Primeira batalha

Superei Dona Sara como quem supera um ex marido que muito marcou uma mulher separada, que já fora perdidamente apaixonada pelo casamento. Não parece que foram 3 anos de convivência, parece que foram 666 anos. Ela visita meus sonhos, agora graças a Deus com bem menos frequência. Dona Sara talvez tenha sido um dos assuntos principais das minhas últimas terapias, quando eu ainda podia pagar para ser ouvida do mesmo assunto ininterruptamente. Eu já desconfiava que ela iria me demandar pelo seu temperamento impulsivo, pela forma que destratou das coisas dos demais irmãos, e pela demora que tratou do meu pedido quando pedi para sair. Confesso que tinha esperança que ela respeitaria nossa jornada sem tentar trancar algumas portas da minha vida. Dona Sara nunca soube encerrar ciclos. E é nítido que ela remói, que ela não é perfeita, apesar de ter se declarado uma semideusa mais de uma vez no salão. No fim sobrou os que sempre se acharam muito espertos com ela, no fim sobraram quem faria daquele lugar de luz um verdadeiro Umbral. 

Não sei se ela percebeu que reproduziu o que também foi feito com ela, e ela tanto temeu na própria jornada. Ela também foi mal tratada quando rompeu com o seu zelador. Ele também não sabia encerrar ciclos. Não saber encerrar ciclos é preocupante, imaturo e adoecedor... talvez seja por isso que ela é um pouco daquele jeito, meio zumbi, meio desiludida, meio viva, meio morta e tantas vezes sedenta por estar do outro lado, ao mesmo tempo que sonha com um lugar que tenha quintal... Dona Sara é confusa e instável.

Tive muito tempo para remoer esse assunto, certas pautas e casos, meu ponto de vista e dos demais em torno dela. O que eu acho que realmente aconteceu com ela foi que ela se deu conta que boa parte do que viveu e mais amou em sua vida estava repleto de mentiras. Nazareno mesmo que morto, mesmo tendo sido abusivo, imperfeito, cruel, ambicioso, vaidoso, narcisista, também foi seu ídolo e seu terrível maior sonho de paternidade-amor. Eu não sabia o que era ter saudade de um zelador, a não ser pelas coisas que ela me contava na sala de costura vez ou outra. No entanto, nesses últimos 7 meses chorei feito uma condenada relembrando cada pedacinho do meu começo e seu sagrado, chorei muitas e muitas vezes, até que eu superasse de fato... e eu acho que deu certo. Cicatrizou.

Ainda assim, sempre vou me lembrar daquele toque para Ogum, do cheiro das folhas de manga que subiam pelos meus pés e meus poucos 48kg, que me corroíam dia e noite numa depressão que atravessava minha garganta e me deixava sem ar, sem sono, sem fome. Nunca vou me esquecer do gosto do louro daquela feijoada que salvou meu domingo triste, das pessoas de branco girando, e como aquilo me dava esperança de que alguma coisa muito boa iria me acontecer, mesmo eu estando terrivelmente afundada num abismo emocional que parecia não ter mais solução. É difícil esquecer a forma que eu fui tomada na consulência por algo que eu nem imaginava que poderia me pertencer, ao mesmo tempo em que parecia ser um encontro marcado com minha criança interior. Aquele dia, sem perceber, eu venci minha primeira grande batalha do ano. Descobrir que existia mesmo o que Shakespeare dizia... mais mistérios entre o céu e a terra que nossa vã filosofia jamais poderia explicar. 

A batalha da descoberta é só uma das primeiras de uma experiência mediúnica. Depois vem entender os trejeitos, a empolgação, a limpeza do corpo, da mente, da alma, a inteligência que nos rodeia, que nos deixa mais rápidos, mais sagazes, a gente se empolga tanto, a gente quer saber de tudo um pouco, a gente acha que vai descobrir o mundo novamente, a gente volta a ser criança, se apaixona por cada detalhe, cada erva, cada cheiro, cada banho, toque e incorporação... mas, viver tudo isso em grupo é uma verdadeira guerra de 100 anos. Como pode aquele metro quadrado pequeno, esburacado, infiltrado e fedendo a bosta de cachorro, com tantos entre e sai de pessoas que estavam dentro e fora da corrente, ter sido responsável por tantas crises de riso, choro, alegrias, paranóias, medos, mentiras, dúvidas, verdades, intrigas e segredos?

(Continua...)

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