Maldita quaresma

É impossível sair desse lugar sem se questionar o que foi mentira e o que foi real... Todo mundo que saiu, ficou com algum buraquinho no lado esquerdo do peito daquele muquifo. Todo mundo que entrou esconde um segredo, temperado com medo e adocicado com saudade do que poderia ter sido. Não sei quando exatamente o riso passou a ser incomodo e a neurose individual de um e outro passou a ser loucura coletiva nem quando a conquista de algo virou uma ofensa subliminar com cheiro de defumação, mas até certo ponto, ali parecia realmente um lugar onde tudo era certeiro, mágico e assustador. 

Onde foi que os vínculos intensos, reais, válidos e promissores...viraram armadilhas do ego e da mentira? Será que quando se evolui demais deixa de caber em qualquer espaço? Será que é cármico todo lugar de passageiro? Em que parte tudo começou a adoecer e se tornar totalitário, ou sempre foi e não éramos capazes de compreender? Que saudade doida dos êres, que lembrança absurda de querer correr uma maratona depois do berro dos caboclos, que poder incrível e acirrado pós gargalhada da pombagira... me parece que estamos numa busca incessante das mesmas sensações, dos mesmos impulsos involuntários, do invisível nos pegando sem aviso, de um lugar que seja realmente mágico... Em que momento as feridas da senhora falaram mais alto do que todas as curas? do que o afeto construído diariamente? Em que segundo tudo deixou de ser engraçado, para se tornar um fardo coberto de desilusões? Em que exato minuto todos viramos cães e gatos lutando por atenção, proteção e sobrevivência num jogo árduo, sem limite de tempo, sem juiz, sem regras claras pré estabelecidas, sem apito e placar justo? 

É tudo tão confuso de lembrar. É tudo tão doloroso para esquecer para sempre. Querer chorar e sorrir ao mesmo tempo é passatempo de quem sobrevive. Senti-se feliz e triste por ter morrido dentro disso tudo, é fichinha. Ainda posso sentir o cheiro das folhas de mangueira no chão, do milho da pamonha sendo descascado, do sinal para dormir e contar o sonho ao levantar, ainda posso fechar os olhos e lembrar da pintura e expressão de cada santo da mesa, do teu olhar reflexivo, e se eu me concentrar bem, ainda posso me lembrar do enorme prazer de recordar como minhas mãos faziam sinais de cruzes ao receber naquele silêncio que preenchia toda a minha alma raivosa e melancólica, a corrente dos pretos... nunca mais me desmanchei num abraço de vovó e vovô.

Tenho um pouco de raiva de não conseguir destruir tua parte boa de dentro de mim. Raiva e esperança de que tudo não faça parte de um pesadelo ruim e que ainda estamos dormindo naquela maldita quaresma onde tudo se sucedeu. As vezes me pego me iludindo, como se eu estivesse presa num sonho ruim. Um sonho que um dia ainda vou acordar. A vida é tão sinistra que nos obriga a tomar decisões, que parece que eu cortei um braço com minhas próprias mãos e tua tesoura, antes de me lançar num rio para nadar para longe, sangro, dificuldade. Preciso escrever muito sobre tudo isso todos os dias, meu dinheiro anda curto para falar tudo que preciso com um profissional. Eu rezo todo dia, não foi minha fé que foi abalada, mas a narrativa de que não estejamos sob o controle de algo maior, que poderia ter te consertado pra nós... No fundo me parece que todo mundo queria encontrar um caminho de volta. Mas voltar para onde, se até tu renegava tua morada? 

O caminho do amor, do perdão, o caminho da fantasia e da bondade foi embora a bem mais tempo que a gente ao se desligar da corrente naquele barulho de tesoura que desuniu e espalhou todas as miçangas para sempre. Um dia quero te amar menos, bem menos. Um dia quero te olhar dentro de mim do seu tamanho mesmo, ou bem menorzinha, ocupando pouquíssimo espaço dentro da minha cabeça...e se um dia meu medo de sair do teu zelo, já foi do tamanho de um prédio, e hoje é menos da metade de um tijolo, é sinal de que lágrimas, bom senso e verdade desconstroem mitos... realmente, tudo na vida tem jeito, menos a morte.

Ao contrário do que tentam parecer, as cartas não mentem... a infelicidade, a estupidez, a ignorância e o desgaste emocional junto ao desvio de caráter reinam entre todos vocês. 

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