As coisas que eram tarde demais
Corríamos
em um campo que parecia aquela velha fazenda. Sentia o vento passando pelos
nossos cabelos e toda vez que eu piscava meus olhos, parecia que éramos grandes,
e depois em outra piscada, percebia que éramos pequenas novamente. Eu gostava muito
do jeito que você me olhava e sorria, me sentia provocada e imensamente feliz
por dentro. Não sabia tanto aquela época, mas no sonho eu entendi que eu era
secretamente apaixonada por você. Gostava tanto de brincar contigo... tu eras a
única que ia até o fim nas minhas fantasias e histórias. Acho que eu gostava
tanto de você que isso provocou ciúmes nas outras. Sempre fui muito dedicada
com quem eu escolhia para gostar. Um dia, Édna me chamou para
andar de bicicleta e me contou que você havia dito para ela que ela era sua preferida, e que eu não era nada. Lembrei-me que foi a partir desse dia
que me senti traída por ti e mudei completamente meu jeito afetuoso. Não sei
porquê, mas esse meu defeito de acreditar no que os outros dizem, me fodeu mais
algumas outras vezes na vida e com outras mulheres. Anos depois foi que percebi como é fácil destruir um
laço de afeto quando alguém não é capaz de ouvir quem gosta, mas é capaz de acreditar no
que o outro de fora diz. Ainda corro riscos significativos de me foder por comentários que não
são verdades, por simplesmente ser insegura, e não ir perguntar diretamente a
pessoa mencionada o que realmente aconteceu?! Dava ouvidos demais sem desconfiar o que outro ganharia me contando algo que pudesse me
machucar. Sou meio injusta, fato. Mas aquela época isso iria me custar
caro... e como não sabia agir, agi como a menina que eu ainda era. Fingi que não
gostava mais de você, que você é que não significava nada e que eu preferia
brincar com as outras agora. As outras que eram do meu tamanho, mas não
entendiam minhas fantasias e histórias. O mais engraçado nisso tudo foi que lembrei
agora que depois disso, Édna se aproximou de você, e te fez sorrir muitas
vezes quando estávamos em grupo, me deixando para baixo e muito enciumada. Eu
também não entendia o que era ser triste e ciumenta aquela época, então comecei
a ter raiva de você. No sonho pude lembrar que você chegou a me perguntar o que
houve e tentou me explicar que não havia dito nada daquilo para Édna, da forma que eu
entendi. Mas, é engraçado como comigo as coisas sempre eram tarde demais. Eu não sabia como voltar atrás, como
pedir desculpas, como aceitar desculpas, como ignorar conversa fiada e seguir
meus sentimentos e alegria para começar tudo de novo. De alguma forma estranha,
sempre fui seduzida por sentimentos de sofrimento e de muita desconfiança. Era
como se eu não pudesse ser feliz. Nenhuma reflexão minha estava no sonho de fato. Vieram depois que acordei, junto com as lembranças de que te vi seguindo em frente, dona de si. No passado, todas
as vezes que eu sabia que você estaria em algum lugar, meu coração se alegrava
por dentro e era pela tua presença que ele esperava, mesmo que fosse para te ignorar
ou dar uma má resposta. Vendo daqui, você era tão pequena.... Eu não compreendia
bem que existia maldade. Maldade de quem falou, maldade de como agi, maldade em
uma época de pureza e que tudo era tão novo. Mas aos poucos, eu também me lembro
direitinho como tu foi amadurecendo e crescendo cada dia mais bonita,
inteligente e charmosa. Eu também estava crescendo, e algumas vezes tentava chamar sua
atenção fingindo gostar mais da presença da sua irmã. Eu era péssima, se eu
pudesse mudar minha postura, mudaria. O caminho teria sido feliz se eu tivesse sido mais honesta. Não nos falamos mais na vida real, mas depois da corrida no campo, no meu sonho, nós descansamos debaixo de uma árvore e você me disse com todas as letras e de forma meiga e abusada que gostava de mim, puxando uma gargalhada. Éramos pequenas e de repente fui ficando grande... virei um poço de alegria e não me lembro mais de nada porque acordei. Sou um pouco encabulada em como eu fiz rodeios para que você não soubesse que eu gostava tanto de você. Tudo faz algum sentido agora.
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