sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Labirinto deles

Por um triz e eu acreditaria neles
com seus mundinhos marcados
por essas vidinhas medíocres
com suas certezas sombrias
e aqueles cabelos arrumados
temendo a altura das risadas
gemendo cinza,
gemendo cinza embaixo da onde eles estão e te chamam sorrindo.
e eu não saberia mais voltar,
e eu não saberia mais falar,
e eu não saberia como deixar...
não teria mais gosto de nada e teria que fingir sentir e bater palmas com eles.
depois seguraria as pontas, todas as pontas diárias que nos são dadas de presente, e seria quadrada e bem
paralelepípeda como eles.
Quando sentir isso, diz logo!
Desse tamanhozinho eu não caibo.
Desse tamanhozinho eu não fico direito
Desse tamanhozinho vocês sentem menos medo?
Por um triz é quase,
é perto,
é do lado,
mas não é de fato.
Sem perceber, cheguei,
ainda bem, bem na hora...
Se não, eu teria me perdido, por um triz
com certeza eu teria me perdido por tempo indeterminado nesse triste labirinto deles.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

MILENA

Quando eu li a voz do monstro no site,não vi mais a vítima, não vi mais a mulher, não senti mais as facadas no meu rosto,não me vi no espelho sem dentes,não imaginei como é não poder escolher mais as cores do batom.Quando vi a voz do monstro no jornal, não vi mais a propriedade,não vi mais a minha irmã, não vi mais a minha amiga,não vi mais a próxima beijoqueira que gosta de sair a noite,de se divertir, iludida na liberdade de ser, poder, ir e vir...Quando vi a voz do monstro na notícia, eu até gostava muito dela,eu até chorei,eu até fechava os olhos e pensava nela,mas desculpas,perdão,deus,e iluminação para a família...porque agora é a vez do monstro.Coitado do monstro.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A sensação é de que logo agora que eu entendi como as coisas realmente funcionam, eu não tenho mais a confusão daqueles dias. Eu queria estar dançando com todos eles. Mas naquela época em que eu dançava eu não entendia como as coisas funcionavam, eu vivia confusa demais. Eu perdi. Eu já sei e perdi. E no momento que encontrei as respostas em meio a tudo tão chato e horrível, eu agora me prefiro daquele jeito, confusa, quebrada, ingênua... Qual o sentido de ter as respostas?! Para onde foi todo mundo que sorria? Somos tão conformados agora... Onde estamos? Por que nos encontramos? Por que não dividimos mais a cerveja e estamos sempre tão sozinhos em nossas próprias casas? Por que deixamos de ser espertalhões? Eu podia ser um máximo a tão pouco tempo... eu não sou. O que eu nunca imaginei temer, se tornou realidade... Fiquei quadrada como os idiotas. Branco e preto que quando me misturo, só consigo ser cinza, cinza e quadrada como todos os idiotas que agora preciso conviver. Não tem coreto, não é mais festa, não tem xerox que pague... ah, como fomos felizes naquela confusão. Só sei que estou cavando, rastejando, perfurando e escalando para não ficar como eles, eu ainda não posso ficar como eles. Eu era tão original... não! Eu sou alegre, perturbada, mas com uma alegria genuína que me enchia de cores... Minha cabelereira nada teme, meus amigos nunca serão vocês... Meus amigos...ah, meus amigos...eles fazem ou conhecem lindas poesias... poesia nunca a de faltar em nossas mesas. Eu cheguei atrasada? Eu cheguei adulta? Eu cheguei depois que vocês foram embora? Qual capítulo eu perdi?  Porque ficamos estamos tão longe uns dos outros... prometam que não vão se matar... 

domingo, 30 de julho de 2017

O rio me disse pra acordar de um sono que não me faz sonhar mais. Disse que meu amor não é fácil de afogar. Que sou tempestade, que sou terra e água corrente. O rio me contou segredos que eu já sabia mas não era capaz de compreender. Me contou coisas sobre o passado que fazem o presente ser pura gratidão. Falou sobre partida e quantas e mais quantas chegadas após isso. 
O rio silenciou. 
O sol me queimou.
Eu me confundo as vezes no tempo que estou. De repente, sinto o peso de um ano inteiro numa data só. Tenho medo das aves. De repente envelheço. Fecho um ciclo sem perceber. Cubro o desenho. Viro um capítulo. Me transformo, violenta como uma onda. Queria entender um pouco mais sobre me quebrar, me desmanchar, mas ainda é tão cedo...ainda é tarde...não sei que palavras usar. Sinto alívio constante, sinto medo também...não é fugir...não é fingir... as horas, eu me confundo as vezes no tempo que estou. Eu fiquei azul de repente. Já fui vermelho, já fui roxo e amarelo. Estou toda azul. É diferente sonhar sendo azul. É diferente gostar do azul. É peculiar cantar no azul. Velejo... voou... estou suspensa e profunda em duas dimensões quando bem quiser. Estou azul. Ainda há muito pra sonhar. 
 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

queria escrever sobre o que foi feito. escrever como era. como eu permiti e dizer que toda vez que tem estrada eu não passo, eu remonto lá atrás. queria escrever o que foi dito. escrever como eu escutei e entendi. como eu era antes e como eu fiquei com tudo que aprendi. mas toda vez que não tem estrada, eu passo com medo. Eu quero ser coragem pelo que já superei. mas ainda não sou isso. quero ser abraço, mas ainda não tenho braços. Ainda aqui, nessa altura do campeonato, ainda aqui não tenho braços. não me sinto correndo mais. não é mais sobre fugir. não me sinto parada, sofrendo, não é mais sobre fingir. não me sinto perdida, mas tenho pernas. nem tão pouco me sinto definida... eu virei partida, batida silenciosa no roer das unhas. eu não beijo, ainda que diga milhões de poemas de amor. eu não amo, eu não sou. Nos sonhos ainda estou voando. Ainda vou para um bairro atrás da casa que me dá medo. Ainda estou sendo perseguida. Ainda tem uma igreja arranha céu e nuvens. eu enxergo elas no telhado. não sei como estou em cima e embaixo ao mesmo tempo. tem uma pessoa que não pode me ver. sempre tem. Um ar de perigo pelas ruas. Quem é de fato você? Meu cabelo cresce, e junto com ele todas as minhas neuras. Quantas cabeças querem nas bandejas? não me elogiem agora, irei decepcionar. não vai sobrar pele. superdicas. ordem. manual. quero acordar em três segundos. quero ver as crianças guiando as vítimas. vou arrancar meus dedos. e continuarei tocando. um dia vou contar tudo. desamarrar a fumaça. aparecer. não vou sentir medo. vou ouvir todos os segredos. eles não me olham, e nem vão. tem muito ele por aqui. há uma marca na minha sombra. uma hora proteção outra hora condenada. 

domingo, 23 de abril de 2017

Minha selvageria

Cheguei a pensar por algum momento que vinha perdendo minha selvageria... mas isso não pode ser verdade. Não posso ser alma subtraída. Todos aqueles que eu toquei o coração de alguma forma, vem sendo capazes de relembrar minha voz e meus sorrisos...e me aquecem. No final das contas é apenas isso que importa. E traiçoeiro do mundo que nos faz esquecer disso. Esquecer o nosso melhor, esquecer aqueles que nos fizeram companhia, esquecer o que nos sequestra e entorpece por alguns minutos nos dias que precisam sair em ordem e darem certo no final. Esquecer é a maior tragédia que pode acontecer. Tem uma cobra preta em cima da minha cama agora. Uma cobra tão preta que brilha. Curiosamente sinto que deveria estar com medo dela, mas impressionada não consigo. Sonhei com ela. Era pra ter sido um pesadelo, um azar, como um gato preto que passa e deixa fumaça...mas, ela é minha. De alguma forma ela nada mais é do que minha agora. Passo a entender que estando na minha cama, é o maior sinal de intimidade que eu tenha com todas as situações que pareciam perigosas, que me cercavam e me tiravam o sono. Que transição é essa que não consigo sentir medo dela? Imagino, ela enorme na cama de muitos e o estrago que ela pode fazer caso se pense muito sobre ela e tão pouco sobre o que fazer com ela. Por aqui acabou...Havia uma sensação de ser engolida, de desproteção, de quase mordida e constante retaguarda. Agora não. Posso dormir com tudo isso e tranquilamente acordar consciente de que da pra lidar sem medo. Sou muito mais selvagem do que eu podia imaginar e talvez o que eu perdi de verdade foi o significado que eu tinha de coragem. Corajosa eu sou todo dia, quando dou passos lentos e enfrento com medo mesmo. Nada mais selvagem do que estar inteligente para perceber de forma tão intensa e não se perder, não quebrar, não cair e agir, simplesmente conseguir agir de maneira leal a cor da sua voz e sorriso. Não se pode esquecer isso. Só pode ser isso que realmente importe no final das contas.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Segredos engraçados

Senti falta do que eu era anos atrás
Momentos que me transformavam e eu não sentia
Paixões que eram vivas
Do meu peito voraz!
Da fé...perturbada, triste, cheia de palpites...
Ah, quando eu escrevia cartas!
Senti falta...
Dos meus papéis, inúmeros papéis que eram importantes ser guardados nas minhas gavetas,
que eram importantes não interpretar
que eram importantes e eu assinava sem ler o contrato
Sinto que jamais poderei queimar todos numa lata de lixo, nem descobrir suas causas e funções.
Sinto... em algum momento, o cabelo apenas pacientemente crescer também foi sagrado, massacrado, intolerante, massificado...
A vida e eu tínhamos segredos engraçados, senti falta até como sinto dos pneus murchos da bicicleta que deixei naquela mudança.
Quantas mudanças?!
Meu deus...
Inúmeras mudanças que fiz e fui me deixando em cada uma delas, e me substituindo por outras,
por outras e mais outras...até me dar conta que ainda e sempre, todas nós, éramos eu.
Hoje eu senti falta do que eu era anos atrás,
Até que me lembrei que é só daqui que eu posso sentir desse jeito.
Só daqui, bem desse jeito.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

juntos


Sinto falta de quando todos nós éramos diferentes mas tínhamos o mesmo objetivo. Ou mesmo quando ainda achávamos que o objetivo de todos era o mesmo. Por que eu estava ali? No começo era uma coisa, depois era outra, no fim era tristeza e percepção da realidade. Quando éramos jovens demais pra saber que o que estávamos fazendo era uma espécie de loucura coletiva, ah... como eu sinto falta daquilo! Quando achávamos que tínhamos tempo pra aquilo, quando organizávamos reuniões, encontros, quando deitávamos naquela grama e pegávamos aquele sol... Meus amigos! Por que mudamos tanto? Por que deixamos pra lá? Por que nos afastamos tanto, mesmo depois que tudo acabou?! Éramos incríveis juntos... Éramos amorosos, divertidos, entusiasmados, bêbados e caminhávamos a pé para qualquer lugar sem reclamar... Éramos vivos, avisados, interessados, e hoje em quadrados, pensamos coisas sombrias e esquecemos como éramos juntos. Tínhamos algo dentro do peito, e  juntos, diferentes, um motivo para continuar e observar as flores de maneira diferente. Tudo foi perdendo a graça... Não tínhamos mais desejo pelo mundo lá fora... todos queríamos também fugir de algo e alguns até de alguém. Quem eram nossos pais? Quem amamos e não podíamos mais amar? Da onde viemos agora? Que bandeira podia nos pertencer? Cumprir metas, horários, aparecer... ah, o mundo das ideias, ah, o mundo do tesão, dos poemas, finalmente encontrados no meio do mundão perdido, eu me perdi...  não éramos iguais... mas por um momento ímpar, éramos iguais...

o plano


Ontem que ela foi entender porque chorou no dia seguinte. Depois, só depois de ter que pedir pra ir embora pra casa, foi que ela percebeu que não foi tudo tão natural assim. Não foi tão romântico, não foi tão honesto da sua parte. Só ontem, de repente, depois de vários anos e conhecimentos que obteve com experiências que nunca tinha tido, foi que ela pode entender porque tinha motivos de ter ficado triste aquela época. Era sua passagem, sua travessia, seu capítulo e história. E não há quem responda se foi o mundo que a confundiu toda ou se foram as histórias das outras pessoas que interferiram em várias virgulas e pontos. Havia algo estranho pra ser engolido. Algo estranho na juventude, no amadurecimento das coisas, algo profano e algo altamente sagrado que lutavam pra saber quem era mais forte, mais duro, pra ficar cravado, pra gritar na rua, para abrir as portas do coração. Todas as vezes que essa parte precisa ser contada, algo incomoda... Por que não se sabe dizer que doeu?
Doeu físico e mentalmente. Não era auto sabotagem. Parece ter sido tudo tão bem planejado por ela mesma, parecia ter sido uma iniciativa própria, algo que ela havia decidido ali mesmo, um impulso, uma atitude espontânea, mas não era apenas isso. Não era ela. Havia um interesse particular de se livrar daquilo. Um interesse que ultrapassava o outro e a si mesma. Uma visão distorcida do que ela carregava. Uma espécie de obrigação, um ritual que parecia estar passando da hora de acontecer. Queimou. Doeu. Ainda que tivesse sentindo alegria em ter rompido, ainda que tivesse sentido alívio. Ainda que não soubesse o que sentia. Era ela e não era. Era ela precisando se livrar dela mesma. Era ela estranhamente deixando que entrassem. Queimava. Não houve muitas explicações. Havia confusão sim. Só por dentro, uma programação que parecia ser sua. 

De fora

Entrei numa fantasia perigosa. Eu não sabia como iam ser as coisas. Num primeiro momento eu ainda tinha alguns referenciais de mim. Estava alegre, destemida, parecia que eu estava começando a entrar no eixo do inesperado, do que me surpreende, do que eu nem esperava mais. Mas eu não sabia que esses meses seriam tão intensos assim, não sabia também que eu poderia perder a cabeça, que eu aprenderia a lidar com tantas pessoas, que eu poderia por fim mostrar quem eu era. Eu era! Eu era sim. Mas também, tão ingênua e desprotegida de mim. Quem poderia me defender se não as pessoas que conquistei pelo caminho. De algumas coisas nem sequer me lembro, de outras me martirizo. O que poderia me abalar mais? Minha cabeça, meu deus minha cabeça entrou num frenesi. Mas os amigos que eu encontrava pareciam me conhecer de longas datas, eu me sentia finalmente especial naquele ambiente, ouvida, questionada, inteligente. Eu era liderada da forma que eu sonhava, e muito especial, como eu deveria me sentir sempre... mas por quê? Porque eu não era capaz de sentir tudo aquilo antes? Por que foi preciso vir de fora? Por que? 

domingo, 2 de abril de 2017

O velho saliente

Toda vez que passávamos por aquele rua, minha prima dizia "É aqui que ele mora, o velho saliente!", antes que eu olhasse, ela tampava meus olhos e dizia "Nunca olhe pra cá, ele pode ver que você viu!". Era uma casa muito próxima da casa do vovô. Diziam que ele morava sozinho e que tinha mexido na neta de 5 anos. "Mexido como?", eu perguntava sentindo pelo constrangimento da vovó, que era mexido de uma forma ruim. "Mexido Nanda!", minha prima dizia como quem não quisesse que minha vó contasse os detalhes. "Não passe nunca por essa rua sozinha, e se tiver que passar, passe bem longe, do outro lado, na outra calçada", vovó dizia. E então aquela rua passou a ser uma rua sombria para mim. 
A noite, eu sonhava que passava por aquela rua e via um velho balançando numa cadeira. Não conseguia ver seu rosto, mas ele já sabia que eu estava olhando para sua casa, e sabia mais... sabia que eu sabia do seu segredo. Então, eu acordava com medo e pensava "Por que? Porque a gente sabe e tem medo?". Dali em diante, sempre que precisei passar, passei pelo outro lado. E aos pouquinhos, tentando ver. Não me lembro da cor da casa, nem do portão, só me lembro de uma porta de vidro e que lá dentro parecia ser mal assombrado também. 
Certo dia, em alguma brincadeira dessas de rua que juntava mais crianças, não me lembro quantas meninas eram, mas uma de nós foi parar lá do outro lado da rua sombria e vinha correndo de lá, dizendo "Ele abriu a calça! Eu vi!". Não dava para entender direito o que acontecia, parece que ele tava vindo, e minha prima puxou minha mão, antes que eu pudesse vê-lo. "Vai ficar aí pra ele ver seu rosto?!", ela perguntava me puxando. "Pois por mim ele pode vir! Eu taco uma pedra na cabeça dele", escutava uma das crianças falando depois que já havíamos corrido. Comigo, pensava que tipo de inferno era aquele, de se esconder e sentir medo. "Por que não o matamos e libertamos a rua do medo?".  
-Ela tacou uma pedra nele, é doida! Mas bem feito! - minha prima dizia sobre a vizinha de pele mais escura e com estigma de adotada, de uma senhora da rua mais abaixo, amiga da vovó.
-E se contássemos para o vovô? Ele tem um revolver, talvez desse um jeito... - eu sugeria com medo.
-Você tá doida! Eles são amigos, ele nem sonha que ele é desse jeito!
Foi então que eu entendi que éramos nós que estávamos mal assombradas.
Outro dia, minha prima e eu balançávamos na cadeira de balanço, enquanto minha irmã fazia alguma coisa no quarto, de repente, um velho de cabeça branca, abria o portão lá da garagem e caminhava em passos lentos para a entrada.
-Quem é esse senhor que tá vindo?- eu perguntava.
-O quê?! - minha prima arregalava os olhos e se assustava.
-O que?!
-Shiiiiii, é o véi saliente! Meu deus, e a vovó saiu! 
Meu coração disparava, enquanto minha prima puxava minha mão e me levava para o banheiro dos fundos da casa. 
-Fica quietinha! Não fala nada.
Escutávamos então os passos do velho pela casa. Parecia um filme de terror. Eu preocupada com minha irmã, perguntava o que faríamos se ela saísse do quarto e se deparasse com ele. 
-Shiiiii, calma! Vamos espiá-lo...
Abríamos a porta do banheiro com calma e colocávamos as duas, as cabeças para fora da porta. Uma em cima e outro embaixo. O velho abria a geladeira, fechava, e tomava uma xícara do café que estava na mesa. Olhava o relógio na parede, suspirava, pensava sozinho olhando para algum lugar. Usava uma calça escura, e uma camisa branca de manga comprida que eu nunca mais esqueci. Tinha cabelos brancos só dos lados, todo careca no meio da cabeça. E antes que eu pudesse gravar seu rosto, só me lembro de uma expressão rabugenta, e que ele começou a olhar fixo para algum lugar. Fechávamos a porta rapidamente sem barulho e tampávamos nossa respiração. Escutávamos passos dele indo embora.
-Ele viu a gente será? - eu perguntava baixinho. 
-Acho que não, fica quieta...
-Ele ta indo embora parece... 
-Parece que já, mas vamos esperar um pouco.
Contamos praticamente até dez e saímos na ponta dos pés do banheiro. Minha prima olhava a xícara que ele havia tomado café e dizia "Folgado! Eca, que nojo!". 
Íamos até a sala e lá estava minha irmã mexendo com papéis e canetas.
-Você viu que ele veio aqui?! - minha prima perguntava
-Quem?
-O velho saliente! - eu dizia.
-Aqui? 
-Sim! Ele entrou aqui, a gente correu pro banheiro, ficamos preocupadas de você sair e dar de cara com ele, o que você estava fazendo?! - minha prima perguntava.
-Lá dentro do quarto, brincando.
-Sortuda! - eu dizia.
-Já pensou se ele te visse?! - minha prima indagava.
-Tem certeza que era ele? - minha irmã retrucava.
-Rum, vamos trancar essa porta... foi por pouco!- minha prima orientava.
Não sei que tipo de amizade ele tinha com o vovô, nem porque não poderíamos contar que tínhamos medo dele. Vovó nunca explicou direito, e quando chegou da rua, contamos o que havia acontecido e minha prima demonstrava tudo que ele tinha feito numa imitação até cômica. "Ainda bem que vocês se esconderam", ela disse como se fôssemos muito espertas. Foi quando eu percebi que independente do velho, era tudo aquilo que me deixava com medo.Vovô nunca saberia nada a respeito.





  
    



sexta-feira, 17 de março de 2017

O PACTO

O PACTO

Depois, ficou tudo tão esquisito...
Eu nem te falei do meu pacto.
Do meu pacto, com as borboletas.

Faltou tanta coisa,
Eu achava que teria tempo...
Eu estava certa,
Não teria era outra coisa.

No começo, pareceu estar acontecendo por circunstâncias fora de mim.
Forçado, doloroso, outras pessoas...
Mas no meio, não era mais. Nunca foi.
E no fim, eram elas!
Todas elas, sem tortura, aqui dentro de mim.

O pacto nunca foi traiçoeiro...
Eu que não sabia que dava pra ser igual
Tem um monte invisível aqui dentro!
E apenas uma, real, aqui fora...
A que chega voando e me dá um sinal!

Um sinal de que tudo que tá aqui fora importa
Um sinal de que tudo que tá aqui dentro cega, passa, transforma...

Eu achava que existia tempo,
Mudou tanta coisa,
Transformou!
Às vezes chego voando, dando sinal!
Depois, ficou tudo normal...
Inclusive meu pacto...
Meu pacto esquisito
com as borboletas.

Poema: Fernanda de Alcantara ✒💭
(Montagem de desenhos aleatórios que guardo do mundão virtual por aí, e me inspiram✏💭)



sábado, 25 de fevereiro de 2017

Maria dura no arreio






"...entre as coisas bem vindas que já recebi
eu reconheci minhas cores nela, então eu me vi... 
(Nando Reis)"

Por onde meu sangue corre, ainda não existe mulher mais forte que Maria. Sempre tão segura, heroína da própria história, peça rara que supera os obstáculos da vida. Minha eterna e graças a deus viva, vovó Maria. Mulher que faz toda a diferença, que não abaixa a cabeça, mulher que trabalha incansavelmente, mulher do fim do mundo! E juro que dez lanças afiadas são levantadas no ar, todas as vezes que escuto teu nome. Maria Batista. Cuidado interminável, comida quentinha, observadora de detalhes, firmeza, vontade... muita vontade de fazer as coisas! Minha vó, mulher de verdade! Que viaja até onde quem esteja, para erguer, aconselhar, escutar o choro. Menina que venceu a roça, menina que não deu certo na escola, porque alguém tinha que cuidar de todas as coisas, menina que quase perdeu o braço, menina que perdeu a mãe e prometeu a mesma  ser mãezinha dos irmãos pequenos. Menina má, que foi sentando em cima das dores, que foi dando sentido a todas as coisas, sabores e cores. Matadora dos porcos, fez colheita dos milhos e depois, bem depois, menina moça que não teve sorte no casamento. Vai entender... a vida nunca te quis romântica Maria... nem por isso vovó também aceitou o amor errado que a vida lhe impôs. Mulher de verdade! Que gosta das coisas certas, de construir, Maria não submissa, selvagem se preciso for, Maria voraz! Não foge da luta, de falar as coisas, lá vai ela atrás dos seus direitos! Soldado forte num exército que ainda hoje, depois de décadas atravessadas, talvez não seja capaz de vê-la do tamanho que deveria. Mulher que não tem medo de mudanças, que as entende rápido, se adapta à elas, supera-as, senta de novo em cima das dores, muda de cidade, entra no mercado, constrói e reconstrói... 
Casas, parentes, calçadas... Minha vó Maria, com muito orgulho! Dura no arreio, não teve muito tempo para rezas, não teve muito tempo para crochês, mulher que realiza. E há ainda quem se lembre que Dona Maria é semianalfabeta, tão esperta! Lá vai ela deixando tudo limpo, varrendo a tristeza, dirigindo o carro, mexendo no próprio celular, aprendendo novas receitas pela internet, negociando preços nas feiras, abrindo a sombrinha para encarar mais um dia, depois de curtir minha foto no facebook.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

sem saber que eu era semente


As coisas vão se encaixando de uma maneira que eu pareço natureza. 
E natureza eu caminho, natureza eu falo, natureza eu não choro mais na chuva. 
Eu fiquei maluca e agora que seco, brotam flores dos meus dois lados.
Acordo com flores por todo meu colchão. 
No chão do banheiro elas desabrocham, 
no vaso eu despejo pétalas e mais pétalas, 
e quando tomo banho fico verde... eu fiquei maluca, 
qualquer um podia ver. 
Saí, voltei, nada funcionava. 
Havia ervas daninhas, muitas ervas daninhas que pela paixão do verão e o barulho daquela outra chuva que veio com a tempestade que parecia que nunca ia acabar, não pude ver. 
Não vi, meu deus. 
Não vi tudo que estava óbvio, tudo que foi arrancado de mim. Mexeram comigo! 
Quebraram meus galhos na calada, 
roubaram meus frutos, 
subiram em cima de mim, 
me desfolhearam...se é que essa palavra existe. 
Parecia até que o fogo havia me cercado com um cheiro de queimado que estuprava minha respiração. 
Uma chateação ocupou meus dias, 
meu peito virou caminhão carregado de areia 
e um silêncio em cima do muro se apossou dos meus lábios. 
Era uma tristeza que assolava meus dias, 
uma tristeza que acabou com as minhas noites, 
um desespero que me fez procurar 
arte, 
livros, 
o medo das pessoas. 
O fogo me cercou e quase destruiu meu barulho, 
meu imenso e bonito barulho de chuva. 
Eu precisava estar viva! 
Me recompor, 
Me construir, 
havia alguma esperança? 
Que terra piso com meus pés, 
quem é que podia me ajudar? 
Teria eu que me conhecer novamente? 
Me conhecer toda novamente... 
Seria preciso me enterrar, e me enterrando fui... 
o mais fundo e mais fundo...
fui me enterrando profundamente como um botão sem rosas 
e sem saber que era semente, semente fértil. 
Tudo cresce
Cresce, empurra a terra, cresce
Agora tudo floreia, 
e desabrocha, 
há esperança, 
eu tinha raízes,
raízes fortes e profundas
E do lado de fora, 
depois do muro eu também não tenho mais medo do vento, 
saio para passear voando com ele! 
Dou cambalhotas com ele, 
entro e saio pelas janelas e não passamos mais por debaixo e pelas frestas das portas...
Agora eu sou forte
Agora eu sou natureza 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O pé de manga que era o centro da casa.







🍃O jardim daqui de casa esconde histórias, uma delas é a do pé de manga que era o centro da casa. Anos atrás, ele ocupava um grande espaço. Eu menina, já sabia que era ele o dono da casa. Quando eu acordava ia para perto, e conversávamos muito sem abrir a boca. Seu formato por vezes me deixou confusa se ele vigiava ou aterrorizava a casa ao mesmo tempo. A noite eu sabia que fantasmas que não gostavam de crianças, faziam grandes jantares lá dentro dele. Mas nunca perguntei, apenas evitava olhar. Tinha dias que ele estava calmo, balançando suas folhas como se estivesse me dando bom dia, perguntando como foi na escola, se eu não tinha coragem de pegar uma escada e subir para conversarmos mais perto do céu. Mas eu não tinha força para carregar a escada...Outros dias, tão calado e introspectivo, ele se fechava e queria ser apenas a árvore que os outros achavam que ele fosse. Eu perguntava qual era seu nome quase sempre no final das nossas conversas, mas ele só sorria e mudava de assunto balançando as folhas. Certa vez, uma grande chuva lhe arrancou um pedaço. Foi um barulho grande! Pensei até em terremoto. Escutava meus pais discutindo. E se tivesse caído em cima da casa? Depois, ele também começou a ultrapassar o muro do vizinho, senti que ele queria crescer, mas também não queria sair dali. E estava tão confuso, que até deu manga verde, depois de anos sendo estéril. Decidi fazer mais companhia para ele, acho que estava ficando louco. Comecei a desenhar quase todos os dias embaixo da sua sombra, numa mesinha. Ele gostava de ver meus desenhos, mas criticava o fato de eu não desenhar grandes árvores. "Só pessoas, suas casas e mais um bando de pessoas calçadas em bons sapatos", dizia. Um dia cheguei em casa e ele não estava mais lá, eu segurava um desenho de uma grande árvore. O sol tomava de conta de todo o espaço, era luz mas não trazia esperança. Subi em cima do toco de raízes que ainda ficou, rasguei o papel e pensei "Só pessoas, suas casas e mais um bando de pessoas calçadas em bons sapatos, nunca mais árvores". O jardim daqui de casa esconde histórias, uma delas a do pé de manga que era o centro da casa.🍃

(Parte II) Mini conto✒ e foto📷de Fernanda de Alcantara

porta de não abrir

ainda tem batidão no meu coração, ainda tem sonho, ainda tem plano, ainda tem contagem regressiva, isso não pode ser amor, mas eu ainda preciso de você. pensar você, imaginar você, me torturar. a memória guarda olhares misteriosos, a alma guarda os flashes, o inconsciente retoma temas, cenas, vontades que nunca puderam acontecer, esclarecendo o que era fantasia e realidade. o que é que fazia parte da realidade que não era minha e nem a tua? estávamos juntos e não estávamos ao mesmo tempo. quando você entrou por aquela sala pela primeira vez, foi do meu lado que você sentou. mas da ultima vez, ficou esquisito, frio, introspectivo, quis morrer. por que não te ajudei a procurar aquele pen drive? você não me disse nada na festa, me fez invisível... eu enchi a cara, dessa vez eu não estava mais feliz, no seu aniversário na boate, eu estava. eu estava de verdade. e queria você, falar seu nome, olhar nos seus olhos, beijar seu pescoço... dessa vez é o seu tempo, inerte... meu coração não poderia desrespeitar sua históra, vida, traumas e trato. é você. é seu tempo, sua história mal acabada acabando, meu peito sinistro aguardando, escorrendo, tremendo...quem sabe um dia. por um segundo cheguei a pensar que eu fosse louca, que tinha criado tudo, só não confirmei porque enquanto eu via o vídeo na parede, enquanto eu te via ali na parede, eu sabia que tudo que tinha acontecido nesses meses não era de mentira, você realmente me dá alegria. uma alegria tão bela e selvagem que há tanto tempo não reconheço minhas cores, que há tanto tempo eu não encaixava nos meus planos. e então, você veio aparecendo do meu lado, você queria ser visto, não era ? tudo parou, parou de verdade. a música, as pessoas, fui capaz de ver apenas você e o vídeo e uma linha de sofrimento da qual eu não poderia evitar, eu não podia te cumprimentar. me desculpa mas eu não podia, eu era a visita agora e você pelo visto também não queria. mas como me coçei, como me coçei pra dizer algo, pra me controlar, pra não gritar no meio da sua cara, bagunçar suas regras. eu vou te pegar. esse dia vai chegar. eu não sei como, mas estaremos bem melhores e quem sabe no mesmo tempo. eu sei. Onde você está?! Como é teu beijo? Como é teu sexo? Não foi assim que você se comportou comigo naquela época. talvez, talvez eu também tivesse muito medo, agora também sou capaz de perceber. haviam muitas pistas e iscas das quais eu também corri.Você sumiu ali, é por que ela estava ali? E eu sai dali, e nós saímos e fechamos um ciclo que nunca se completou. nunca mais... mas agora, justo agora você resolveu espiar... não vou dizer que eu não ligo, mas não posso e quero ver nossos filhos, não posso e quero ver nossos netos, não posso e queria te ver de verdade. 

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O cachorro louco

O jardim daqui de casa esconde o segredo do cachorro louco. Talvez ninguém mais se lembre, eu era uma menina que ainda nem vestia a parte de cima e já dançava com o cão. Antes dele ir embora para sempre, rolamos muito nesse chão que agora habita acerolas e pássaros sanguinários. Amei muito mais o outro, o outro cachorro negro que encontrou o portão aberto e desapareceu. Eu não tinha sorte. Entendi, com a partida do animal que meu pai reconstruiu tudo, antes que chorasse. Apesar de que ele nunca chora. Vejo que muita vida entrou por cima da casa fantasma desse quintal que só sobrevive em álbuns velhos de fotografias esquecidas em cima do guarda roupa. Há uma nova realidade agora. O jardim daqui de casa esconde histórias... E uma delas a do cachorro louco. 
(Parte I) 



Mini-Conto✒e fotografia de Fernanda de Alcantara

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Caminho transformando o jardim em pedras.
As ervas daninhas vão ocupando um espaço.
Ele vê e nada faz
Ele não quer sua função
Caminho sabendo que as flores tem espinho.
Sangro um pouco, não como antes.
Todo mundo está aflito
Há uma guerra, não há paz.
Não vamos chegar juntos
Isso parece verdade
Não vamos e alguns já entenderam suas peças
Eu estava ramificada,
Horizontes,
Lados,
Agora,
curta,
curtinha...

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

me enganei
tudo mentira
não dormi
não disse
não deu tempo
me abraçaram
sorriram pra mim
agora eu me pergunto se não sorriram de mim
que ilusão
ninguém cuidou
sumiu
meu deus do céu
apagou
desviaram o caminho
não avisaram
desincutiram
desincutiram
desincutiram...
meu tempo passou
nunca mais agora
nunca mais é tanto tempo
eu pensei que...
é tarde
agora não dá mais




quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O teu nome, as cores, o corte, altura e a acidez... a capacidade de admitir, era bonito o suficiente. Já não estava mais fantasiando sozinha. Alguém estava realmente me olhando, mesmo que tudo que eu pudesse, desde o início e por fim, era apenas querer. Não posso escrever sobre o que nunca existiu. Não posso escrever sobre o que passou pela minha cabeça diversas vezes. Não posso escrever sobre besteiras que me aceleraram por dentro. Nem para onde eu olhava, para onde eu queria olhar. Os caminhos que eu fazia para os pequenos planos do dia, para as pequenas atenções na noite. Não posso escrever sobre aquelas portas de vidro. Sobre os chinelos de quem não vivia mais entre nós. O que é que eu via e a forma com que os dias começaram a se passar. O churrasco, o barulho das pedras. Não posso lembrar de gestos para que eu me sentasse, bem no início, bem ali do lado... e se eu tivesse sentado? Eu não posso escrever sobre o que alguns, ninguém, e todo mundo, viu. Era só aquela música que tocou, era só aquela hora que eu já estava conformada, dançando e feliz e ganhei uma explicação que nem ao menos pedi. 
Ah, se eu pudesse escrever sobre o que escutei, sobre o que me lembro, sobre minha coragem, sobre o que foi real e o que não foi. Mas eu não posso. Não posso escrever sobre o que não aconteceu de verdade. Eu não posso escrever sobre nada. Escrever é tão perigoso. Não posso me transformar numa doida de repente. Preciso me comportar, ser normal. Mas, ah, se eu pudesse escrever sobre a diferença de querer e poder, mas nem disso ao menos eu posso quebrar a cabeça, compartilhar... às vezes parece que enxergo as coisas do avesso, e todo mundo parece estar vendo da mesma maneira. Não posso escrever nem ao menos que eu me lembro daquela conversa, apesar de estar bêbada; e que uma alegria genuína se apossou de mim e ninguém seria capaz de entender o porquê, mesmo não se tratando de um sim. Porque ninguém haveria de entender o que é um privilégio. Sentir assim, existir assim.