flores estão com cores que eu não sei codificar. Eu queria tudo vermelho, depois eu queria tudo azul. O cheiro do mato me conta que as folhas que caem também sentem e assobiam os segredos das pegadas que eu deixei e não estão mais aqui.
Quero me enterrar desde então, me enterrar desde o início não. Onde está a minha sombra de quatro patas em meio aquelas outras crianças, e por que rezam tanto por mim? Tão cedo, tão cedo hoje eu vejo... trazem seus homens para que me devorem em nome do amor, e discretamente cortam meus pêlos, arrancam minhas presas, me colocam de pé, somem com o meu rabo... eles querem me enterrar, desde o começo.
Eu me enfureço comigo mesma, como deixei passar... eles me queimam viva, viva! Eu sinto o fogo pela minha pele, eu me coço todos os dias. Coço até envergar. Carbonizam meu coração, petrificam minhas garras... eu me coço, eu luto pela minha salvação? Preciso correr e vão entender que eu não vou caber nessas jaulas. Preciso acordar, antes que eles me engulam... eu fui embora, sem conseguir te amordaçar.
Os meus feitiços, cada vez mais fracos, não cortam nem um pouco dos meus pulsos sem amor. Teria tempo pra ser tímida, tempo pra ser discreta, misteriosa, alegre e bem resolvida. Mas não teria tempo para aquele pedaço pequenininho de mim, aquele pedaço inquieto e imenso de que eu podia mais, permitir muito mais, fazer mais por mim, dizer mais, contar a minha história com orgulho. Meus desejos saem pra fora do meu corpo, fingindo, torcendo, eu sou outra pessoa. Eu achava que a alma era algo que a gente controlava muito bem. Eu sou outra pessoa. Você não atravessou a rua, eu vi. Eu tinha algumas regras na minha cabeça. Eu sou outra pessoa. Agora tenho algumas regras de casa, do mundo, da rua e também da minha cabeça, mas com algumas crenças perfeitamente abertas para serem mudadas. Eu me movimento, é uma admiração infinita, mas... passou muito tempo? As vezes você não tem medo das coisas pra você também parecerem que continuam iguais? As coisas as vezes não mudam. Não quero me sentir assombrada, eu preciso muito de perguntas e fazer quadrados, uma hora eu danço essa dança aí. Eu sou outra pessoa, eu escuto um grito. Queria mexer nisso, eu escuto um grito, e vi que você não atravessou a rua... uma hora eu danço essa dança aí. 
Às vezes tenho vontade de saber porque certos capítulos tem tantos pactos com o diabo. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

nas vias de minhas aortas.

A carne desprendida da alma penada dos meus portões. As fadas esvoaçantes pelas canções de ninar, onde exatamente que fui parar? Aquele vestido nunca esteve de fato predestinado, quanto minhas fugas, sobre minhas fugas. E quando esse sono vir, milhares de fugas se reprogramam. Quanto tempo preciso para ser devolvida? A lembrança criança e adulta ao mesmo tempo. Uma hora pura, enxuta, séria, depois malícia, seca. A lembrança se tornou mais responsável do que eu, e do que se pode imaginar. Esses pés severos pisam em tantas florestas que fica difícil compreender até que ponto mantem-se a posse sem pose, sem relógio... o monopólio não está mais nas vias de minhas aortas, não está...estava sangrando e agora alada por anos. Alada sem cessar e preocupar com ruas escuras e abraços inseticidas. Onde mais pode se camuflar? Cansada, porque minha alma veio azul, mas até feliz. É tão difícil manter a ordem, minha força cresce como coceira na pele, sou uma transformação ambulante. E se de repente ainda não sou eu? Estico meus braços e não alcanço os céus nem nas pretensões. As vezes desconfio que eu choro, mas ninguém pode ver. Eu não sou inteira, eu sou um monte de pedaços. Me solta.  As gavetas todas vazias para o meu desespero. A lembrança realmente criança e adulta pela última vez. Com aquele abraço eu vejo um belo par de olhos. Você não dorme? Arrancas minha carne. Eu não sou inteira, eu sou um monte de pedaços.Me come, me come, me come. Remenda minha carne sem alma. Me enterra tão longe. Onde exatamente eu fui parar? Não dá mais pra fugir? Me solta. Estou sem vestido, mas com milhares de fugas que não deram certo. O medo aumenta de acordo com as batidas do meu peito. Eu ando no escuro. Eu ando na umidade. Onde tem bicho, eu sou comida e temida. Não tem janela nessa casa. Escuto os pés severos pisarem na floresta, galhos quebrando como minha esperança de continuar viva. Eu voou mas é uma liberdade estranha, uma liberdade que não solta com o vento. As vezes meu ambiente parece ser de papel, a qualquer momento rasgado, amassado, destruído. Onde exatamente que eu fui parar? Odeio canções de ninar. Ainda consigo fugir? Que horas são? Na floresta escurece? Preciso passar. Alada por anos, sem reclamar. Alguém fez isso comigo? Sem alma, sem alma. Estou azul em alguns momentos, e eles vão se arrepender. Um dia farei fogueira, e tudo isso aqui vai queimar.


sábado, 22 de agosto de 2015

Querido diário, vou ter que usar sutiã igual a mamãe.


Querido diário, queria que todos os dias fossem sexta-feira. Mamãe nos busca na escola nesse dia, com seus óculos escuros e batom vermelho e ela nos pergunta como foi a aula e depois canta junto ao cd do carro, aquelas músicas, todas aquelas músicas que dão pontadas no meu coração. É muito bom ver ela feliz, é muito bom quando ela nos busca. Querido diário, eu queria que todos os dias fossem depois das cinco, que escuto o portão da garagem se abrindo e corro para área com a Nina, só de calcinha em pulos de festa, porque ela finalmente chegou e vai descer com seus vestidos longos e quase caindo carregando tantas pastas e livros, sorrindo, contando dos seus alunos e falando de amor. A mamãe adora falar de amor, ela não cansa de falar de amor. Ela me disse que ele não tem como medir, e que é do tanto dos números, e que a distância daqui da terra até a lua é menor do que o tamanho que ele tem, ele é bem grandão mesmo. Querido diário, eu queria saber porque quando vamos ao clube, ela não gosta de entrar na piscina como eu, porque ela gosta tanto de sol e de marca de biquíni, eu queria saber também porque o tempo passa tão rápido quando ela está em casa, e tão devagar quando ela não está. Estamos brincando de inventar e criar histórias as vezes, e é bem legal, cada uma tem um tempo pra continuar a história, mas Nina sempre quer fazer palhaçada. Querido diário, queria saber por que ela está chorando atrás da casa, mas não consigo perguntar. Querido diário, a mamãe disse que se eu continuar assistindo televisão desse tanto vou ficar muito burra. Querido diário queria saber porque ela viajou de novo, e de novo, e de novo... Querido diário, porque ela parou de cantar e comprar cd’s? Por que agora vai doar todos os seus vestidos? Eu até que achava eles bonitos... Queria saber porque ela pinta tanto o cabelo,  porque leu você, porque sua penteadeira é meu lugar preferido quando ela não está em casa. Querido diário, eu odeio a mamãe! Ela cortou meu cabelo curto! E mudei de escola! Querido diário, porque ela e papai não beijam na boca toda hora, como os casais dos filmes? Queria saber porque não sinto medo quando ela está por perto. Ainda bem que ela já tinha chegado quando eu acordei daquele pesadelo. Querido diário, a mamãe me mata de rir, acho que ela é meio doida, mas mesmo assim eu gosto dela. Querido diário, a mamãe vai me matar! Tirei nota baixa em matemática de novo, e agora?! Querido diário, ela insiste em brincar sobre namorados, eu nunca vou namorar só de raiva. Querido diário, a barriga da minha mãe está enorme, vou ter um irmão, e a casa tá toda reformando, mamãe parece entediada. Querido diário, a mamãe disse que tudo na vida engorda e envelhece, será? Querido diário, meu irmão quebrou todos os cd's dela e ela não tá nem ai. Querido diário, ela adora que a gente imite ela e fica pedindo toda hora... a mamãe é sem noção. Querido diário, meu peito cresceu, vou ter que usar sutiã igual a mamãe. Não vou mais escrever aqui, preciso escrever em um caderno novo, mas tudo bem. 

domingo, 26 de julho de 2015

Quando me dei conta tínhamos percorrrido quilômetros de dedicação.

Contigo vejo a vida como uma comédia trágica. Eu rio, eu choro, eu to ruim, eu to ótima! Eu to num roteiro de cinema, num cavalo que eu resolvi subir com todo meu idealismo e seguir sem fim. Uma Dom quixote a procura de pintar qualquer coisinha que acontecer, qualquer coisinha que eu ouvir e qualquer pessoa que eu conhecer, com a tinta de uma grande aventura. E de aventura a aventura, eu vou pincelando a vida da cor de uma fantasia que a vida real deixa de parecer ser um acontecimento cujo a gente seja obrigada a viver. 
Você está exatamente ai, quase uma Sancho sem nenhuma pança. Você está sempre por perto. Subiu num cavalo que estava do lado do meu, e começou a sorrir, fazer imitações e telefonemas. Quando eu me dei conta, tínhamos percorrido quilômetros de dedicação, quilômetros de manias e confidências, quilômetros de lances que com você o riso era certeiro. Eu não vi você chegando, nem nos corredores, nem nos ônibus, e aonde você chega é claro que as pessoas te veem, porque você é muito bonita e trabalha com isso. Mas será que todos sabem o que eu sei? Beleza é realmente algo tão relativo às vezes...E o que chama a atenção de uma pessoa, nem sempre é o que chama a atenção da outra.
“Deixa de ser produto da mídia, evolui!”, eu dizia quanto as suas preocupações. “Tá parecendo uma gralha! Não tô dando conta de acompanhar”, você me dizia quando eu disparava a conversar. E quem diria que aquela brincadeira que adentramos por motivos diferentes, fosse argamassa para a construção de uma amizade tão sólida e singular como essa que temos agora. Essa que sorri da impotência que a distância tem no nosso percurso, no roteiro, nos comentários tão vivos, nas paranoias e piadas mais sórdidas e clandestinas... apaga, apaga. Nessa, que você é presente e demarca território. É claro que cada amizade tem sua particularidade, cada amizade tem suas insinuações... Mas você é terrível! E com você eu sou incrivelmente humana... Você está naturalmente em quase tudo que eu acho engraçado, em quase tudo que eu brevemente necessito para ser pervertida, pra me sentir menos hipócrita e você brinca e exorciza meus monstros e me faz sentir sempre tão útil, tão especial, tão sagrada pra mim e pra você... agora! E amanhã sem falta, sinto que podemos percorrer qualquer caminho. Você não tem preguiça de gostar, de inventar, de enfeitar e de provar. Acaba que tudo fica mais leve com suas besteiras pesadas. E eu adoro notar até onde chegamos, adoro como tudo se adapta e o ritmo que a gente cresce. Nossa intimidade passada dos limites, os surtos. Algumas poucas vezes eu não sei o que fazer contigo... e a gente até brinca que se a vida não fosse tão trágica e comédia, ao mesmo tempo, se a vida não tivesse os limites que ela tem e não dependêssemos tanto do que a gente prefere, tudo isso merecia um belo pedido de casamento. Eu sou doida? 
Tiro a roupa e vou entrando na fogueira, eu te chamo pra dançar dentro dela. Por que com você eu nunca tenho medo de ser eu mesma, companheira? Você faz seus passos, pede para que eu te ame menos, mas com você minha grande amiga, eu viro uma verdade, uma fera ferida, uma mansidão, um choro, a testemunha de uma relação peculiar e corajosa, e o melhor... com você eu posso ser desgraçadamente podre, sim. Até isso eu posso ser. 
Magá, que coisa mais sem graça seriam os capítulos da minha história sem tuas surpresas, ideias geniais e novidades, que coisa mais sem graça seria não ter te conhecido mais a fundo e te mostrado minhas qualidades e defeitos... aliás até neles, me sinto mais capaz de superá-los com suas observações. Sempre foi difícil pra mim te escrever um texto, mas você simplesmente faz parte, caminha ao lado, reclama, diz o que acha, me passa trotes, apronta, se cansa, me xinga, disfarça, completa minhas piadas e eu fico boba...  nossas máscaras simplesmente não existem quando estamos juntas. Obrigada por me fazer sentir e dizer naturalmente: Eu te amo e cresço com você.




quarta-feira, 1 de julho de 2015

O pacto de que era proibido falar de amor.

Sem falar de amor, nós sempre reclamávamos de que não tinha nada pra fazer. Construíamos nossas casinhas, casávamos, eu com o rodo, a Nina com a vassoura e era festa pela casa inteira, dávamos nomes às bonecas, fazíamos comidinha, até que tudo perdia o sentido. Enjoávamos de estar casadas, nos divorciávamos do rodo e da vassoura no quintal mesmo, e jogávamos os nossos filhos no fundo do baú de brinquedos.
Decidíamos então que nossa brincadeira preferida só podia ser escolinha! Organizávamos as cadeiras, os diários, e dávamos nomes aos livros! Nossa escola ia ensinar a casa inteira! Papai chegava e brigava “Não quero ver mais nenhum livro meu rabiscado, ouviram?”. Até que enjoávamos de ensinar tanto aluno que não podia ter nome, tanto aluno mudo! E pulávamos para a rede numa série de apostas do ‘eu duvido’.
“Eu duvido que tu balance tão alto a ponto de triscar os pés no teto!”,“Eu duvido que tu é mais rápida do que eu!”, “Eu duvido que tu é mais forte do que eu!”, “Eu duvido que tu tem coragem!”
Parecia ser muito importante disputar desde a hora que se acordava até a hora de quem ia apagar a luz do quarto. Por algum motivo desconhecido, ter os mesmo pais, às vezes é motivo de guerra.
Quanto tempo demora pra compreender que o barato da vida mesmo, é quando descobrimos que eles são indiscutivelmente imperfeitos? E que mais legal do que isso, só mesmo quando temos uma pessoa do nosso lado que descobre as verdades, e o mundo junto com você? Que descobre os defeitos dos seus pais junto com você, que gosta da letra mais do que da música, que te desafiou a ficar debaixo da água, sem respirar, por mais tempo, que saiu da brincadeira porque menstruou primeiro, que sabia como ninguém do pacto. O pacto de que era proibido falar de amor.
Por algum motivo desconhecido, ter os mesmos pais, às vezes é mesmo motivo de guerra. “Vocês são irmãs, tem que ser unida!”. Proibido falar, sentir não. Ainda bem que as regras estão aí muitas vezes para serem quebradas. Quebradas como os teus dentes Nina, os três que eu quebrei. Ou o único que eu quebrei três vezes? Sei que duas vezes foi sem querer e uma sem querer querendo. A vida, eu e os teus dentes... somos muito frágeis.
Houve um tempo mesmo, em que brigávamos antes de ir à escola, na hora do almoço, no teatro, na natação, no meio da rua, na entrada e na saída dos lugares, pelo direito do maior lado do guarda roupa, pelo direito de quem não lavou o banheiro e a louça, pelo direito de andar logo no banheiro. Houve um tempo em que tudo simplesmente se resolvia com a cartada final do: “EU NÃO VOU MAIS BRICAR! E SOLTA MEUS BRINQUEDOS AGORA!”
Ainda assim, é impossível não se lembrar da união. A vida é frágil e insaciável. Éramos capazes de nos unir e transformar o nosso banheiro quebrado, por exemplo, em uma mansão enorme dentro das nossas cabeças, com uma banheira de espuma imaginária, ainda maior. Depois enjoávamos. Mas nos uníamos de novo, pra transformá-lo em uma fábrica de coleção de copos de iogurte! E ai enjoávamos de novo, pra nós unirmos novamente e criar um clubinho em que menino não entrava. Mas, quando percebíamos que nem conhecíamos meninos suficientes para impedi-los de entrar, o jeito éramos quem sabe virarmos pagãs... Bruxas! “Somos bruxas Nina, e nosso banheiro uma garagem de bruxa, vamos pendurar uma vassoura nessa parede e encher isso aqui de aranha e morcego! É isso que a gente é! Confia em mim...”
Um dia o banheiro foi consertado, e as vassouras na parede deram aranhas de verdade. Então o banheiro voltou a ser só banheiro mesmo. Vai entender nossa união e concorrência, vai entender essa vontade de ser alguma coisa todo dia. Quanto tempo leva pra saber que faz todo sentido a frase “Irmã tem que ser unida”? Ninguém melhor do que sua irmã para embarcar na feitiçaria, voltar junto da escola chutando uma pedrinha pra não perceber quanto tempo ainda falta pra chegar finalmente em casa. Ninguém melhor do que sua irmã para sorrir das mancadas da sua mãe. Ninguém melhor do que sua irmã pra ver seus irmãos menores cometendo os mesmos erros, manter as mesmas disputas e ter as mesmas crises e viagens de infância que tivemos.
Bom mesmo é quando descobrimos que não precisamos mais do ‘eu duvido’, bom mesmo é quando descobrimos que não somos melhores, nem piores que a outra... somos irmãs, o importante é que realmente tem que ser unida, somos um relicário imenso (daquela música que amávamos cantar juntas!) e de um amor que não precisa mais ser proibido. E já dizia Nando Reis, te amarei de janeiro a janeiro, até o mundo acabar. E quem sabe, construirmos tudo de novo...

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Saber a sua cor preferida é muito importante para todos nós! - Uma prece para o Téo.

Téo, você sabe quantas vezes a vida brincou com o coração da sua mãe? Eu posso te contar algumas coisas, mas eu prefiro te deixar curioso... Resiste Teozinho, para que a gente possa te contar essa história e também pra você saber que coração é bem mais forte do que a gente pensa. Sabe, desde a primeira vez que vi sua mãe costurando e todos aqueles panos, eu já entendia que a costura era algo muito além do que criar roupas e manter um negócio próprio. A sua mãe na verdade tem agulhas mágicas Téo. As agulhas dela constroem sonhos que foram destruídos, constroem trabalho em dias tediosos e tristes, criam fantasias em dias que a realidade está pra lá de crua, vestem garotas que precisam se sentir melhor e mais bonita, costura perguntas nas festas sobre “de onde veio esse lindo vestido?”, enfeitiça pessoas bobas, causa reflexão com aquelas lindas frases nas camisetas e esquenta a alma, dos desassossegados e insaciáveis...
Sua mãe não se cansa de costurar, e o nosso corpo Téo, também se costura sabia? O nosso corpo se abre, se estanca, sangra... é por isso que a gente tem que ter cuidado... e muitas vezes isso pode acontecer dentro da nossa alma também. Agora por exemplo, a alma de muitas pessoas que te amam estão roxas. Roxas de amor e espiritualidade, na torcida por você. Você conhece essa cor? Roxo? É uma cor bonita, eu acho... Qual sua a cor preferida Téo? Não se esqueça de que você precisa me contar sobre isso! Saber a sua cor preferida é muito importante para todos nós.
A alma Téo é invisível aos nossos olhos, mas existem boatos de que elas possuem cores. Você sabe quantas vezes as agulhas mágicas, nos bolsos da sua mãe também costuraram o coração dela, a cada vez que ele estancava?
Nós vamos te contar, mas de antemão, saiba que sua mãe é resistência, e te serve de exemplo! Tá no seu sangue Téo, ser resistência também. Você sabe o que isso significa? “Estar no seu sangue”? Significa que nas tuas veinhas circula vontade de que as coisas mudem, circula esperanças de que as mudanças que estão por vir melhorem os dias, circula força destemida de quem já caiu no fundo poço e não tinha forças para escalar, então nadou, nadou, e nadou... e quando achou que perderia o fôlego, viu no fundo, do fundo; do poço, uma luz. E muito mais água e mundo do que se podia imaginar. Encontrou um lago enorme que abastecia aquele poço tão pequeno. E encontrou também alívio, pois jamais poderia saber que existia esse lago, se tivesse ficado ali, parado para sempre. Quem não se movimenta Téo, não sente as correntes que o prende. Já dizia Rosa Luxemburgo, uma moça sabida que eu vou te resumir a história num sábado de sol muito divertido! Porque eu adoro contar histórias, você gosta de ouvi-las?
Dizem por ai Téo, que o poder da poesia salva um afogado. Seja poesia Téo. Coragem, porque nem sempre ser forte é parecer ser forte. Coragem na verdade é continuar mesmo que aos pedaços. É guardar os retalhos dentro de uma caixa, pra encontrar utilidades depois. Você sabia que sua mãe guardava vários retalhos em uma caixa? Ainda vou te contar essa história também.
Eu quero te ver sorrindo com a gente, todo pintando de tinta, viu? Sua mãe já deixou uma criança assim, sabia? Numa banheira de espuma! Ela vai te deixar brincar tanto! Porque ela adora deixar as pessoas felizes... Já to até vendo, você subindo em árvore, vasculhando gavetas, desenhando, correndo, gritando, ralando seus joelhos, com alguns galos na cabeça... ai que dorzinha chata! Mas não se preocupe com a dor Téo... Nesse planeta, é bom a gente acreditar que ela venha sempre para nos ensinar e provar, algo muito mais profundo... como o lago que a gente encontra apenas se nadar, nadar e nadar. Nunca pense que a dor venha apenas para que a gente sofra de fato. Quando abrirem seu coração, lembre-se de que mil preces  de amor o costuram para você continuar. 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Seu cabelo é tão bonito e ele sempre cresce para o alto!

Esses dias voltando de um exame dentro do ônibus, uma menininha que devia ter no máximo uns 9 anos, de marias chiquinhas e cabelo crespo toda esperta e comunicativa disse "quero sentar bem aí do seu lado", dei uma risada e disse "claro, claro". A menina gritou "mãe, vem pra cá! E olha o tanto que o cabelo dessa menina é lisinho... queria!", naquele momento meu coração apertou, então eu disse "O meu? Olha o tanto que seu cabelo é tão lindo quanto o meu! É igual os cabelos que eu vi em uma página da internet, onde várias garotas de cabelo crespo e cacheado ensinam a deixar bem bonitão! O seu cabelo é tão lindo! E ele sempre cresce para o alto!", a menina ficou me olhando confusa e disse "Sei lá... eu também gosto do meu cabelo!!! O da mamãe é chapinha, viu? Não acredita nela não!" e deu uma gargalhada caçoando a mãe. Eu olhei para a mãe e a mãe me disse "É muito difícil manter arrumado como ele é naturalmente, eu cansei", eu disse que entendia, meu ponto chegou e pisquei para a menina e ela sorriu e disse baixinho "o dela é liso de mentira!", sorri, como se tivéssemos um pacto e ela pudesse se sentir melhor por saber que poderia curtir cabelos 'serem de verdade'. E também torci... para que quando ela crescesse soubesse sem dúvidas e comparações algumas que seu cabelo era lindo de verdade e que ela poderia ficar do lado dele.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Téo, sua mãe é capricórnio e eu sou trouxa.

Téo, um dia você vai ler isso e vai rir muito. Eu não te conheço, mas eu tenho quase certeza de que você vai ser muito bonito, sensível e inteligente, porque seus pais são a Paula e o Daniel. Téo você não precisa saber quem eu sou exatamente, apenas me ouça... Se um dia você ver a sua mãe aflita, chame ela pra dançar! Nem que seja na cozinha! Ou então, vai no supermercado e compra um iogurte pra ela, coisas gostosas sempre deixam ela feliz. Se nada der certo, encha os pneus da bicicleta Téo, e chame ela pra dar uma volta, de preferência a noite, sua mãe talvez não saiba, mas ela adora correr perigo e se sentir corajosa de vez em quando. E se não estiver de noite, vá de manhã mesmo e parem em uma soverteria, ela realmente adora comer coisas gostosas. Se ela estiver feliz, aproveita Téo! Porque ela vai lavar o cabelo, e cheirar sabonete e os cachinhos dela vão balançar junto com o sorriso, ela vai querer beijar o cachorro e você em seguida, e eu não sei se até lá as coisas serão tão iguais, mas ela vai querer fazer uma festa, ou então, ela vai bagunçar a casa toda, espalhar materiais de costureira, ativista, cozinheira, estilista, artista e todo seu trabalho! Pelo chão e pela mesa, ela vai ligar o som Téo! E as músicas sempre vão transmitir alguma mensagem, mesmo que sejam repetidas, sempre vai ter alguma coisa nova que faça a gente acreditar que o amor invadiu o mundo ou que todos somos sentimentais, e o sorriso dela vai deixar os olhos dela pequenininhos e enrugados. Depois, ajude ela a arrumar tudo, porque se não ela vai dizer que é uma escrava, que está cansada de ajudar todo mundo e que sua máscara caiu Téo, ela vai dizer pra deus e o mundo que a sua máscara caiu. Mesmo assim Téo, você tem muita sorte, porque muito provavelmente, o Daniel e sua mãe conhecem muitas pessoas diferentes, pessoas sentimentais e que querem correr o mundo, pessoas coloridas e metidas a revolucionárias nas pequenas coisas, e... simplesmente, não ligue pra quando sua mãe estiver mal humorada, tente fingir que não está vendo, se afaste, ou sai correndo mesmo... sua mãe acha lindo pessoas malucas. Porque se você ficar pra escutar, ela vai falar coisas não tão legais e o pior! Que ela nunca mais vai se lembrar, e pelo que eu to vendo aqui, tu vai ser trouxa igual eu, tu vai ser de câncer, né? Menino do céu, sai correndo mesmo quando ela tiver decepcionada, porque ela vai te queimar pras visitas, vai esquecer que vocês dançaram na cozinha e que andaram de bicicleta, ela esquece de tudo Téo! Não vale nada... e vale tudo! Porque pode ser que no outro dia mesmo, a lua dela já se encontre em câncer, e de repente ela vai virar a pessoa mais romântica do mundo e tratar tudo de tal forma, e com tanta poesia, que ela vira vítima, uma linda vítima ingênua e sonhadora e em um instante quem parecerá cruel e surtado é você Téo, e a culpa Téo, automaticamente agora é sua. Lembre-se disso e não discuta com sua mãe, ela vai pedir respeito. E sua mãe é durona, paga mais de durona do que é, na verdade, porque aqui entre nós dois Téo, ela é mole, molinha Téo, sua mãe é toda coração. Mas ela acha muito bonito ser durona, ela acha lindo ser durona, então finja que acredita. Porque realmente, ser trouxa é pra quem tem coragem, admitir ser trouxa é meio humilhante de outro ponto de vista... mas ser trouxa é provação, é coragem de novo, perdição, e é vida também Téo. Sabe Téo, o pouco que eu sei de signo, foi porque andei muito com sua mãe. E sua mãe é um tipo de pessoa que adora comentar sobre quem as pessoas são, ela adora ler as pessoas, e fazer perguntas pra você, por que as pessoas somem, por que as pessoas reaparecem, por que as pessoas olharam daquele jeito, por que as pessoas falaram aquilo, por que as pessoas são tão cara de pau, engraçadas, cínicas, egoístas, por que estão sorrindo, bebendo desse jeito, e por que as pessoas são ruins, ela diz que nada é opinião dela inclusive, que são os signos delas que dizem isso, os horóscopos, as energias, os astros Téo, e ela diz com certeza absoluta, viu? Tudo coisa dos astros aí... Sua mãe não sabe, mas ela é moralista quando menos percebe, mas finge que é tudo dos astros, sorria Téo! Você está sendo julgado. E pelo que sei do seu signo, tu vai ser bem encantador, dramático, e cilada Téo, tu vai ser ciladíssima. Pelo menos foi isso que eu entendi sobre esse mês que você vai nascer. Mesmo assim, você é uma cilada de sorte Téo, porque sua mãe tem coração de carnaval, e muito amor pra dar, ela cuida Téo. Você sabe o quanto isto está em falta no mundo? Valoriza ela Téo, porque ela mal vai acordar e vai perguntar se você acordou bem, ela mal vai engolir a própria comida e vai perguntar se você está com fome ou dividir o pedaço dela com você, e quem sabe até entregar tudo pra você e dizer que está de boa, ela mal vai se arrumar e vai perguntar se você quer tomar um banho, se você quer uma roupa emprestada, e porque você está com essa cara Téo, por que você está com essa cara Téo?! Ela vai mandar você catar sua bagunça, viu? E colocar a culpa no seu signo, vai pedir pra você ajudar, e vai dizer que não faz mais do que sua obrigação se você ficar se achando muito prestativo, esse seu ego aí Téo, pode cortar, defeito terrível do seu signo! Depois ela vai te perguntar se você fez o dever de casa, e se você não tiver feito Téo, eu preciso concordar com ela, diversão é o melhor da vida, mas acorda Téo! Ter responsabilidade é fundamental, e se você não entender isso, conviver com seu signo fica complicado Téo, isso não é bonito. Por fim Téo, sua mãe é capricórnio, eu nunca soube o que isso significava. Eu só sei que eu sou trouxa. Talvez, uma mera amiga de festa muito trouxa mesmo, Téo. E você, um menino de sorte. Sinta Téo, sinta tudo que tiver para sentir com alguém que cair de paraquedas bicicletas na sua vida, vire as esquinas maltratadas, aproveite a curtição, rode o mundo quase mudo, e num segundo leia o texto e sinta saudades, saudades até das coisas erradas, porque elas te ensinam, e peça ajuda, durma na rua com essa pessoa se você estiver achando que vai salvar a cidade e você mesmo dessa forma, e depois atinja o bom senso. Ser trouxa de vez em quando, faz até bem Téo... mas ser trouxa todo dia não, ai é vandalismo.