sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

sem saber que eu era semente


As coisas vão se encaixando de uma maneira que eu pareço natureza. 
E natureza eu caminho, natureza eu falo, natureza eu não choro mais na chuva. 
Eu fiquei maluca e agora que seco, brotam flores dos meus dois lados.
Acordo com flores por todo meu colchão. 
No chão do banheiro elas desabrocham, 
no vaso eu despejo pétalas e mais pétalas, 
e quando tomo banho fico verde... eu fiquei maluca, 
qualquer um podia ver. 
Saí, voltei, nada funcionava. 
Havia ervas daninhas, muitas ervas daninhas que pela paixão do verão e o barulho daquela outra chuva que veio com a tempestade que parecia que nunca ia acabar, não pude ver. 
Não vi, meu deus. 
Não vi tudo que estava óbvio, tudo que foi arrancado de mim. Mexeram comigo! 
Quebraram meus galhos na calada, 
roubaram meus frutos, 
subiram em cima de mim, 
me desfolhearam...se é que essa palavra existe. 
Parecia até que o fogo havia me cercado com um cheiro de queimado que estuprava minha respiração. 
Uma chateação ocupou meus dias, 
meu peito virou caminhão carregado de areia 
e um silêncio em cima do muro se apossou dos meus lábios. 
Era uma tristeza que assolava meus dias, 
uma tristeza que acabou com as minhas noites, 
um desespero que me fez procurar 
arte, 
livros, 
o medo das pessoas. 
O fogo me cercou e quase destruiu meu barulho, 
meu imenso e bonito barulho de chuva. 
Eu precisava estar viva! 
Me recompor, 
Me construir, 
havia alguma esperança? 
Que terra piso com meus pés, 
quem é que podia me ajudar? 
Teria eu que me conhecer novamente? 
Me conhecer toda novamente... 
Seria preciso me enterrar, e me enterrando fui... 
o mais fundo e mais fundo...
fui me enterrando profundamente como um botão sem rosas 
e sem saber que era semente, semente fértil. 
Tudo cresce
Cresce, empurra a terra, cresce
Agora tudo floreia, 
e desabrocha, 
há esperança, 
eu tinha raízes,
raízes fortes e profundas
E do lado de fora, 
depois do muro eu também não tenho mais medo do vento, 
saio para passear voando com ele! 
Dou cambalhotas com ele, 
entro e saio pelas janelas e não passamos mais por debaixo e pelas frestas das portas...
Agora eu sou forte
Agora eu sou natureza 

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