domingo, 23 de abril de 2017

Minha selvageria

Cheguei a pensar por algum momento que vinha perdendo minha selvageria... mas isso não pode ser verdade. Não posso ser alma subtraída. Todos aqueles que eu toquei o coração de alguma forma, vem sendo capazes de relembrar minha voz e meus sorrisos...e me aquecem. No final das contas é apenas isso que importa. E traiçoeiro do mundo que nos faz esquecer disso. Esquecer o nosso melhor, esquecer aqueles que nos fizeram companhia, esquecer o que nos sequestra e entorpece por alguns minutos nos dias que precisam sair em ordem e darem certo no final. Esquecer é a maior tragédia que pode acontecer. Tem uma cobra preta em cima da minha cama agora. Uma cobra tão preta que brilha. Curiosamente sinto que deveria estar com medo dela, mas impressionada não consigo. Sonhei com ela. Era pra ter sido um pesadelo, um azar, como um gato preto que passa e deixa fumaça...mas, ela é minha. De alguma forma ela nada mais é do que minha agora. Passo a entender que estando na minha cama, é o maior sinal de intimidade que eu tenha com todas as situações que pareciam perigosas, que me cercavam e me tiravam o sono. Que transição é essa que não consigo sentir medo dela? Imagino, ela enorme na cama de muitos e o estrago que ela pode fazer caso se pense muito sobre ela e tão pouco sobre o que fazer com ela. Por aqui acabou...Havia uma sensação de ser engolida, de desproteção, de quase mordida e constante retaguarda. Agora não. Posso dormir com tudo isso e tranquilamente acordar consciente de que da pra lidar sem medo. Sou muito mais selvagem do que eu podia imaginar e talvez o que eu perdi de verdade foi o significado que eu tinha de coragem. Corajosa eu sou todo dia, quando dou passos lentos e enfrento com medo mesmo. Nada mais selvagem do que estar inteligente para perceber de forma tão intensa e não se perder, não quebrar, não cair e agir, simplesmente conseguir agir de maneira leal a cor da sua voz e sorriso. Não se pode esquecer isso. Só pode ser isso que realmente importe no final das contas.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Segredos engraçados

Senti falta do que eu era anos atrás
Momentos que me transformavam e eu não sentia
Paixões que eram vivas
Do meu peito voraz!
Da fé...perturbada, triste, cheia de palpites...
Ah, quando eu escrevia cartas!
Senti falta...
Dos meus papéis, inúmeros papéis que eram importantes ser guardados nas minhas gavetas,
que eram importantes não interpretar
que eram importantes e eu assinava sem ler o contrato
Sinto que jamais poderei queimar todos numa lata de lixo, nem descobrir suas causas e funções.
Sinto... em algum momento, o cabelo apenas pacientemente crescer também foi sagrado, massacrado, intolerante, massificado...
A vida e eu tínhamos segredos engraçados, senti falta até como sinto dos pneus murchos da bicicleta que deixei naquela mudança.
Quantas mudanças?!
Meu deus...
Inúmeras mudanças que fiz e fui me deixando em cada uma delas, e me substituindo por outras,
por outras e mais outras...até me dar conta que ainda e sempre, todas nós, éramos eu.
Hoje eu senti falta do que eu era anos atrás,
Até que me lembrei que é só daqui que eu posso sentir desse jeito.
Só daqui, bem desse jeito.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

juntos


Sinto falta de quando todos nós éramos diferentes mas tínhamos o mesmo objetivo. Ou mesmo quando ainda achávamos que o objetivo de todos era o mesmo. Por que eu estava ali? No começo era uma coisa, depois era outra, no fim era tristeza e percepção da realidade. Quando éramos jovens demais pra saber que o que estávamos fazendo era uma espécie de loucura coletiva, ah... como eu sinto falta daquilo! Quando achávamos que tínhamos tempo pra aquilo, quando organizávamos reuniões, encontros, quando deitávamos naquela grama e pegávamos aquele sol... Meus amigos! Por que mudamos tanto? Por que deixamos pra lá? Por que nos afastamos tanto, mesmo depois que tudo acabou?! Éramos incríveis juntos... Éramos amorosos, divertidos, entusiasmados, bêbados e caminhávamos a pé para qualquer lugar sem reclamar... Éramos vivos, avisados, interessados, e hoje em quadrados, pensamos coisas sombrias e esquecemos como éramos juntos. Tínhamos algo dentro do peito, e  juntos, diferentes, um motivo para continuar e observar as flores de maneira diferente. Tudo foi perdendo a graça... Não tínhamos mais desejo pelo mundo lá fora... todos queríamos também fugir de algo e alguns até de alguém. Quem eram nossos pais? Quem amamos e não podíamos mais amar? Da onde viemos agora? Que bandeira podia nos pertencer? Cumprir metas, horários, aparecer... ah, o mundo das ideias, ah, o mundo do tesão, dos poemas, finalmente encontrados no meio do mundão perdido, eu me perdi...  não éramos iguais... mas por um momento ímpar, éramos iguais...

o plano


Ontem que ela foi entender porque chorou no dia seguinte. Depois, só depois de ter que pedir pra ir embora pra casa, foi que ela percebeu que não foi tudo tão natural assim. Não foi tão romântico, não foi tão honesto da sua parte. Só ontem, de repente, depois de vários anos e conhecimentos que obteve com experiências que nunca tinha tido, foi que ela pode entender porque tinha motivos de ter ficado triste aquela época. Era sua passagem, sua travessia, seu capítulo e história. E não há quem responda se foi o mundo que a confundiu toda ou se foram as histórias das outras pessoas que interferiram em várias virgulas e pontos. Havia algo estranho pra ser engolido. Algo estranho na juventude, no amadurecimento das coisas, algo profano e algo altamente sagrado que lutavam pra saber quem era mais forte, mais duro, pra ficar cravado, pra gritar na rua, para abrir as portas do coração. Todas as vezes que essa parte precisa ser contada, algo incomoda... Por que não se sabe dizer que doeu?
Doeu físico e mentalmente. Não era auto sabotagem. Parece ter sido tudo tão bem planejado por ela mesma, parecia ter sido uma iniciativa própria, algo que ela havia decidido ali mesmo, um impulso, uma atitude espontânea, mas não era apenas isso. Não era ela. Havia um interesse particular de se livrar daquilo. Um interesse que ultrapassava o outro e a si mesma. Uma visão distorcida do que ela carregava. Uma espécie de obrigação, um ritual que parecia estar passando da hora de acontecer. Queimou. Doeu. Ainda que tivesse sentindo alegria em ter rompido, ainda que tivesse sentido alívio. Ainda que não soubesse o que sentia. Era ela e não era. Era ela precisando se livrar dela mesma. Era ela estranhamente deixando que entrassem. Queimava. Não houve muitas explicações. Havia confusão sim. Só por dentro, uma programação que parecia ser sua. 

De fora

Entrei numa fantasia perigosa. Eu não sabia como iam ser as coisas. Num primeiro momento eu ainda tinha alguns referenciais de mim. Estava alegre, destemida, parecia que eu estava começando a entrar no eixo do inesperado, do que me surpreende, do que eu nem esperava mais. Mas eu não sabia que esses meses seriam tão intensos assim, não sabia também que eu poderia perder a cabeça, que eu aprenderia a lidar com tantas pessoas, que eu poderia por fim mostrar quem eu era. Eu era! Eu era sim. Mas também, tão ingênua e desprotegida de mim. Quem poderia me defender se não as pessoas que conquistei pelo caminho. De algumas coisas nem sequer me lembro, de outras me martirizo. O que poderia me abalar mais? Minha cabeça, meu deus minha cabeça entrou num frenesi. Mas os amigos que eu encontrava pareciam me conhecer de longas datas, eu me sentia finalmente especial naquele ambiente, ouvida, questionada, inteligente. Eu era liderada da forma que eu sonhava, e muito especial, como eu deveria me sentir sempre... mas por quê? Porque eu não era capaz de sentir tudo aquilo antes? Por que foi preciso vir de fora? Por que? 

domingo, 2 de abril de 2017

O velho saliente

Toda vez que passávamos por aquele rua, minha prima dizia "É aqui que ele mora, o velho saliente!", antes que eu olhasse, ela tampava meus olhos e dizia "Nunca olhe pra cá, ele pode ver que você viu!". Era uma casa muito próxima da casa do vovô. Diziam que ele morava sozinho e que tinha mexido na neta de 5 anos. "Mexido como?", eu perguntava sentindo pelo constrangimento da vovó, que era mexido de uma forma ruim. "Mexido Nanda!", minha prima dizia como quem não quisesse que minha vó contasse os detalhes. "Não passe nunca por essa rua sozinha, e se tiver que passar, passe bem longe, do outro lado, na outra calçada", vovó dizia. E então aquela rua passou a ser uma rua sombria para mim. 
A noite, eu sonhava que passava por aquela rua e via um velho balançando numa cadeira. Não conseguia ver seu rosto, mas ele já sabia que eu estava olhando para sua casa, e sabia mais... sabia que eu sabia do seu segredo. Então, eu acordava com medo e pensava "Por que? Porque a gente sabe e tem medo?". Dali em diante, sempre que precisei passar, passei pelo outro lado. E aos pouquinhos, tentando ver. Não me lembro da cor da casa, nem do portão, só me lembro de uma porta de vidro e que lá dentro parecia ser mal assombrado também. 
Certo dia, em alguma brincadeira dessas de rua que juntava mais crianças, não me lembro quantas meninas eram, mas uma de nós foi parar lá do outro lado da rua sombria e vinha correndo de lá, dizendo "Ele abriu a calça! Eu vi!". Não dava para entender direito o que acontecia, parece que ele tava vindo, e minha prima puxou minha mão, antes que eu pudesse vê-lo. "Vai ficar aí pra ele ver seu rosto?!", ela perguntava me puxando. "Pois por mim ele pode vir! Eu taco uma pedra na cabeça dele", escutava uma das crianças falando depois que já havíamos corrido. Comigo, pensava que tipo de inferno era aquele, de se esconder e sentir medo. "Por que não o matamos e libertamos a rua do medo?".  
-Ela tacou uma pedra nele, é doida! Mas bem feito! - minha prima dizia sobre a vizinha de pele mais escura e com estigma de adotada, de uma senhora da rua mais abaixo, amiga da vovó.
-E se contássemos para o vovô? Ele tem um revolver, talvez desse um jeito... - eu sugeria com medo.
-Você tá doida! Eles são amigos, ele nem sonha que ele é desse jeito!
Foi então que eu entendi que éramos nós que estávamos mal assombradas.
Outro dia, minha prima e eu balançávamos na cadeira de balanço, enquanto minha irmã fazia alguma coisa no quarto, de repente, um velho de cabeça branca, abria o portão lá da garagem e caminhava em passos lentos para a entrada.
-Quem é esse senhor que tá vindo?- eu perguntava.
-O quê?! - minha prima arregalava os olhos e se assustava.
-O que?!
-Shiiiiii, é o véi saliente! Meu deus, e a vovó saiu! 
Meu coração disparava, enquanto minha prima puxava minha mão e me levava para o banheiro dos fundos da casa. 
-Fica quietinha! Não fala nada.
Escutávamos então os passos do velho pela casa. Parecia um filme de terror. Eu preocupada com minha irmã, perguntava o que faríamos se ela saísse do quarto e se deparasse com ele. 
-Shiiiii, calma! Vamos espiá-lo...
Abríamos a porta do banheiro com calma e colocávamos as duas, as cabeças para fora da porta. Uma em cima e outro embaixo. O velho abria a geladeira, fechava, e tomava uma xícara do café que estava na mesa. Olhava o relógio na parede, suspirava, pensava sozinho olhando para algum lugar. Usava uma calça escura, e uma camisa branca de manga comprida que eu nunca mais esqueci. Tinha cabelos brancos só dos lados, todo careca no meio da cabeça. E antes que eu pudesse gravar seu rosto, só me lembro de uma expressão rabugenta, e que ele começou a olhar fixo para algum lugar. Fechávamos a porta rapidamente sem barulho e tampávamos nossa respiração. Escutávamos passos dele indo embora.
-Ele viu a gente será? - eu perguntava baixinho. 
-Acho que não, fica quieta...
-Ele ta indo embora parece... 
-Parece que já, mas vamos esperar um pouco.
Contamos praticamente até dez e saímos na ponta dos pés do banheiro. Minha prima olhava a xícara que ele havia tomado café e dizia "Folgado! Eca, que nojo!". 
Íamos até a sala e lá estava minha irmã mexendo com papéis e canetas.
-Você viu que ele veio aqui?! - minha prima perguntava
-Quem?
-O velho saliente! - eu dizia.
-Aqui? 
-Sim! Ele entrou aqui, a gente correu pro banheiro, ficamos preocupadas de você sair e dar de cara com ele, o que você estava fazendo?! - minha prima perguntava.
-Lá dentro do quarto, brincando.
-Sortuda! - eu dizia.
-Já pensou se ele te visse?! - minha prima indagava.
-Tem certeza que era ele? - minha irmã retrucava.
-Rum, vamos trancar essa porta... foi por pouco!- minha prima orientava.
Não sei que tipo de amizade ele tinha com o vovô, nem porque não poderíamos contar que tínhamos medo dele. Vovó nunca explicou direito, e quando chegou da rua, contamos o que havia acontecido e minha prima demonstrava tudo que ele tinha feito numa imitação até cômica. "Ainda bem que vocês se esconderam", ela disse como se fôssemos muito espertas. Foi quando eu percebi que independente do velho, era tudo aquilo que me deixava com medo.Vovô nunca saberia nada a respeito.





  
    



sexta-feira, 17 de março de 2017

O PACTO

O PACTO

Depois, ficou tudo tão esquisito...
Eu nem te falei do meu pacto.
Do meu pacto, com as borboletas.

Faltou tanta coisa,
Eu achava que teria tempo...
Eu estava certa,
Não teria era outra coisa.

No começo, pareceu estar acontecendo por circunstâncias fora de mim.
Forçado, doloroso, outras pessoas...
Mas no meio, não era mais. Nunca foi.
E no fim, eram elas!
Todas elas, sem tortura, aqui dentro de mim.

O pacto nunca foi traiçoeiro...
Eu que não sabia que dava pra ser igual
Tem um monte invisível aqui dentro!
E apenas uma, real, aqui fora...
A que chega voando e me dá um sinal!

Um sinal de que tudo que tá aqui fora importa
Um sinal de que tudo que tá aqui dentro cega, passa, transforma...

Eu achava que existia tempo,
Mudou tanta coisa,
Transformou!
Às vezes chego voando, dando sinal!
Depois, ficou tudo normal...
Inclusive meu pacto...
Meu pacto esquisito
com as borboletas.

Poema: Fernanda de Alcantara ✒💭
(Montagem de desenhos aleatórios que guardo do mundão virtual por aí, e me inspiram✏💭)



sábado, 25 de fevereiro de 2017

Maria dura no arreio






"...entre as coisas bem vindas que já recebi
eu reconheci minhas cores nela, então eu me vi... 
(Nando Reis)"

Por onde meu sangue corre, ainda não existe mulher mais forte que Maria. Sempre tão segura, heroína da própria história, peça rara que supera os obstáculos da vida. Minha eterna e graças a deus viva, vovó Maria. Mulher que faz toda a diferença, que não abaixa a cabeça, mulher que trabalha incansavelmente, mulher do fim do mundo! E juro que dez lanças afiadas são levantadas no ar, todas as vezes que escuto teu nome. Maria Batista. Cuidado interminável, comida quentinha, observadora de detalhes, firmeza, vontade... muita vontade de fazer as coisas! Minha vó, mulher de verdade! Que viaja até onde quem esteja, para erguer, aconselhar, escutar o choro. Menina que venceu a roça, menina que não deu certo na escola, porque alguém tinha que cuidar de todas as coisas, menina que quase perdeu o braço, menina que perdeu a mãe e prometeu a mesma  ser mãezinha dos irmãos pequenos. Menina má, que foi sentando em cima das dores, que foi dando sentido a todas as coisas, sabores e cores. Matadora dos porcos, fez colheita dos milhos e depois, bem depois, menina moça que não teve sorte no casamento. Vai entender... a vida nunca te quis romântica Maria... nem por isso vovó também aceitou o amor errado que a vida lhe impôs. Mulher de verdade! Que gosta das coisas certas, de construir, Maria não submissa, selvagem se preciso for, Maria voraz! Não foge da luta, de falar as coisas, lá vai ela atrás dos seus direitos! Soldado forte num exército que ainda hoje, depois de décadas atravessadas, talvez não seja capaz de vê-la do tamanho que deveria. Mulher que não tem medo de mudanças, que as entende rápido, se adapta à elas, supera-as, senta de novo em cima das dores, muda de cidade, entra no mercado, constrói e reconstrói... 
Casas, parentes, calçadas... Minha vó Maria, com muito orgulho! Dura no arreio, não teve muito tempo para rezas, não teve muito tempo para crochês, mulher que realiza. E há ainda quem se lembre que Dona Maria é semianalfabeta, tão esperta! Lá vai ela deixando tudo limpo, varrendo a tristeza, dirigindo o carro, mexendo no próprio celular, aprendendo novas receitas pela internet, negociando preços nas feiras, abrindo a sombrinha para encarar mais um dia, depois de curtir minha foto no facebook.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

sem saber que eu era semente


As coisas vão se encaixando de uma maneira que eu pareço natureza. 
E natureza eu caminho, natureza eu falo, natureza eu não choro mais na chuva. 
Eu fiquei maluca e agora que seco, brotam flores dos meus dois lados.
Acordo com flores por todo meu colchão. 
No chão do banheiro elas desabrocham, 
no vaso eu despejo pétalas e mais pétalas, 
e quando tomo banho fico verde... eu fiquei maluca, 
qualquer um podia ver. 
Saí, voltei, nada funcionava. 
Havia ervas daninhas, muitas ervas daninhas que pela paixão do verão e o barulho daquela outra chuva que veio com a tempestade que parecia que nunca ia acabar, não pude ver. 
Não vi, meu deus. 
Não vi tudo que estava óbvio, tudo que foi arrancado de mim. Mexeram comigo! 
Quebraram meus galhos na calada, 
roubaram meus frutos, 
subiram em cima de mim, 
me desfolhearam...se é que essa palavra existe. 
Parecia até que o fogo havia me cercado com um cheiro de queimado que estuprava minha respiração. 
Uma chateação ocupou meus dias, 
meu peito virou caminhão carregado de areia 
e um silêncio em cima do muro se apossou dos meus lábios. 
Era uma tristeza que assolava meus dias, 
uma tristeza que acabou com as minhas noites, 
um desespero que me fez procurar 
arte, 
livros, 
o medo das pessoas. 
O fogo me cercou e quase destruiu meu barulho, 
meu imenso e bonito barulho de chuva. 
Eu precisava estar viva! 
Me recompor, 
Me construir, 
havia alguma esperança? 
Que terra piso com meus pés, 
quem é que podia me ajudar? 
Teria eu que me conhecer novamente? 
Me conhecer toda novamente... 
Seria preciso me enterrar, e me enterrando fui... 
o mais fundo e mais fundo...
fui me enterrando profundamente como um botão sem rosas 
e sem saber que era semente, semente fértil. 
Tudo cresce
Cresce, empurra a terra, cresce
Agora tudo floreia, 
e desabrocha, 
há esperança, 
eu tinha raízes,
raízes fortes e profundas
E do lado de fora, 
depois do muro eu também não tenho mais medo do vento, 
saio para passear voando com ele! 
Dou cambalhotas com ele, 
entro e saio pelas janelas e não passamos mais por debaixo e pelas frestas das portas...
Agora eu sou forte
Agora eu sou natureza 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O pé de manga que era o centro da casa.







🍃O jardim daqui de casa esconde histórias, uma delas é a do pé de manga que era o centro da casa. Anos atrás, ele ocupava um grande espaço. Eu menina, já sabia que era ele o dono da casa. Quando eu acordava ia para perto, e conversávamos muito sem abrir a boca. Seu formato por vezes me deixou confusa se ele vigiava ou aterrorizava a casa ao mesmo tempo. A noite eu sabia que fantasmas que não gostavam de crianças, faziam grandes jantares lá dentro dele. Mas nunca perguntei, apenas evitava olhar. Tinha dias que ele estava calmo, balançando suas folhas como se estivesse me dando bom dia, perguntando como foi na escola, se eu não tinha coragem de pegar uma escada e subir para conversarmos mais perto do céu. Mas eu não tinha força para carregar a escada...Outros dias, tão calado e introspectivo, ele se fechava e queria ser apenas a árvore que os outros achavam que ele fosse. Eu perguntava qual era seu nome quase sempre no final das nossas conversas, mas ele só sorria e mudava de assunto balançando as folhas. Certa vez, uma grande chuva lhe arrancou um pedaço. Foi um barulho grande! Pensei até em terremoto. Escutava meus pais discutindo. E se tivesse caído em cima da casa? Depois, ele também começou a ultrapassar o muro do vizinho, senti que ele queria crescer, mas também não queria sair dali. E estava tão confuso, que até deu manga verde, depois de anos sendo estéril. Decidi fazer mais companhia para ele, acho que estava ficando louco. Comecei a desenhar quase todos os dias embaixo da sua sombra, numa mesinha. Ele gostava de ver meus desenhos, mas criticava o fato de eu não desenhar grandes árvores. "Só pessoas, suas casas e mais um bando de pessoas calçadas em bons sapatos", dizia. Um dia cheguei em casa e ele não estava mais lá, eu segurava um desenho de uma grande árvore. O sol tomava de conta de todo o espaço, era luz mas não trazia esperança. Subi em cima do toco de raízes que ainda ficou, rasguei o papel e pensei "Só pessoas, suas casas e mais um bando de pessoas calçadas em bons sapatos, nunca mais árvores". O jardim daqui de casa esconde histórias, uma delas a do pé de manga que era o centro da casa.🍃

(Parte II) Mini conto✒ e foto📷de Fernanda de Alcantara

porta de não abrir

ainda tem batidão no meu coração, ainda tem sonho, ainda tem plano, ainda tem contagem regressiva, isso não pode ser amor, mas eu ainda preciso de você. pensar você, imaginar você, me torturar. a memória guarda olhares misteriosos, a alma guarda os flashes, o inconsciente retoma temas, cenas, vontades que nunca puderam acontecer, esclarecendo o que era fantasia e realidade. o que é que fazia parte da realidade que não era minha e nem a tua? estávamos juntos e não estávamos ao mesmo tempo. quando você entrou por aquela sala pela primeira vez, foi do meu lado que você sentou. mas da ultima vez, ficou esquisito, frio, introspectivo, quis morrer. por que não te ajudei a procurar aquele pen drive? você não me disse nada na festa, me fez invisível... eu enchi a cara, dessa vez eu não estava mais feliz, no seu aniversário na boate, eu estava. eu estava de verdade. e queria você, falar seu nome, olhar nos seus olhos, beijar seu pescoço... dessa vez é o seu tempo, inerte... meu coração não poderia desrespeitar sua históra, vida, traumas e trato. é você. é seu tempo, sua história mal acabada acabando, meu peito sinistro aguardando, escorrendo, tremendo...quem sabe um dia. por um segundo cheguei a pensar que eu fosse louca, que tinha criado tudo, só não confirmei porque enquanto eu via o vídeo na parede, enquanto eu te via ali na parede, eu sabia que tudo que tinha acontecido nesses meses não era de mentira, você realmente me dá alegria. uma alegria tão bela e selvagem que há tanto tempo não reconheço minhas cores, que há tanto tempo eu não encaixava nos meus planos. e então, você veio aparecendo do meu lado, você queria ser visto, não era ? tudo parou, parou de verdade. a música, as pessoas, fui capaz de ver apenas você e o vídeo e uma linha de sofrimento da qual eu não poderia evitar, eu não podia te cumprimentar. me desculpa mas eu não podia, eu era a visita agora e você pelo visto também não queria. mas como me coçei, como me coçei pra dizer algo, pra me controlar, pra não gritar no meio da sua cara, bagunçar suas regras. eu vou te pegar. esse dia vai chegar. eu não sei como, mas estaremos bem melhores e quem sabe no mesmo tempo. eu sei. Onde você está?! Como é teu beijo? Como é teu sexo? Não foi assim que você se comportou comigo naquela época. talvez, talvez eu também tivesse muito medo, agora também sou capaz de perceber. haviam muitas pistas e iscas das quais eu também corri.Você sumiu ali, é por que ela estava ali? E eu sai dali, e nós saímos e fechamos um ciclo que nunca se completou. nunca mais... mas agora, justo agora você resolveu espiar... não vou dizer que eu não ligo, mas não posso e quero ver nossos filhos, não posso e quero ver nossos netos, não posso e queria te ver de verdade. 

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O cachorro louco

O jardim daqui de casa esconde o segredo do cachorro louco. Talvez ninguém mais se lembre, eu era uma menina que ainda nem vestia a parte de cima e já dançava com o cão. Antes dele ir embora para sempre, rolamos muito nesse chão que agora habita acerolas e pássaros sanguinários. Amei muito mais o outro, o outro cachorro negro que encontrou o portão aberto e desapareceu. Eu não tinha sorte. Entendi, com a partida do animal que meu pai reconstruiu tudo, antes que chorasse. Apesar de que ele nunca chora. Vejo que muita vida entrou por cima da casa fantasma desse quintal que só sobrevive em álbuns velhos de fotografias esquecidas em cima do guarda roupa. Há uma nova realidade agora. O jardim daqui de casa esconde histórias... E uma delas a do cachorro louco. 
(Parte I) 



Mini-Conto✒e fotografia de Fernanda de Alcantara

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Caminho transformando o jardim em pedras.
As ervas daninhas vão ocupando um espaço.
Ele vê e nada faz
Ele não quer sua função
Caminho sabendo que as flores tem espinho.
Sangro um pouco, não como antes.
Todo mundo está aflito
Há uma guerra, não há paz.
Não vamos chegar juntos
Isso parece verdade
Não vamos e alguns já entenderam suas peças
Eu estava ramificada,
Horizontes,
Lados,
Agora,
curta,
curtinha...

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

me enganei
tudo mentira
não dormi
não disse
não deu tempo
me abraçaram
sorriram pra mim
agora eu me pergunto se não sorriram de mim
que ilusão
ninguém cuidou
sumiu
meu deus do céu
apagou
desviaram o caminho
não avisaram
desincutiram
desincutiram
desincutiram...
meu tempo passou
nunca mais agora
nunca mais é tanto tempo
eu pensei que...
é tarde
agora não dá mais




quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O teu nome, as cores, o corte, altura e a acidez... a capacidade de admitir, era bonito o suficiente. Já não estava mais fantasiando sozinha. Alguém estava realmente me olhando, mesmo que tudo que eu pudesse, desde o início e por fim, era apenas querer. Não posso escrever sobre o que nunca existiu. Não posso escrever sobre o que passou pela minha cabeça diversas vezes. Não posso escrever sobre besteiras que me aceleraram por dentro. Nem para onde eu olhava, para onde eu queria olhar. Os caminhos que eu fazia para os pequenos planos do dia, para as pequenas atenções na noite. Não posso escrever sobre aquelas portas de vidro. Sobre os chinelos de quem não vivia mais entre nós. O que é que eu via e a forma com que os dias começaram a se passar. O churrasco, o barulho das pedras. Não posso lembrar de gestos para que eu me sentasse, bem no início, bem ali do lado... e se eu tivesse sentado? Eu não posso escrever sobre o que alguns, ninguém, e todo mundo, viu. Era só aquela música que tocou, era só aquela hora que eu já estava conformada, dançando e feliz e ganhei uma explicação que nem ao menos pedi. 
Ah, se eu pudesse escrever sobre o que escutei, sobre o que me lembro, sobre minha coragem, sobre o que foi real e o que não foi. Mas eu não posso. Não posso escrever sobre o que não aconteceu de verdade. Eu não posso escrever sobre nada. Escrever é tão perigoso. Não posso me transformar numa doida de repente. Preciso me comportar, ser normal. Mas, ah, se eu pudesse escrever sobre a diferença de querer e poder, mas nem disso ao menos eu posso quebrar a cabeça, compartilhar... às vezes parece que enxergo as coisas do avesso, e todo mundo parece estar vendo da mesma maneira. Não posso escrever nem ao menos que eu me lembro daquela conversa, apesar de estar bêbada; e que uma alegria genuína se apossou de mim e ninguém seria capaz de entender o porquê, mesmo não se tratando de um sim. Porque ninguém haveria de entender o que é um privilégio. Sentir assim, existir assim. 


domingo, 11 de dezembro de 2016

o paraíso me pertence

Desapaixonei. Agora sim. Agora eu posso respirar. Agora eu posso recomeçar da onde eu havia parado. Agora eu posso seguir em frente de verdade. Sinto o cheiro do campo, escuto a música novamente, estou livre, ah... estou livre outra vez, nada mais pode me impedir de ser feliz. Minha existência é real, é rio, é grande. Meu mundo nunca mais cairá dessa maneira. Eu estou poderosa de novo, eu me transformo em um gato, eu me transformo em mulher, eu pulo, eu caio de quatro. Eu não posso mais morrer. Cada salto que eu dou são quilômetros de distância que me carregam sem quem eu possa medir a dimensão, sempre para a frente. Bem a frente do que eu possa enxergar. É excitante quando saio da terra, quando tento fazer giros no ar, quando percebo que é bem mais forte do que eu. Eu estou sendo carregada por uma força descomunal. Para frente. A coragem me abraça e me segura. Eu gostaria muito que isso tivesse um nome. Quando eu durmo, meus dentes não estão mais caindo nos meus sonhos. Estou realmente em pé. São novos tempos e o medo agora é meu amigo. Passa por mim como o vento, balançando meus cabelos, assobiando nos meus ouvidos, ventilando minha carne e fazendo o que faz de melhor. Uma prece, um alerta, mostrar meus limites. Eu estou coberta de trevos, a realidade está coberta de razão. Meu amor era fogo querido. Minha fantasia a minha sobrevivência. Mas eu não havia perguntado nada. Não importa mais por qual razão eu deixava com que você me arrastasse. Tão punida, tua indiferença deixou tudo mais do que claro... Fiquei obcecada por semanas... mas os dias teriam sido bem melhores nas minhas ilusões genuínas. Mas agora tudo se transforma e vira pó, e a verdade vem a tona. Sempre correndo sozinha no paraíso particular daqueles olhares, do desejo que rondava as paredes, os corredores, a pequena sala em que fui trancada, meu nome, as brincadeiras, e o rabo de todos os olhares que guardei. Isso foi real. Isso ninguém pode apagar. Que parte eu não fui capaz de entender? Nunca super, sempre eu. Do inicio ao fim. É assim que as coisas deveriam realmente ser. É assim que as coisas realmente serão. Vejo minhas coisas favoritas todas de volta. Já posso ver meus sorrisos todos de volta numa estante colorida. O paraíso me pertence, eu sempre soube. O paraíso sempre me pertenceu. Eu estou correndo dessa vez sem fugir. Eu já fiquei muito tempo presa aqui. Agora sim! Com os pincéis na mão pinto um caminho, risco as paredes, me direciono, eu estou indo... dessa vez não posso mais me enganar. A verdade, a verdade é tão dolorosa. Mas acima de tudo é a verdade... acima de tudo são as flores que devo colher para meus vasos, para cheirar, para plantar. Agora sim... 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Estrelas que não precisavam de céu

Não sei como funciona, todavia, ainda me excita as mais de não sei quantas cenas que não construí sozinha. As vezes me pergunto como seria entrar naquela casa e vê-la com outros móveis, com outras pessoas, com outros fantasmas. Nem parece que foi nessa vida. Nem parece que eu ainda existo. Nenhum pedaço meu está perdido de fato. Nenhum pedaço meu está no passado. E não me sinto triste com isso. Nada de anormal. Eu sempre quis um fim. Meu começo, minha saga. Ainda cheguei a querer acreditar que sentia mesmo. Mas ninguém trai a si mesmo. Tudo grita mais alto quando não se pertence de fato a alguma situação. E não posso mentir, que isso me dava um tesão cabuloso. Era o que mais me excitava desde sempre. Por favor não pare, continue, eu dizia depois de um palavrão que nem existia no meu vocabulário. Quem sou eu? Não sinto coesão em pedir desculpas pela verdade. Mas seria exagero não ter medo se ser estranha. Eu era uma mulher. Uma egoísta. Eu adorava ser tão ingênua e isso não matar uma vagabunda que sempre esteve na minha pele e espírito. Por que eu não aprendi a maneira correta de me comportar? Não sei como funciona, mas comigo sempre foi tão diferente... nenhuma delas pensava como eu. Só podem ter esquecido de me explicar as regras... de por que meu fogo era azul? Francamente... vai ver... vai ver que fui sempre uma doida. De verdade mesmo. Naquele meu caderno preto, eu não falo sobre nada daquilo que pensavam, eu falo o tempo inteiro sobre tesão, uma situação confortável, cômoda, gostosa e prazerosa o tempo todo. Nova demais para brincar de amor. Nunca fiz sequer um coração nos livros de matemática, eram estrelas entende? Estrelas sempre! Estrelas porque eram difíceis de fazer, de ficarem perfeitas, das pontas se encaixarem de forma harmônica. Estrelas pretas e azuis, sem brilho, sem céu, sem lua. Estrelas que não precisavam de céu, e habitavam do lado das continhas erradas... todas erradas. Essa minha versão, essa versão ainda me excita. Não sinto nenhuma saudade. Respiro aliviada por ter vencido. Porém, vivo confusa na fantasia que eu encarei, na fantasia que se criou, na fantasia que eu sai correndo. Até hoje eu absolutamente não posso se quer dizer o que é que foi de verdade.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

às vezes decido ser armadilha

Tem um homem me observando por todos os lugares. Onisciente. Todos os lugares. Um homem na minha cabeça. Um homem no que eu deixei de dizer. Atrás das árvores, dentro do carro, das casas, sentado nos bares. Há um homem no céu me olhando, no trono me ordenando, na lua descobrindo o que eu não poderei ver. Existe um homem dentro do tanque, enquanto lavo minhas calcinhas. Um homem que respira dentro da água, que cabe num espaço minúsculo. Homens por todas as partes. Eu ando, ando, sem correr. Eles acendem as luzes para mim. Piscam o pisca alerta de acordo com os meus passos. Querem alguma coisa. Eu não sei o que eu quero. Amar é muito forte e o mundo dos fracos. às vezes decido ser armadilha, outras vezes subo lá em cima do muro e os espero com uma vara de pescar. Quando você esquece, quando você é apenas ser humano, alma perturbada, lá vem elas com seus cafés, fazendo questão de te lembrar que há um homem nos seus sonhos, dentro do seu quarto, observando se seus sapatos ainda estão sujos ou limpos. Cruzo as pernas, pego um vento...cuidado com eles! Há um homem me esperando também no futuro. Algumas coisas não são permitidas. Não são aceitáveis. Há um homem que chora no passado, há um homem que não é capaz de derramar uma lágrima. Há mais de nãos sei quantos homens mortos e mil homens vivos dentro da minha barriga. Velhos, meninos. O tempo todo esses meninos. Exames não vão dizer. Alma não fala. Espíritos são invisíveis. Não estou acorrentada. às vezes, só as vezes, todos eles nunca estão ali, estão por toda parte daquele jeito, mas nunca estão ali. Eles morrem de medo, ou sou eu. Pode ser mesmo que seja eu. Mas não sei mais falar, nem sentir. Não sou nem sequer obediente. E ainda me diziam que eu haveria de dizer sim, que eu haveria de dizer não, que eu haveria de dizer te amo. Homens por toda parte. Homens que sabem de tudo, homens que não entendem é de nada. 


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Já devia ter escrito sobre, mas me faltam palavras pra escrever sobre o que ainda sobrevive. Eu só posso, quando morto. Mortinho da silva. Abrir a porta do porão é arriscado, perigoso. Suspeitar é perigoso. Tem alguém aí? E então eu me afasto, dou mais passos para trás e tranco novamente. Te escondo. Estou infeliz. Mas depois me lembro que sempre fui um pouco. Está tudo anotado, desde sempre para que eu me lembre e não seja inédito. Para que eu ache a alegria anormal, a felicidade estúpida. Afinal de contas, a vida por si só é pessimista. Queria ter mudado meu roteiro, eu confesso. A decepção me abraçou com tanta força que estou sem ar em alguns dias da semana. Por algum momento achei que seria salva, mas não foi bem o que aconteceu. Eu ainda estou ali sobrevivendo. O calendário parou. As coisas estavam desmoronando, desmoronando... agora eu simplesmente estou flutuando perdida. Quanto inferno astral de uma só vez... e agora o mundo inteiro vai piscar e rezar como se nada tivesse acontecido. Alguém, por favor, me arranque de mim mesma. Quero me desligar. Eu queria estar realmente escrevendo sobre outra coisa. No início era realmente uma outra intenção. Mas cá estou eu aqui de novo, escrevendo sobre as bordas. As bordas que me apertam o peito e perturbam a alma.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

meus joelhos fortes, libertinos

Tirem essa girafa maluca da minha frente, ela não gosta de me ver contente. Animal paranóico, cheio de neuras. Não se contenta, não se contenta. Quer me parar, quer ser meu amigo, não se decide, não sai da frente. Me escuta, me vê chorar, me pede que pare, me pinta inocente, gosta de mim inocente, bem inocente. É assim que me faço pra me proteger... ah, se eu pudesse te dizer tudo, tudo e mais pouco, seria um show de escárnio, um exagero. Um descarrego, o diabo montado na minha garupa, meu sangue fervendo e o fogo saindo de todos os meus orifícios. Aí todo mundo ia ver que eu não sou flor que se cheire, que minha alma tá cheia de buracos negros permanentes, que minha história é mais profunda e meu humor vem do fundo do poço mais frio. Que ótimo pensarem que nasci ontem, que não sangro, que não carrego pedras nos peitos, que sou fácil para destruir psicologicamente. Que ótimo pensarem que cheiro rosas, que sou frágil, menina, menina, ah, menina! Eu não estou cega seus cretinos! Nunca estive cega...Nem surda. Nunca estive. Eu aprendi tanta coisa. Mas principalmente que sou maior do que vocês pensam. Eu estou muda. Perplexa. Raciocinando minhas fugas. Eu voei tão alto, eu me encontrava nas nuvens... e agora estou tentando não quebrar os ovos, procurando minhas saídas e minha cura. Ainda não sei, estou confusa, uma hora me sinto vacinada, outra hora doente. Quebrem o meu pescoço, parem de me torturar. Um dia acordo forte, no outro tenho certeza que estou enterrada. E a malícia que me pediam o tempo inteiro, eu sempre a via. Mas não desse jeito. Eu estou coçando minhas partes intimas. Querem que eu grite, sem gritar. Querem que eu peça, sem pedir. Querem que eu crie, sem criar. O que é que eu ainda quero ? Quem tem o poder? Como é que eu vou sair dessa sem tumores, sem cometer um assassinato e crimes. Eu estou virando uma bomba viva. Acumulando, somatizando, enclausurando. Eis que a verdade será a mesma de sempre, eu nunca vou pertencer a lugar nenhum, era o que eu dizia. Agora me apego a esse meio, a sujeira, mas a vida me fez sopro. Tinha quase certeza. Soprando de um lado para o outro. Derrubando os papéis, movimentando as cadeiras, espalhando a tinta, a poeira, limpando, desmanchando. A vida me fez sopro, era o que eu entendia. Qualquer dia desses, eu vou afogar um de vocês. Um por um. Vai ser um lindo passeio. Talvez seja disso que todos nós precisamos. Uma tragédia grega. Um melodrama. Ou então, eu vou fumar vocês, um por um. Fazê-los entender por dentro do meu cheiro, meu gosto. Eu quero correr... Mas que buceta! Devolvam minhas pernas, meus joelhos fortes, libertinos... Olhe só com quem eu tomo chá agora, com meu maior medo, com os fantasmas que torcem pela falta de saúde do outro, os fantasmas que torcem pelo tropeço do outro, os fantasmas que torcem pela pior das descobertas, os fantasmas que perderam o corpo por tanto veneno correndo dentro das veias. Eu estou podre, malandro. Me amputaram. Não me reconheço. Demasiadamente humana. Eu sinto muito, mas é a verdade. No transtorno fui transformada.