quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Ás vezes decido ser armadilha

Tem um homem me observando por todos os lugares. Onisciente. Todos os lugares. Um homem na minha cabeça. Um homem no que eu deixei de dizer. Atrás das árvores, dentro do carro, das casas, sentado nos bares. Há um homem no céu me olhando, no trono me ordenando, na lua descobrindo o que eu não poderei ver. Existe um homem dentro do tanque, enquanto lavo minhas calcinhas. Um homem que respira dentro da água, que cabe num espaço minúsculo. Homens por todas as partes. Eu ando, ando, sem correr. Eles acendem as luzes para mim. Piscam o pisca alerta de acordo com os meus passos. Querem alguma coisa. Eu não sei o que eu quero. Amar é muito forte e o mundo dos fracos. Ás vezes decido ser armadilha, outras vezes subo lá em cima do muro e os espero com uma vara de pescar. Quando você esquece, quando você é apenas ser humano, alma perturbada, lá vem elas com seus cafés, fazendo questão de te lembrar que há um homem nos seus sonhos, dentro do seu quarto, observando se seus sapatos ainda estão sujos ou limpos. Cruzo as pernas, pego um vento...cuidado com eles! Há um homem me esperando também no futuro. Algumas coisas não são permitidas. Não são aceitáveis. Há um homem que chora no passado, há um homem que não é capaz de derramar uma lágrima. Há mais de nãos sei quantos homens mortos e mil homens vivos dentro da minha barriga. Velhos, meninos. O tempo todo esses meninos. Exames não vão dizer. Alma não fala. Espíritos são invisíveis. Não estou acorrentada. Ás vezes, só as vezes, todos eles nunca estão ali, estão por toda parte daquele jeito, mas nunca estão ali. Eles morrem de medo, ou sou eu. Pode ser mesmo que seja eu. Mas não sei mais falar, nem sentir. Não sou nem sequer obediente. E ainda me diziam que eu haveria de dizer sim, que eu haveria de dizer não, que eu haveria de dizer te amo. Homens por toda parte. Homens que sabem de tudo, homens que não entendem é de nada. 


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Já devia ter escrito sobre, mas me faltam palavras pra escrever sobre o que ainda sobrevive. Eu só posso, quando morto. Mortinho da silva. Abrir a porta do porão é arriscado, perigoso. Suspeitar é perigoso. Tem alguém aí? E então eu me afasto, dou mais passos para trás e tranco novamente. Te escondo. Estou infeliz. Mas depois me lembro que sempre fui um pouco. Está tudo anotado, desde sempre para que eu me lembre e não seja inédito. Para que eu ache a alegria anormal, a felicidade estúpida. Afinal de contas, a vida por si só é pessimista. Queria ter mudado meu roteiro, eu confesso. A decepção me abraçou com tanta força que estou sem ar em alguns dias da semana. Por algum momento achei que seria salva, mas não foi bem o que aconteceu. Eu ainda estou ali sobrevivendo. O calendário parou. As coisas estavam desmoronando, desmoronando... agora eu simplesmente estou flutuando perdida. Quanto inferno astral de uma só vez... e agora o mundo inteiro vai piscar e rezar como se nada tivesse acontecido. Alguém, por favor, me arranque de mim mesma. Quero me desligar. Eu queria estar realmente escrevendo sobre outra coisa. No início era realmente uma outra intenção. Mas cá estou eu aqui de novo, escrevendo sobre as bordas. As bordas que me apertam o peito e perturbam a alma.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

meus joelhos fortes, libertinos

Tirem essa girafa maluca da minha frente, ela não gosta de me ver contente. Animal paranóico, cheio de neuras. Não se contenta, não se contenta. Quer me parar, quer ser meu amigo, não se decide, não sai da frente. Me escuta, me vê chorar, me pede que pare, me pinta inocente, gosta de mim inocente, bem inocente. É assim que me faço pra me proteger... ah, se eu pudesse te dizer tudo, tudo e mais pouco, seria um show de escárnio, um exagero. Um descarrego, o diabo montado na minha garupa, meu sangue fervendo e o fogo saindo de todos os meus orifícios. Aí todo mundo ia ver que eu não sou flor que se cheire, que minha alma tá cheia de buracos negros permanentes, que minha história é mais profunda e meu humor vem do fundo do poço mais frio. Que ótimo pensarem que nasci ontem, que não sangro, que não carrego pedras nos peitos, que sou fácil para destruir psicologicamente. Que ótimo pensarem que cheiro rosas, que sou frágil, menina, menina, ah, menina! Eu não estou cega seus cretinos! Nunca estive cega...Nem surda. Nunca estive. Eu aprendi tanta coisa. Mas principalmente que sou maior do que vocês pensam. Eu estou muda. Perplexa. Raciocinando minhas fugas. Eu voei tão alto, eu me encontrava nas nuvens... e agora estou tentando não quebrar os ovos, procurando minhas saídas e minha cura. Ainda não sei, estou confusa, uma hora me sinto vacinada, outra hora doente. Quebrem o meu pescoço, parem de me torturar. Um dia acordo forte, no outro tenho certeza que estou enterrada. E a malícia que me pediam o tempo inteiro, eu sempre a via. Mas não desse jeito. Eu estou coçando minhas partes intimas. Querem que eu grite, sem gritar. Querem que eu peça, sem pedir. Querem que eu crie, sem criar. O que é que eu ainda quero ? Quem tem o poder? Como é que eu vou sair dessa sem tumores, sem cometer um assassinato e crimes. Eu estou virando uma bomba viva. Acumulando, somatizando, enclausurando. Eis que a verdade será a mesma de sempre, eu nunca vou pertencer a lugar nenhum, era o que eu dizia. Agora me apego a esse meio, a sujeira, mas a vida me fez sopro. Tinha quase certeza. Soprando de um lado para o outro. Derrubando os papéis, movimentando as cadeiras, espalhando a tinta, a poeira, limpando, desmanchando. A vida me fez sopro, era o que eu entendia. Qualquer dia desses, eu vou afogar um de vocês. Um por um. Vai ser um lindo passeio. Talvez seja disso que todos nós precisamos. Uma tragédia grega. Um melodrama. Ou então, eu vou fumar vocês, um por um. Fazê-los entender por dentro do meu cheiro, meu gosto. Eu quero correr... Mas que buceta! Devolvam minhas pernas, meus joelhos fortes, libertinos... Olhe só com quem eu tomo chá agora, com meu maior medo, com os fantasmas que torcem pela falta de saúde do outro, os fantasmas que torcem pelo tropeço do outro, os fantasmas que torcem pela pior das descobertas, os fantasmas que perderam o corpo por tanto veneno correndo dentro das veias. Eu estou podre, malandro. Me amputaram. Não me reconheço. Demasiadamente humana. Eu sinto muito, mas é a verdade. No transtorno fui transformada.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Um por um

Eu devia ter feito um escândalo, chegado mais perto, gritado bem alto, olhado nos olhos, ter passado um medo, dizer que era agora, que continua sendo verdade, que não era coisa da minha cabeça, que eu sonho, suspiro, respiro, torço e imagino. Devia, sei lá, ter feito um barraco, caído no chão, ficado em silêncio, empurrado o corpo, puxado os pêlos, dizer que nunca mais, que até poderia não ser tudo verdade, mas que alguma coisa de diferente acontecia. Poderia ter dito quem sabe , que nem tudo era coisa da minha cabeça mesmo, porém admitido, afinal eu não minto, e ter reclamado... reclamado bem mais! Perguntado, por que não? Passado na frente, passado do lado, saído por de trás do balcão, do sofá, de um lugar escuro. Ter feito parte de um presente ainda que fosse pra não ser futuro. Eu podia não ter me escondido, nem ter fingido, e ter cumprimentado um por um, não me esquivando do você. O que é que eu fiz afinal? Abracei o medo, me entreguei para o medo e deitei vazia mais uma vez. Não é sobre ser completa, em nenhum momento. Tantas horas ainda tive no dia seguinte, e ainda assim amarrada à todas as correntes que não deviam me pertencer. Tantas horas tive de uma noite inteirinha,  antes de ir embora, e ainda assim obcecada por todas as ausências. O que é que não me seduz o suficiente? O que é que me angustia inteiramente? O que é que me da coragem e vai me quebrando devagar e pausadamente? O que é que me faz chegar sorrindo, mas nunca me faz ir embora inteiramente do tormento? Tá cravado na minha alma ou foi por um momento? O que se reproduz aqui dentro que fico contando os dias, criando um tempo, sorrindo das memórias, acendendo velas, decorando um nome, a voz, e procurando uma pista em tudo que era dito, e mais ou menos não dito. Não aconteceu nada, olha só. Que tragédia nata. Quanta ilusão....encharco. Meu gozo reprimido. Masturbação impulsiva, libertina,
criativa...  Mil vezes,  minha alma cheia de teimosia. Os raios poderiam me partir, sinto que já se foi o prazo em que se poderia falar sobre. Se passa...sobra-se uma louca. Racional. Me atingir! Quem sabe não era assim que sairia rápido, como um eletrochoque, tudo... absolutamente tudo que eu construí na velocidade da luz, só pra mim. 

Belzebú me dê aqui um abraço!

O diabo vem comprando nossas almas, bem debaixo do nosso nariz. 
Não venha me punir, todos somos cúmplices.
Você está vendendo a música que eles querem, 
e eu usando tudo que eu sei fazer para convencer números.
Ele não precisa de algo que eu tenho, 
eu é que preciso de algo que ele tem.
No começo, 
bem sabia que poderia ser estranho, 
pode haver uma energia de injustiça no ar... 
mas tudo é tão ideológico, 
fantasia, 
e quem é que queremos enganar, 
se é desse mundo mesmo que fazemos parte?
Descobri numa madrugada qualquer, 
dessas que você pode estar numa festa, 
dessas que você pode estar com insônia, 
Amando, lembrando, dançando ou beijando um desconhecido, 
nós... 
nunca... 
nós nunca fomos anjos! 
Quando eu vi, já não suportava segunda feira.
Quando dei por mim, clamava pela sexta.
Se eu não fizer, alguém irá fazer.
Minhas costas as vezes doem...
Tem umas facas cravadas nelas
Foram eles e elas
As vezes sutilmente eles me odeiam
Outras vezes reconhecem que não há com o que se preocupar
São eles, 
Os dividendos
Os demais vendidos
Nosso time, nosso grupo, nossa...
Ele comprou, e cobra sem serpentes penduradas no pescoço.
Eu pensava que quando fosse, 
se fosse, 
Que haveria mais terror, 
uma dor sem cessar,
uma coisa meio doentia, 
vermelha,
preta, 
cabulosa...
Mas não... 
Belzebú me dê aqui um abraço!
É assim mesmo que são feitos os negócios.
Você mal percebe,
Você gosta até,
Fazemos parte disso. 





terça-feira, 8 de novembro de 2016

um poema pra tu

quando tu começa a ouvir Lirinha
eu já começo a rir de nervosa
desculpa, mas você é tão previsível
tá tudo indo pras festas de novo
belas, inesquecíveis, criativas,
ah, se eu tivesse perto já tava dançando no seu balcão
não tem mais a casa
e os problemas os mesmos
ah, seu eu tivesse perto já tava dançando no novo salão
pra você brigar comigo
pra te ajudar a ficar um pouco mais feliz
lá vem o passo a passo que você sempre faz 
mulher
vê se não espiroca
nem toma nada agora
espera... 
me espera que eu tomo com você...
vergonha,
tudo de novo
vai fugir até quando?
eu previa, eu te disse
eu prevejo
teimosa da gota 
lá vai você de novo cometer essas cenas
ouvir essas músicas
bater palmas pro nirvana
é tanto mecanismo que tu apronta no amor
é só uma partida 
outra vez
tu e essa mania de querer partir 
e se partir toda no meio 
toda vez isso,
qualquer dia desses eu apareço ai na sua casa
pra gente comprar comida do outro lado do bosque 
e você me contar
como agora você tem certeza que é realmente o fim

sábado, 22 de outubro de 2016

Amanhã, quem sabe... pode ser meu dia.



Cortei minha língua bem da raiz, não foi da ponta e nem do meio. Peguei a tesoura na segunda gaveta e cortei. Da raiz. Sangrou tanto, mais tanto... que nessa sala, eu só enxergo vermelho. Tem horas que eu acho que eu morri. Sinto gosto e cheiro de sangue. Estou angustiada, consigo entender tudo. De alguma forma eu ainda sobrevivo. Entalada e de maneira ruim, mas sobrevivo. Antes que infeccione, ou que eu caia dura no chão, não quero que ninguém se impressione comigo. Só quero que sirvam minha língua há duas mulheres que tem algo em comum. Ambas, mães solteiras e de belezas diferentes, e que por algum motivo pessoal, juntas, me passaram uma bela de uma rasteira. Com a minha ajuda, para variar. 

Uma delas é a loira, há quem tive coragem de ser eu mesma sem mal conhecer. Achava ela elegante, simpática, e foi com toda classe que ela ardilosamente me expôs, e entregou os fósforos para a morena. Só mesmo eu cortando minha própria língua para que a culpa de ter me aberto para quem mal conhecia, parasse de me fazer vomitar. Passa aqui dentro de mim, um filme na minha cabeça. O que mais ela deve ter feito com o que eu lhe confessei? Preciso aprender depois dessa que dá para ser menos impulsiva, que não há espaço para ser ingênua e inconsequente por mais que eu esteja num momento de estresse. Há pessoas que esperam pelas nossas falhas e aguardam para atacarem pelas costas. Há pessoas que parecem te admirar mas adoram uma maldade de vez em quando. Quando eu olho para trás, tudo caminhava a meu favor e para dar certo entre mim e a pessoa que poderia abrir os meus caminhos. Finalmente eu seria bem mais reconhecida... agora, bem no finalzinho... estraguei tudo.

O outro pedaço da minha língua quero que seja servido para a morena, a qual nunca entendi bem o porquê, mas se sentiu muito incomodada comigo. Vieram comentar que até da minha risada ela andou reclamando. O fato é que nunca lhe fiz nenhum mal. Sempre tratei com respeito e cuidado. E paro para pensar, qual seria o objetivo em ter acendido a fogueira... queimo e não vejo o que de fato lhe deu tanto prazer. Me pergunto... será mesmo que a morena estava se importando com alguém quando resolveu criar toda essa situação? Um dia hei de lhe perguntar que espécie de Deus é esse que ela tanto parafraseia que está em primeiro lugar. Algumas pessoas também já haviam me alertado para tomar cuidado com a inveja, que ela tinha sono leve. Sorrir demais pode despertar a infelicidade alheia, diziam. Mas eu sempre achei que tal despertar não fosse problema meu. Imagino como deve ser triste viver vigiando a forma de sentir e agir. Imagino como deve ser triste viver mantendo-se constantemente na linha. Que parte do meu jeito é um grande causador de problemas? Isso é realmente um problema? Talvez, minha cara... você precise se libertar. A tua fome é a pior que se pode ter, é desesperada e com sede. Pare de ser tão mal caráter. Não é por aí que se constrói caminhos com bases fortes pra te sustentar em momentos de crise. Cuidado, um dia você pode cair sozinha.

Para quem foi "vítima" do meu escárnio, afinal de contas, eu preciso me responsabilizar pelo que fiz, eu digo sem sombra de dúvidas que me perdoe. Não é assim que eu realmente te vejo. Foi assim que eu te vi. Queria muito ser compreendida, mas não sei nem por onde começar, pois eu mal me lembro do que eu disse.  Mas não sou apenas meu erro. Avalie como eu ajo com as pessoas e o que falo. Não sou apenas aquele momento conturbado. Não era eu quando eu disse tudo aquilo. Era o estresse, a pressão e o cansaço. E me envergonha e chateia saber que serei vista a partir de agora apenas daquela maneira. Eu disse muitas asneiras, eu estava cansada... e sou melhor do que isso, e tantas vezes errada, eu ainda floresço. Tudo mudou durante esses dias,  até com você eu já brincava, coisa que nunca tive liberdade de fazer antes. Eu mal me aproximava.  Nunca fui perfeita. Também tenho defeitos. Mas por onde a minha história passa, eu sou violentamente frágil e forte e eu nunca precisei ser perigosa, nem fazer maldade para atingir meus objetivos. Que fique claro que o mal se combate com honestidade. Me desculpe, eu não sei nem o que dizer além de que eu estourei, exagerei e falei demais com a primeira pessoa que encontrei, a ponto até de esquecer o que eu mesma tinha dito. Foi preciso me lembrarem para se ter uma ideia. Quem nunca foi radical e temperamental num momento de estresse que se atire a primeira pedra! Interpretei seu jeito diversas vezes, pelo lado ruim, admito. Isso é culpa também de pouca amizade entre mim e você. Tudo se esclarecia na minha mente... quem era quem e etc... e principalmente quem eu poderia ser. Me dê um crédito, eu entrei nessa sala crua. O fato é que quem antes só me via, agora me revê, graças a um trabalho de equipe. Eu enxergava uma evolução pelo caminho e você já estava nela como aliado. Quando tua reação mudou, muito me impressionou. Teu silêncio agora me é compreensível depois que soube do que se tratava. Porém, me tortura. Há um grande mal entendido nisso tudo. Um mal estar. E agora as paredes da sala não são as mesmas, e vejo minha colaboração querendo partir de tristeza... pois não posso ficar triste. Sou muito intensa. 

Eu me pergunto, aqui dentro da fogueira, se a solução é me anular, se cabe apenas pedir desculpas e partir, ou ainda se tenho forças para tentar vingar nessa história. Tenho certeza que nenhum dos sorrisos e pequenos prazeres do dia a dia que existiram, foram de mentira. Te peço, se possível, para que não me condene para todo o sempre. Faça ser eterno apenas o que tiver sido bom, e deixe o inferno ser o que ele é. Terrível e ilusório. Um dia, quem sabe... eu hei de ter defesa. Lamento por não ter percebido bem antes que poderia ter tentado chegar um pouco mais perto. Tudo poderia ter sido bem diferente. Não sou uma pessoa ruim, nem de ferro, e estou tão envergonhada e chateada quanto você. Mas de consciência e mãos limpas. 

Sirvam-se todos da minha língua. No começo, cheguei a pensar que eu realmente era alvo de alguma maldade, que eu era importante, perseguida, vítima. Agora eu sei que sou apenas uma peça no tabuleiro. Eu sou apenas de uma cor que nem existe nesse vale. Há tantas versões, tantas crenças, tantas desavenças por aqui... mas uma coisa é certa, a minha cor é incompreendida, e a sala não será vermelha pra sempre. Não estão todos contra mim. E de onde eu vim, muitas batalhas eu venci. Cuidado comigo... porque eu sou feliz mesmo. E essa infelicidade que não me pertence e chegou até mim, não vai me transformar no que me feriu. Quando eu choro é porque sou muito forte. Dessa vez vocês conseguiram. Amanhã, quem sabe... pode ser meu dia.  
Existe um punhado de verdades
Aqueles olhares não eram de mentira
Dentro de tudo que ainda não é coragem
Minhas pequenas ilusões
Nem precisam chorar
Há vantagens
E o resto dos anos pra acontecer
Tem tanta coisa reprimida
Não raciocino mais sem tendência
Há uma torcida
Grita-se
Meu nome
Há uma reza
Teu nome
E tudo que não foi dito
Por deus!
Nem toda cerveja do mundo
Seria suficiente pra despistar
Será que foi suficiente?
Eu não tenho feitiços
Nem desenvoltura
Envolve todo meu calor
Você tava cego
Uma hora vai rolar



sexta-feira, 21 de outubro de 2016

a verdade engoliu meu nome

Não sou mais o que eu era. Tudo mudou. Há uma nova fase da qual eu não sei absolutamente nada a meu respeito. Sinto de perto os meus defeitos, e não sei sequer sentir os mesmos enjoos. Roubaram meu tesão foi cedo. Cedinho. Não sei onde ele está, nem se volta. Por aqui tudo dorme. E por ser outra, não sei também qual remédio devo usar,  nem se estou doente, nem se foi de repente, e o pior! Não sei nem mais se sou eterna... E eu era eterna até pouco tempo atrás, tenho certeza. Meu coração é quem sente. Me avisa de tudo, toda hora. Toda hora é hora de angústia e de procura. Quando eu quero adormecer, tudo está aceso e urgentemente querendo acordar. E quando estou acordada, eu me pergunto de que lado eu estou, e se não faço parte de uma grande ilusão. Ilusão da qual me é conveniente e sabe o preço da minha alma. Cada centavo dela. O caminho nunca será me entorpecer... e eu lá sabia se eu tinha preço! Eu me iludi de várias formas, é por isso que eu ainda estou viva... só por isso que eu ainda não cheguei nem perto de ser completamente ferida. Eu to de aço. É como se o que eu tivesse que fazer estivesse bem na minha frente, mas eu ainda não enxergasse de que cores... Mas, caindo na real... de que cor é a verdade mesmo? Namoro insistentemente a paranoia de hora em hora. Pedem pela verdade... buscar a verdade, buscar a verdade, buscar a verdade... agora ela me consome, me abraça no jantar, sumiu com minhas vestimentas e engoliu meu nome. Eu tinha algumas coisas preferidas, não sei mais quais são. Tudo deserto e metade do meu tempo não é meu. Eu vivo dentro de uma gaveta. O que eu estou deixando fazerem comigo, sou eu mesma que deixo? Pra onde eu posso ir? Estão me levando pra algum lugar... eu sei que estão. Há um cansaço, mil desejos e uma euforia de lascar... eu não sei, e me canso de procurar... o que é que ainda me pertence se não essa enorme confusão. Talvez isso seja eu agora. Uma hora, tudo isso que mudou parece partida, depois parece começo. Vai saber... parece que eu estou é fugindo. Eu quero correr, não deveria. Eu quero atravessar as pontes, não consigo pisar pra fora da terra. Quero gritar meu nome, quero que me escutem e não sei mais qual é o meu nome. Tudo é tão quadrado e obsoleto. Meu lugar não é aqui pra sempre, mas é como se eu ainda também não quisesse estar pronta. Eu fiquei, no final eu fiquei. Não é pra sempre, alguma coisa sempre me alegra com isso. Mas o tempo passa lentamente. E eu tenho medo que isso seja tortura, tortura que eu não aguente. Preciso descobrir meu nome. 



domingo, 11 de setembro de 2016

Minha barriga é a primeira a me empurrar
O desejo passeia pelo precipício
Domina minha mente por segundos
Me faz voar
A realidade me interrompe
Estou acordada
Estou sonhando
Estou viva e iludida
Te quero
dia após dia
Te imagino
Venha comigo
Há planos mentais por todos os lugares
Pelos comodos,
Pelas ruas,
Pelas falas que eu decoro
como se tudo fosse dar certo em algum momento...
Torço,
Para esquecer,
Torço,
Para lembrar
Eu sou torcida viva de hora em hora
Por que teus olhos não saem de cima de mim?
Por que meus olhos tem que fingir que não estão vendo?
Teu medo senta do teu lado,
Tua coragem sempre surpreendida
tentando não acreditar no que vê
Não se renda
Nunca vou pedir isso
Não seria bom que tudo começasse pela fraqueza...
Espero pois que passe
Depressa
Ou
Devagar
Bom é ser torcida viva




sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Raiz de repente!
Não foi uma ideia
Chegou...
Flor eu já não seria mais
Quebra-se meu vidro
Não é mais sobre espinhos
Não é mais sobre sementes
A terra fala de um abraço
Sem morte
Sem drama
De repente mesmo!
Quer um abraço e alcançar o céu
Me dividir em ramos
Me alcançar de todos os lados,
Pra cima! Quer me atingir!
Agora eu fiquei grande
Não é mais sobre espinhos
Não é mais sobre sementes
Ar... balancei, sem sequer sair do lugar...
Quando o vento passar, meus pedaços vão cair...
E eu vou continuar,
sem morte,
sem drama.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Se eu pudesse escolher para que parasse
Escolheria agora
E agora pararia
Agora cessaria
Agora seria perfeito
Trágico
Dramático
Seria amor.

E se eu pudesse ainda que por um segundo, ser tua...
Te devoraria até os ossos,
Chuparia toda tua carne,
Descobriria teus segredos,
E as peles grudariam até ser uma só

Não ia sobrar parede,
Não haveria mais chão,
Teus olhos seriam eternamente meus
O sol nasceria com a minha alma de novo

Ah, se eu pudesse escolher para que parasse agora...

Ah se eu pudesse realmente não me perder no destino que eu traço todas as horas...

Não ia sobrar dúvidas
Não haveria mais fugas
Meu corpo seria festa
E a lua brilharia sem fim

Agora, tudo se movimenta
Tudo me desorienta
E se eu pudesse escolher para que parasse agora, agora deixaria de ser eu.


Não adianta não gostar dela
ela está em todos os lugares
na esquina
no bar
dentro da sua casa
nos quartos...
ela está dentro de todos os quartos.
Entregue-se
Posicione-se
Escolha suas armas
Não adianta não gostar dela
todos lugares estão cheios dela
Mexa-se
Ela vai te engolir
Então mastigue primeiro
Vomite, se for preciso
Dentro da sua casa
nos quartos...
dentro de todos os quartos.
Entregue-se
Uma hora sempre vai

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Tem uma vela acesa nos meus dias
imagino o fogo o tempo todo
nada aconteceu
E ao mesmo tempo é tudo tão suficiente
teu nome combina com todas as cartas mentais que eu não escrevi
Quero teu corpo, tua pele, tua voz e a minha cura.
Tudo apertou de repente e se encorajou.
Eu devia ter te conhecido primeiro...
Quais são as regras agora
É tudo tão raro e infinito
Desconheço minha própria respiração.
Queria respirar assim sempre.
Existe uma certeza peculiar de que estou exatamente em tempo e preparada pra isso.
O que é intuição, destino...
As vezes você simplesmente não pode ser real...
Estou incomodada
Você podia ao menos não me olhar tanto
não me olhe
não me olhe
tua presença me interrompe
Cancela meus planos de esquecer
Por que eu preciso tanto de explicação?
Quem está confusa não sou eu
Tudo apertou de repente e se encorajou.
Eu preciso de um plano,
do teu jeito.


quinta-feira, 7 de julho de 2016

No pátio da escola

Conheci a Aline no pátio da escola correndo. Eu era uma menina medrosa e insegura. Não corria por medo de cair e ser caçoada pelos colegas. Aline não. Aline corria de uma ponta da escola para outra com muita rapidez, Aline voava. E se caísse e alguém vaiasse, Aline virava uma fera, se defendia, mostrava a língua e o dedo, e aos berros, espantava todos que tentassem rir dela. E era assim que ela fazia também com quem ela amava, era assim que ela também defendia o Luiz Fernando, seu irmão surdo. Apesar de chamar a atenção dele a maioria do tempo.
Foi assim que eu descobri que queria ser a melhor amiga da Aline naquela escola. Era daquilo que eu precisava para ser uma menina respeitada no meio daqueles lobos e para ter com quem contar quando alguém me caçoasse. Coragem, segurança e correr mais rápido e sem medo de cair. Foram as coisas que aprendi com Aline sem perceber. E foi com a Aline e seu temperamento forte, que eu também tive minhas primeiras brigas longas. Apesar de serem briguinhas de criança e depois de adolescentes se descobrindo, foi perto dela que eu percebi também que algumas coisas não valem a pena se deixar magoar tanto, porque o perdão é o melhor amigo de qualquer amizade duradoura e bem humorada. 
Houve um tempo inclusive, que o bom humor era a sombra da minha amizade com Aline, ficávamos duas horas no telefone tagarelando sobre tudo. Nós ríamos de tudo que era besteira, gostávamos de imitar as pessoas, de arrebentar nas peças teatrais da escola, de ter crises de risos sem limites e com o tempo... Percebi. Nós estávamos mudando, nossas personalidades foram ficando mais distintas uma da outra, e com isso também vieram novas crises, aprender a lidar com as diferenças. Mesmo assim, ainda corremos na chuva, fizemos gols no jogo de handball e rimos de nós mesmas. Aprendi com a Aline que era permitido preservar nossas crianças interiores pra sempre em algum pedacinho da nossa história, por mais que a vida adulta bata na nossa porta. Por que ser, ou fazer escolhas, diferentes, não me tornava menos sua amiga e vice versa. Nós finalmente e graças a deus, não estávamos mais na sexta série. Agora nós finalmente podíamos odiar matemática pra sempre, sem precisar de pontos. Agora eu podia ser escritora e jornalista. Mas foi aí que eu parei pra pensar: e a Aline?! E então a tristeza pairou. Aline não viria comigo pela primeira vez na vida. Não haveria primeiro dia de aula, nem trabalho de dupla. Eu ia pra faculdade e Aline continuaria no cursinho. Aline queria outra coisa, aline não desistia, aline corria de novo, dessa vez com os livros, sem medo de cair, até que ela passou. 
Doutora, médica e CDF. Era isso que a Aline queria ser agora. E conseguiu. Parabéns minha amiga. Nossa amizade sobreviveu firme e forte com as diferenças, e a tecnologia nos tornou próximas novamente. Com muitas novidades e histórias novas pra contar. E hoje, eu aprendi mais uma vez com você. Que a distância é apenas um detalhe pra quem realmente se gosta. Tudo que eu posso desejar depois de quase 11 anos de amizade, é que aja sucesso, e que continue correndo sem medo de cair. Ousada. Determinada e Corajosa. Características que hoje, também entendi que não são só suas, mas também as características que mantiveram nossa linda amizade e que nunca vão sair de moda, nem cair em qualquer pátio de escola. Por tudo isso amo e desejo sucesso a você.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Primeiro de julho, depois de mim o amor.

Cheguei primeiro, você é a mulher do padre. Quando eu acordei, o amor estava debaixo da cama, dentro do guarda roupa, atrás da porta, emburrado, chorando dentro do banheiro faz meia hora. O amor cabe dentro do tanque, divide o shampoo comigo e troca nossas toalhas toda vez. O amor está comigo, contando moedas, em frente aquele bar, pra comprar dindin e cremosin. O amor sabe dar o troco certinho e caiu de bicicleta comigo. Ralamos o joelho, esfolamos o cotovelo, mas o amor não cansa de procurar as peças do quebra cabeça que sumiram, comigo. O amor sabe e conhece de todos os personagens que eu falo, dos defeitos e das qualidades dos nossos pais. O amor teve época que conversava a noite toda comigo. O amor me contou algumas mentiras, riu de mim, pulou de um sofá pro outro, e viu no chão os mesmos jacarés e vulcões que eu.
O amor está atrás da casa contando até dez, está escondido na dispensa, está discutindo bolacha recheada na fila do supermercado. O amor foi comigo pra escola, desligou a luz do quarto, gritou meu nome e está fazendo dinheiro de papel, e bolo e pastel de areia pra eu comer. O amor me deu um murro. Ás vezes, o amor é mais forte do que eu. O amor me fez chorar, se vingou de mim e contou tudo pra mamãe. O amor não quer mais brincar, me disse que não era assim, me defendeu na frente das pessoas, foi pra casa comigo a pé.
O amor entendeu as histórias como eu, cantou as músicas no mesmo ritmo, e é ainda mais forte quando levanta a mesma bandeira que eu.
O amor acreditou que era possível voar, flutuar, ser mágica, e caiu da rede comigo. O amor não lavou a louça, contou as estrelas comigo com medo das verrugas nascerem.
O amor me explicou melhor as coisas e me deixou com menos medo. O amor trancou a casa, correu do bicho comigo, e me jurou vários segredos.
Eu vi o amor aumentando, deixando de ser caçula, depois deixando de ser do meio. Não é 'val',  não é val... como eu disse, eu cheguei primeiro, e agora nem a mulher do padre o amor era mais. O amor era quatro e disputou atenção, ele cresceu, distanciou, ficou igual antes e beijou primeiro do que eu. O amor me viu cantar, chorar, despencar e rezou comigo. O amor me viu sonhar e querer, colocou bota e chapéu, me levou para os bares, deu comida para as tartarugas e encheu o copo comigo.
O amor às vezes só queria dormir pra sempre. Quando eu acordei, o amor estava em todos os detalhes, em todas as cenas, na sombra da infância, nas dúvidas da adolescência, e nas oportunidades de ser mais adulta. Quando eu acordei o amor estava em todos os lugares e era um MAR imenso, muito grande mesmo, que deveria caber em um nome, que deveria ter um apelido.
Eu cheguei primeiro, depois de mim, o amor: Nina 




  

quarta-feira, 4 de maio de 2016

O bairro

Tem um lugar atrás do meu bairro que no meu sonho é diferente. Quando eu estou dormindo é diferente. Me obrigam a buscar alguma coisa nesse lugar, e eu nunca sei porque eu vou, mas sempre sei que sentirei medo. Eu obedeço as ordens de alguém que eu não vejo, e quando estou lá acordada, aqui eu estou dormindo. Eu sou eu, há muito tempo atrás. Tem uma igreja enorme que arranha o céu, e de repente eu estou rezando muito mais do que eu rezo, de tanto medo. O diabo é um pretexto quando eu estou acordada. Lá, deus é que é. Mesmo assim, minha esperança é fugir. Fica sempre aquela impressão de que preciso enganar alguém, de que meu tempo está passando. Eu vou conseguir. Meu cheiro é lamentável, minha cabeça coça, minhas pernas estão roxas debaixo de um vestido que pesa. Tenho a impressão de que as minhas partes intimas são da cidade inteira. Eu não sou sagrada. Não sinto fome, não tenho dinheiro, mas de alguma forma eu sei que sou importante, eu estou fugindo. Os homens me apavoram, me traçam, me lambem. Tem uma caveira na porta da casa de uma macumbeira nesse bairro. Ao mesmo tempo que eu sei que é pra lá que tenho que ir, eu me escondo. Fico o tempo inteiro frenética, paranóica. Não sei porque, mas moro com mulheres que costuram e nunca as vejo. Somente os panos e retalhos por toda a casa, e eu me identifico com eles... perdidos em pedaços, não transformados, restos e restos... Pra onde eu corro eu nunca sei. Se eu não me movimento, me sinto cada vez mais enraizada no medo. Eu acordo sempre antes de encontrar uma solução. Aliviada e pertubada ao mesmo tempo, me pergunto o resto do dia se eu corria em busca de coragem ou em vão. Queria eu, ali dormindo, não voltar nunca mais pra descobrir. Mas os dias passam, os anos acabam, e uma hora ou outra quando eu não estiver acordada , lá estou eu... cumprindo ordens naquele bairro. 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Muita sorte - Parte I

Genivaldo nunca me ouviu direito, o que também não significava que me ouvia errado. Tudo que meu marido ouvia era o que ele queria ouvir. Essa era sua maior qualidade, e eu ficava impressionada em como Genivaldo tinha realmente nascido com esse dom. Quando pessoas como eu, cruzam o caminho de pessoas como o do Genivaldo, ter passado a maior parte da vida meio perdida e seguindo o que as pessoas pedem para que você faça e para que você conclua, começa a parecer uma grande sorte na vida. Pelo menos era isso que minha mãe dizia quando abotoava meu vestido de casamento. Você tem muita sorte minha filha, muita sorte. Uma pessoa decidida como o Genivaldo não é fácil de encontrar. Minha vó arrumava minha grinalda, tentando não transparecer a pena que sentia de mim. Ela bem sabia que eu não estava preparada para um casamento, mas como também considerava Genivaldo o cara, eu era uma menina que poderia ser uma mulher de sorte.
Pode ser também que eu já tenha nascida sortuda. Essa piedade me acompanhou na época do colegial. Professoras falavam coisas parecidas. Você tem sorte, só passou porque o conselho de classe te ajudou. Você tem sorte, a coordenadora não vai mandar cartas avisando de suas notas baixas dessa vez. Quando o apartamento estava pronto, meu irmão, numa visita com seus filhos, também disse. Você tem muita sorte, seu apartamento é realmente muito bonito maninha.
Demorei alguns anos pra perceber que as cores do apartamento, no final das contas nem era eu que tínha escolhido. Genivaldo tinha essa qualidade também, de parecer que eu era muito boa em escolher cores de paredes. Brigava comigo durante uma semana porque eu não me importava com as paredes do nosso próprio ninho. Depois, quando eu finalmente escolhia a cor, dizia que ela era boa, me dava um beijo e em seguida fazia uma cara de apaixonado e falava estar feliz por eu ter me esforçado. Daí então, escolhia ele mesmo, outra cor para pintar as paredes.
Enquanto fazíamos amor, Genivaldo era realmente o homem da minha vida. Aliás, era o único. Mas eu não gostava do cheiro do Genivaldo no meu corpo por muito tempo. Não sei como fui capaz disso, mas a verdade é que um dos motivos que me manteve firme no altar, era um pouco minha dependência sexual por Genivaldo. Não parece muito saudável falar sobre isso, mas evitei muitas brigas para que não ficássemos sem sexo quando fossemos nos deitar. E concordei com ele, em inúmeros problemas, mesmo que eu estivesse certa, por causa do sexo. Conviver com o Genivaldo sem o sexo, era insuportável pra mim. E não era bem o sexo que ele fazia propriamente dito, que me amarrava por completo. É claro que meu marido me fodia com qualidade, mas o que estou tentando dizer, era que Genivaldo me fazia sentir ser muito mais do que eu podia imaginar durante o sexo. Essa sensação de poder me agradava, me excitava e o principal! Me fazia sentir viva. Eu bem sabia que eu nunca fui realmente a mulher mais gostosa da vida de Genivaldo. Eu era fogosa, mas inexperiente, pouco curiosa, e com alguns pudores ainda difíceis de serem quebrados. Eu tinha plena consciência disso inclusive. Mas minha vontade de agradá-lo entrava em guerra com minha vontade de ver até que ponto ele me aceitaria daquele jeitinho mesmo. Genivaldo soube como aproveitar a vida, conquistou e quebrou corações. Tenho a impressão de que me casei com Genivaldo também porque sinto uma inveja absurda de como ele sempre tinha histórias legais e sabia o que queria. Meu marido já havia me contado muitas histórias calientes da sua vida, não sei como ele teve coragem. Eu não contei nem que era virgem na nossa primeira vez. Era excitante pra mim, de certa forma, vê-lo desconfiado e sem coragem pra perguntar algo a respeito da minha vida sexual. Imagine só, ser enganado por uma virgem depois de tantas experiências. Pelas histórias, dava, inclusive, pra se ter uma noção de quem era a mulher que realmente havia pirado seu cabeção e que infelizmente não deu certo. Talvez, deus tenha me dado um dom também... fazer as pessoas se abrirem pra mim, sem muitos rodeios e como se eu fosse uma porta aberta para que elas entrem, largue seus fantasmas, saiam e me deixem mal assombrada pra sempre.
Não me lembro bem quando comecei a mentir pra mim mesma, mas comecei a me convencer que eu também podia ser a sorte da vida de Genivaldo. Quem sabe eu não era mesmo o que meu marido sempre sonhou. Quem sabe eu não era alguém completamente perdida que ele pudesse ouvir exatamente o que ele queria, o que ele desejava. Pra quem não sabe o que quer, qualquer coisa que vier é lucro? Isso de certa forma parecia ser muita sorte. Talvez, ignorar fatos importantes da minha realidade complexa e da minha falta de auto estima, fosse de alguma forma atraente, fácil de moldar. Minha enorme nuvem negra, nunca saiu de cima da minha cabeça. Eu trazia um quadro feminino depressivo de uma série de tantos faz, perceptivelmente na minha sombra. Não sei bem como poderia ser atraente dessa forma, mas Genivaldo quase me convenceu de que eu era uma jovem realmente sedutora. Demorou algum tempo pra que eu percebesse que existia uma fantasia bem pessoal e traumática de Genivaldo, ao meu redor. Ele sempre foi muito bem tratado e cobiçado por outras pretendentes e tinha um trauma meio maluco que o fazia procurar por alguém que se importasse menos, com todos os cuidados que uma relação deveria ter. Genivaldo tinha muito medo de descobrir que era um canalha eterno. E foi exigente com outras mulheres, mentiroso, e sentia culpas horríveis por não ter feito dar tão certo antes, como dita-se as regras das pessoas boazinhas. A sensação que eu tinha era que Genivaldo tinha me encontrado exatamente como ele queria. Pra ser o homem mais bonzinho possível, pra ser perfeito e nenhuma culpa ser sua de novo. Na hora certa de algum plano urgente que ele tinha, pra vida dele não dar tão errado, caso ele não tomasse uma decisão muito rápida de se aprumar na vida. Genivaldo não queria e nem tinha tempo a perder, pra me enxergar como eu realmente era e ao mesmo tempo via muitas soluções na minha imagem problemática. Por todos esses motivos errados e malucos, construímos uma paixão bem sacana e intensa. Quantos mistérios e jogos de poder cabem no nosso apartamento? Ser um fantoche nunca incomodou Genivaldo, isso era meio impressionante pra mim. Me incomodava ser um fantoche, mas ainda não o suficiente. Eu tinha curiosidade de saber até quando ele realmente iria manter tantas certezas e controle da nossa relação, ou mesmo até que ponto eu seria capaz de me deixar dominar e não demonstrar estar me importando tanto. Eu estava por dentro de tudo, e minha nuvem negra na cabeça inchava a cada dia mais e mais. Eu não trabalhava, mal estudava, e me divertia com a reação dos amigos de infância e colegas de trabalhos de Genivaldo, com a reação das ex- namoradas dele. E com a vontade que meu marido tinha de ser um homem tradicional a procura de uma família e uma história de amor perfeita comigo. Comigo visivelmente arruinada. De certa forma, o desespero de Genivaldo me dava um prazer estranho. Eu tentava pensar nisso inclusive, pra gozar mais rápido. E também nos olhares dos amigos de Genivaldo, do comportamento deles quando eu chegava nos lugares... eu parecia para eles, sagrada e ao mesmo tempo perfeita na minha condição. Era triste e divertido ao mesmo tempo, ver tudo e não transparecer nada. Perceber e obedecer.
Eu era péssima com serviços domésticos, e também não sabia cozinhar. Por mim, o apartamento podia dar bicho. Meu marido nunca fez questão que eu cozinhasse. Ele dizia que gostava de mim do jeitinho que eu era, e acabei sendo desse jeitinho em várias outras situações. Confesso que eu esperava todos os dias, pelo dia em que Genivaldo iria exigir um pouco mais de mim. Durante muitos anos, abri as portas dos restaurantes simples e chiquérrimos que Genivaldo me levava pra comer (de modo que parecia ser qualidade minha as escolhas dos restauranres), com uma imensa vontade de fugir. Depois de discutir por algumas horas no carro, por eu não me atentar nem em escolher o lugar que poderíamos nos alimentar, e quando eu finalmente escolhia, receber seu beijo e cara de apaixonado, por eu ter me esforçado e feito uma boa escolha... Escutei a sugestão de outro restaurante. Mas não é um dia bom para comer frango, ele disse. Tudo revirou no meu estômago. Fui obsediada por uma sensação maldita e corajosa de fingir estar indo no banheiro pra lavar as mãos e retocar o batom, para finalmente pular a janela. Com muita sorte, eu ia pegar o primeiro táxi lá fora, me dirigir a um terminal rodoviário, e fugir do que eu era com Genivaldo. Ainda era tempo de descobrir o que eu poderia ser? Não tinha jeito pra mim com Genivaldo. Eu tinha sorte de ser daquele jeitinho mesmo?  

segunda-feira, 28 de março de 2016

cenário perfeito

Voltei pra escrever sobre um deserto atrás dessa porta. Dos buracos que fechei, disfarçado de romantismo e que esteve há alguns dias soprando uma desesperança. Por incrível que pareça, nosso carnaval sem máscaras, trocou nossas crianças. Conversando com ela, sobre você e tudo que você não me disse, fumávamos um cigarro, sentadas num tronco afastado da mesa principal. A gente dava gargalhada sobre a que ponto somos capazes de permitir lacunas dentro do nosso peito e como somos ingênuas e irrecuperáveis. Aquela noite, prometemos que iriamos dar até um beijo de solidariedade. Às vezes me pergunto até quando vou ter essa mania aventureira de beijar na boca das pessoas por amizade. Quando eu ou ela entendermos porque buracos se constroem tão rápido e sem permissão aqui dentro, no centro, e as vezes tão devastadores na caixa torácica, não precisaremos mais ficar por anos tentando compreender se a  culpa é dos causadores ou nossa. A culpa vai ser finalmente apenas uma fumaça. E conversando sobre tudo que você nem me disse, ela fazia piadas rápidas e diretas das minhas paranoias, que por deus... eu adoro. Tornar algo trágico em comédia, é uma arte para poucas. Eu deveria ter percebido dali que tragédia com mistério não vai combinar nunca comigo. E meio altas da catuaba, eu e ela planejávamos maneiras mirabolantes de se comportar quando você chegasse. Cenas de como iriamos fingir que eu nunca estive tão entusiasmada e cativada assim. Cenas de que você nunca foi pauta nas nossas conversas. Cenas de muita mentira e ações decoradas, caso você entrasse por aquele portão desconfiada de que eu podia ser alguma desesperada. É mais elegante não falar sobre o que se sente. O papelão e a vergonha, depois dos vinte e tantos anos, vem deixando de existir. Mesmo assim, ainda consigo ser muito deselegante, muito honesta, muito sossegada, e se for pra ser será é o caralho. Depois dos vinte e tantos anos, se for pra ser, a gente simplesmente faz acontecer. É chato agora, tudo que coopera com regras misteriosas, discretas e processos lentos. Vai pro ralo nas atuais circunstâncias o que é devagar. Mas eu confesso que por um longo tempo, eu já achei muito bonito essa calma toda pra desenrolar histórias que querem ser vividas. É bonito e chega a ser sagrada, essa crença de que forças ocultas vão fazer a nossa parte. É chato agora. E conversando sobre tudo que você não me disse, eu e ela ríamos das piadas da internet, e eu bebia as cervejas pensando no quanto a catuaba me esquentou depressa, “que felicidade estou sentindo agora”, eu dizia e ela sorria concordando. Ela fazia brincadeiras de que você ia chegar a qualquer momento por aquele portão, e meus sustos eram cômicos e trágicos ao mesmo tempo. Ela me dizia “sua cara achando que ela vai entrar por aquela porta é impagável”, nós sorríamos atrapalhadas em cima daquele tronco, quase caindo... quando você chegou de verdade, mudando todo nosso humor e nos fazendo entrar em cena depressa.

Na ousadia, você mal cumprimentou as pessoas da mesa e já foi diretamente ao tronco em que eu e ela estávamos prontas pra encenar. Vadia. Marcação cerrada. Apaguei o cigarro e você apertou a minha mão, seguida de uma brincadeira sem vergonha de terminar o aperto feito pinça. Pinçando três vezes a palma da minha mão, três vezes no centro da palma da minha mão... Sádica. Você não presta. Me perguntou então, com a boca cheia de dentes, se eu estou bem, como se eu fizesse realmente parte de alguma preocupação. Ainda paralisada da brincadeira feita na minha mão, uma vergonha sobrenatural se apossa do meu corpo. Ardilosa. Quem sabe é a vergonha acumulada que eu não tive de ter poupado minha declaração antes. Talvez eu precisasse beber aquela noite muito mais do que havia planejado. Cinza. Você é cinza. Nem preto, nem branco. “Pra quê tá fazendo isso com minha mão?!”, digo inquieta, e você sorri de um jeito que eu já sei que foi ponto pra você. Misteriosa, tem hora que parece até o meu pai. Descubro que estar nervosa e confusa foi um prazer imenso do qual eu não gozei. Eu queria falar um monólogo sobre como aquilo era constrangedor e você fez de propósito, mas hoje não. Eu vou dançar como se essa noite fosse uma despedida, vou sacudir meu corpo de olhos bem fechados pra enxergar o que está aqui dentro de mim e entender que o fato de eu ter me declarado não quer dizer absolutamente nenhuma fraqueza minha. Fico. Rebolo. Sinceramente gostaria de te deixar curiosa sobre o quanto seria mais interessante estarmos nos conhecendo. Eu sou de verdade, mulher. Vivo sincera numa lua sempre cheia. De repente, tenho a sensação de que estou maravilhosa de verde, e me vejo fora do meu corpo e também como se eu fosse você. Como se eu estivesse dentro de você, me vendo através dos seus olhos. E é acreditando nessa sensação que a noite passa a ser comandada por mim. Quando eu abrir os meus olhos, vou ver os teus exatamente do jeito que eu vi nesse carnaval sem máscaras... fugindo mulher. Assustada, fugindo, e tentando fingir que nem estou ali, dançando livremente. Preciso fazer xixi. Um passo que eu dou para fora do banheiro, lá está você. Me seguiu, arteira? Me enlaça. Me aperta. Estamos na parede. É beijo. Guardo como fotografia, a memória da tua safadeza, o barulho do meu sorriso surpresa, e o olhar de quando abri a porta do banheiro, pensando que você queria usar. Mas não era o banheiro, era sua coragem. E não desperdiço essa memória que me dá certeza e sinais de que por algum momento eu estava certa, absolutamente certa. Você também me queria. Compreendo agora que uma porta pode se abrir sem trinco. Eu perdi a oportunidade de comentar que teus lábios tem um gosto maravilhoso de impossível. Eu fiquei com muita raiva nos dias seguintes... foram lamentáveis e a cena que se repetiu por horas e horas no meu dia foi a tua safadeza. Queimo. Se eu não faço isso, tudo por dentro agora estaria devorado. Segui o manual, de me jogar na rua de novo. Rabiscar a parte que eu errei de novo, criar novos sentimentos e tribunais de defesa de novo. Desmanchei você, como a lei diz que tem que ser, e como aquele pôr do sol chapado em que nos vimos pela primeira vez, também se desmanchou para dar espaço pra noite. Aquele dia você chegou atrasada, e não desceu daquele carro sozinha, desceu bordando uma besteira enorme e bem particular na minha cabeça. Quanta bobagem... queria ilustrar que desde o início do teu chegar eu não poderia mais ser comum. Você expirava a fumaça e sorria, e aquilo já era o cenário perfeito para a beira do colapso que podia chegar com a minha permissão. Não percebi de tanto brincar, o quanto eu de repente queria ser muito interessante e notada. Quantas pessoas estão atrás e por trás das nossas portas? Eu deveria ter sido mais inteligente, ter roubado seu livro de poesias, devolvido com bilhetes, pedido caronas desnecessárias, desmarcado compromissos... é tarde e você estava certa. Eu sou muito rápida mesmo, parecida com a tua coragem imediata. A mesma que me estragou por alguns dias. Juro que estava fora do meu alcance, e do meu infinito tribunal, não me interessar por você. Não tem porque procurar meus erros, se eram apenas seus medos. Não tem porque procurar meus erros, se era apenas nosso desejo, nós duas na parede sorrindo por motivos tão diferentes que não demorou muito pra que você apertasse o gatilho. “Imediatista!”, você disse e então era esse o meu erro. Um erro que te trouxe pra perto. Que acerto! Que beijo! Então, você nem queria mesmo usar o banheiro. Coragem ou covarde... o que é que importa? Meu dever volta a ser o mesmo...fechar a porta e permitir começar um novo deserto no quarto do meu coração. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

o chão continua periodicamente limpo

Desde os tempos das balas de prata, é sobre fantasmas que eu sei conversar. É sobre eles que eu falo e suspeito. Eu os sinto por perto. É deles inclusive que tenho medo do abandono. É tudo tão ao mesmo tempo que não da tempo de ter uma ideia exata se tenho medo por tê-los por perto ou se tenho medo de sentir falta deles por me sentir sozinha. É confuso, mas de certo modo eu me acostumei a estar acompanhada por eles. Me pergunto as vezes porque eles não são capazes de me dar pistas mais concretas sobre o porão. Continuo cavando esse buraco mais e mais fundo, sendo observada por eles ou não. O que eu sei é que até um tempo atrás, não sabia muito bem porque cavava. Mas cavava com medo e escondida. É sempre essa compaixão inerte que pulsa, minha espinha tem poder de ordenar e fazer ter certeza das coisas que eu faço. Minha moral é muito grande. As vezes eu não consigo conviver tanto com ela, quanto mais eu cavo, mais eu encontro tantos erros que podem ser reaproveitados enterrados. São tantos que um dia pretendo compreender... por que os caminhos da vida são tão longos no inicio? A estupidez ganha um espaço grande demais no terreno intocável da minha areia. Uma paz estranha senta na minha calçada, mesmo que eu esteja em pequenos voos, em pequenas quedas, entrando e saindo. Me pergunto até que ponto sou eu mesma que esteja escrevendo minha própria história. E se for uma linha fina e obscura do destino puxando um grande fio no meio da minha cabeça? A realidade é tão estranha, não tem tempo, nem quadrado, nem parede. É por isso que eu continuo cavando. Busco a vida inteira por esse momento, eu consigo. Mas essa precisão de continuar cavando o buraco cada vez mais fundo, mesmo que muitas dúvidas continuem pelo jardim... algum dia... o sol nascerá mais claro com todas as explicações que talvez um pedacinho de mim ainda queira?! Eu sou mais torta, mais fora do eixo. Quantos anos haverão de chegar para que eu compreenda que espécie de sentimento era esse que me ordenava coisas, caminhava comigo e ainda respira ao meu lado. Ando escutando o barulho daquele chaveiro se quebrando, do cavalo correndo sem a cabeça, da porta daquele carro batendo, da chuva caindo de repente, do grito e o choro. Agora que você é assim, pode me responder se o tempo mostra que algumas coisas sempre estiveram lá? Ou elas sempre existirão? O meu estado é crítico quando paro pra pensar infinitivamente em qual seria a culpa que ainda me impede de dizer as coisas que eu nunca descobri. As coisas que eu pensei que seriam mais fáceis de descobrir com o tempo, escritas em um papel que nunca basta. As coisas que me transformam pra sempre, agora, nesse minuto e amanhã sucessivamente. O que é que pode realmente me machucar? Talvez se eu descesse no porão poderia tentar entender para dar um passo a frente e ai quem sabe descobrir que não é nada demais. O problema é que esses dias eu percebi que sou apaixonada por tudo isso. Apaixonada pelos detalhes e minúcias. E não é atoa que eu prefiro manter tudo intacto aqui dentro. Intacto pra nunca precisar descobrir o presente. Agora eu sei que quando estou dormindo, estou pintando todas as paredes desse museu que eu guardo dentro da minha cabeça. Quando estou dormindo estou lá, e nunca estou disposta a deixar que o museu dê aranhas, nunca deixo que as luzes se apaguem, e estou sempre de olho nas falhas da instalação, na poeria das janelas e observando se o chão continua periodicamente limpo. A verdade não dói mais, mas é absurda. Revela uma construção que cresceu em mim, enquanto eu dormia sonhando que no fundo eu nunca estive disposta a deixá-la. Eu não quero esquecer. É no museu que posso ter uma garantia de que talvez esteja sendo observada e em companhia pra sempre.