Isso que tu é.
Nunca consigo andar
do lado. "Me espera
mulher", ele sempre fala, e eu sempre na frente querendo ser a
primeira a ver as coisas, mostrar as coisas, dizer como vi as coisas, e como as
coisas me viram. "Mulher,
tu tá correndo de quem?", ele repete sempre com a mesma ironia, e eu
lá... sempre respondendo com poesia. "Das
minhas dores Judi, das minhas dores!" ,
ele sorri impressionado, acho que ele nunca espera meus mini-poemas na rotina.
Aí eu saio falando desembestada do que eu quero, e as vezes dos sintomas
das paixões que ficaram preto e branco e das que chegam desesperadas, das que
eu não deixo, e das que deixo e depois preciso urgentemente descolorir, se ele
sente também, se é só comigo isso, se ele fica doente, se ele quer matar, morrer,
bater, crer e rodar, rodar até ficar tonto no meio da rua.
"Você é doida
trem, doida!"
"Me ajuda,
você sempre desama bem."
Sempre o procuro
toda manhosa, ai ele fica tentando ajudar, nessas horas não me chama mais de
mulher, viramos crianças, pra nos distrair. Ele fala do tempo, e eu acredito
mesmo toda doída, porque ele sempre ama e desama e continua da mesma cor.
Acreditando... ele é bonito, sabe? Bonito de se conviver.
A primeira vez que
nos vimos ele era platéia, e eu atriz mirim. A segunda vez que nos vimos ele
era universitário, e eu também, mas eu tinha faltado os primeiros dias de aula.
A terceira vez que nos vimos, ele me revelou sua identidade secreta, e eu
fiquei toda incerta... dai por diante, motivos terrenos e pessoais, nos
distanciaram.
Prometemos cartas
pela internet, mas éramos sempre ocupados demais, ele atravessou o oceano e foi
para o exterior, e eu uma tempestade e encontrei meu interior. Mas a amizade
parecia que ficava sempre num vidrinho impossível de cair no chão.
Quando nos vimos
pela quarta vez, eu terminei meu primeiro livro, e ele suas viagens. Por alguma
razão os dois tiveram vontade de fazer uma prece no mesmo centro-espírita, em
Araguaína.
-Judi?!
-Fernanda?!
Eu sempre caio na
gargalhada, sou fácil pra sorrir. Ele tenta segurar um pouco, tem noção da
sociedade. É gentil com todo mundo, tem bons modos, bom gosto, tem sempre uma
palavra francesa na boca, quase não sente frio, entra na brincadeira, nunca vi
perder as estribeiras, quer passar meus batons de vez em quando, e me irrita,
me irrita.
"Tu é fresco
atoa! Isso que tu é!" . Sou grosseira. As vezes é brincadeira, mas as vezes simplesmente
sou. Peço desculpas quase sempre depois. Ele gosta de mim, dá pra sentir. Eu
também gosto dele, dá pra anunciar.
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