cenário perfeito
Voltei pra escrever sobre um deserto atrás dessa porta. Dos
buracos que fechei, disfarçado de romantismo e que esteve há alguns dias soprando
uma desesperança. Por incrível que pareça, nosso carnaval sem máscaras, trocou nossas
crianças. Conversando com ela, sobre você e tudo que você não me disse, fumávamos
um cigarro, sentadas num tronco afastado da mesa principal. A gente dava
gargalhada sobre a que ponto somos capazes de permitir lacunas dentro do nosso peito
e como somos ingênuas e irrecuperáveis. Aquela noite, prometemos que iriamos
dar até um beijo de solidariedade. Às vezes me pergunto até quando vou ter essa
mania aventureira de beijar na boca das pessoas por amizade. Quando eu ou ela entendermos
porque buracos se constroem tão rápido e sem permissão aqui dentro, no centro,
e as vezes tão devastadores na caixa torácica, não precisaremos mais ficar por
anos tentando compreender se a culpa é
dos causadores ou nossa. A culpa vai ser finalmente apenas uma fumaça. E
conversando sobre tudo que você nem me disse, ela fazia piadas rápidas e
diretas das minhas paranoias, que por deus... eu adoro. Tornar algo trágico em
comédia, é uma arte para poucas. Eu deveria ter percebido dali que tragédia com
mistério não vai combinar nunca comigo. E meio altas da catuaba, eu e ela planejávamos
maneiras mirabolantes de se comportar quando você chegasse. Cenas de como
iriamos fingir que eu nunca estive tão entusiasmada e cativada assim. Cenas de
que você nunca foi pauta nas nossas conversas. Cenas de muita mentira e ações
decoradas, caso você entrasse por aquele portão desconfiada de que eu podia ser
alguma desesperada. É mais elegante não falar sobre o que se sente. O papelão e
a vergonha, depois dos vinte e tantos anos, vem deixando de existir. Mesmo
assim, ainda consigo ser muito deselegante, muito honesta, muito sossegada, e se
for pra ser será é o caralho. Depois dos vinte e tantos anos, se for pra ser, a
gente simplesmente faz acontecer. É chato agora, tudo que coopera com regras
misteriosas, discretas e processos lentos. Vai pro ralo nas atuais
circunstâncias o que é devagar. Mas eu confesso que por um longo tempo, eu já
achei muito bonito essa calma toda pra desenrolar histórias que querem ser
vividas. É bonito e chega a ser sagrada, essa crença de que forças ocultas vão
fazer a nossa parte. É chato agora. E conversando sobre tudo que você não me
disse, eu e ela ríamos das piadas da internet, e eu bebia as cervejas pensando
no quanto a catuaba me esquentou depressa, “que felicidade estou sentindo
agora”, eu dizia e ela sorria concordando. Ela fazia brincadeiras de que você
ia chegar a qualquer momento por aquele portão, e meus sustos eram cômicos e
trágicos ao mesmo tempo. Ela me dizia “sua cara achando que ela vai entrar por
aquela porta é impagável”, nós sorríamos atrapalhadas em cima daquele tronco,
quase caindo... quando você chegou de verdade, mudando todo nosso humor e nos
fazendo entrar em cena depressa.
Na ousadia, você mal cumprimentou as pessoas da mesa e já
foi diretamente ao tronco em que eu e ela estávamos prontas pra encenar. Vadia.
Marcação cerrada. Apaguei o cigarro e você apertou a minha mão, seguida de uma
brincadeira sem vergonha de terminar o aperto feito pinça. Pinçando três vezes
a palma da minha mão, três vezes no centro da palma da minha mão... Sádica. Você
não presta. Me perguntou então, com a boca cheia de dentes, se eu estou bem,
como se eu fizesse realmente parte de alguma preocupação. Ainda paralisada da
brincadeira feita na minha mão, uma vergonha sobrenatural se apossa do meu
corpo. Ardilosa. Quem sabe é a vergonha acumulada que eu não tive de ter
poupado minha declaração antes. Talvez eu precisasse beber aquela noite muito
mais do que havia planejado. Cinza. Você é cinza. Nem preto, nem branco. “Pra
quê tá fazendo isso com minha mão?!”, digo inquieta, e você sorri de um jeito
que eu já sei que foi ponto pra você. Misteriosa, tem hora que parece até o meu
pai. Descubro que estar nervosa e confusa foi um prazer imenso do qual eu não
gozei. Eu queria falar um monólogo sobre como aquilo era constrangedor e você
fez de propósito, mas hoje não. Eu vou dançar como se essa noite fosse uma
despedida, vou sacudir meu corpo de olhos bem fechados pra enxergar o que está
aqui dentro de mim e entender que o fato de eu ter me declarado não quer dizer
absolutamente nenhuma fraqueza minha. Fico. Rebolo. Sinceramente gostaria de te
deixar curiosa sobre o quanto seria mais interessante estarmos nos conhecendo. Eu
sou de verdade, mulher. Vivo sincera numa lua sempre cheia. De repente, tenho a
sensação de que estou maravilhosa de verde, e me vejo fora do meu corpo e
também como se eu fosse você. Como se eu estivesse dentro de você, me vendo através
dos seus olhos. E é acreditando nessa sensação que a noite passa a ser
comandada por mim. Quando eu abrir os meus olhos, vou ver os teus exatamente do
jeito que eu vi nesse carnaval sem máscaras... fugindo mulher. Assustada,
fugindo, e tentando fingir que nem estou ali, dançando livremente. Preciso
fazer xixi. Um passo que eu dou para fora do banheiro, lá está você. Me seguiu,
arteira? Me enlaça. Me aperta. Estamos na parede. É beijo. Guardo como
fotografia, a memória da tua safadeza, o barulho do meu sorriso surpresa, e o
olhar de quando abri a porta do banheiro, pensando que você queria usar. Mas
não era o banheiro, era sua coragem. E não desperdiço essa memória que me dá
certeza e sinais de que por algum momento eu estava certa, absolutamente certa.
Você também me queria. Compreendo agora que uma porta pode se abrir sem trinco.
Eu perdi a oportunidade de comentar que teus lábios tem um gosto maravilhoso de
impossível. Eu fiquei com muita raiva nos dias seguintes... foram lamentáveis e
a cena que se repetiu por horas e horas no meu dia foi a tua safadeza. Queimo.
Se eu não faço isso, tudo por dentro agora estaria devorado. Segui o manual, de
me jogar na rua de novo. Rabiscar a parte que eu errei de novo, criar novos
sentimentos e tribunais de defesa de novo. Desmanchei você, como a lei diz que
tem que ser, e como aquele pôr do sol chapado em que nos vimos pela primeira
vez, também se desmanchou para dar espaço pra noite. Aquele dia você chegou atrasada,
e não desceu daquele carro sozinha, desceu bordando uma besteira enorme e bem
particular na minha cabeça. Quanta bobagem... queria ilustrar que desde o início do teu chegar eu não poderia mais ser comum. Você
expirava a fumaça e sorria, e aquilo já era o cenário perfeito para a beira do
colapso que podia chegar com a minha permissão. Não percebi de tanto
brincar, o quanto eu de repente queria ser muito interessante e notada. Quantas
pessoas estão atrás e por trás das nossas portas? Eu deveria ter sido mais
inteligente, ter roubado seu livro de poesias, devolvido com bilhetes, pedido
caronas desnecessárias, desmarcado compromissos... é tarde e você estava certa. Eu sou muito
rápida mesmo, parecida com a tua coragem imediata. A mesma que me estragou por
alguns dias. Juro que estava fora do meu alcance, e do meu infinito tribunal,
não me interessar por você. Não tem porque procurar meus erros, se eram apenas seus
medos. Não tem porque procurar meus erros, se era apenas nosso desejo, nós duas na
parede sorrindo por motivos tão diferentes que não demorou muito pra que você apertasse o gatilho. “Imediatista!”, você disse e então
era esse o meu erro. Um erro que te trouxe pra perto. Que
acerto! Que beijo! Então, você nem queria mesmo usar o banheiro. Coragem ou
covarde... o que é que importa? Meu dever volta a ser o mesmo...fechar a porta e permitir começar um novo deserto no quarto do meu coração.
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