quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A casa


"...na solidão de casa, descansar

O sentido da vida, encontrar
ninguém pode dizer onde a felicidade está...

(Sinônimos)"


Prometo. Nunca mais vou entrar nessa casa e se eu me aproximar vou pedir ajuda, porque nunca mais eu vou procurá-la como alternativa, nunca mais vou me proteger da chuva dentro dela, nem do sol. Essa casa será realmente inesquecível, porque  foi dentro dela que eu me perdi, dentro dela que o perdi, dentro dela que eu queria ficar boa parte do meu tempo, desejando ser um fantasma que vaga sem querer procurar luz nenhuma, sem querer segui-la e esnobava os anjos, desprezava os demônios e não ficava de lado nenhum, não queria saída nenhuma, nenhum pacto, nenhuma chance, nenhuma escolha. Me lembro como se fosse ontem, de como eu fechava todas aquelas portas e janelas apenas com a força do meu pensamento, dá pra lembrar o barulho bruto que faziam. De como os quartos eram todos vazios e eu nunca entendia muito bem porque. Mas apenas mobília nenhuma era capaz de combinar, nenhuma tinta era capaz de pintar, nenhuma pessoa era capaz de limpar e muito menos de sujar.  Eram quartos completamente sem medidas, sem rabiscos na parede, sem função, sem gente, portanto sem alma penada também, o que não abria espaço nem para o próprio medo. Era como aquela casa engraçada da música que não tinha nada, da música que eu gostava de cantar quando era pequena e pedia pra que me balançassem mais alto e mais alto, dentro da rede.
Alguns, puderam conversar comigo pelas frestas, alguns conseguiram bater e sorrir na janela e recebi bilhetes  debaixo da porta que não correspondia. Mas nada, apesar de parecer,  foi em vão, depois que eu percebi como tudo aquilo ajudou um pouquinho, um pouquinho que ficou grande. 
É que quem tinha que querer era eu, quem tinha que abrir a porta era eu, quem tinha que gritar "Cheguei!" era eu. 
Não me convenceram de que era bom estar lá fora, não me forçaram a deixar a casa e não foi porque a energia da casa foi cortada  que eu resolvi deixar o escuro. Na verdade eu tive sorte. Sorte de ser perceptiva, sorte de ainda possuir um coração mesmo que sangrando, sorte de ainda possuir uma vontadezinha lá no fundo do fundo do fundo, de ainda querer vida. Eu tive sorte de ter amor.  Um amor tão grande ao meu redor que em apenas um toque tudo que eu tocasse viraria pó. E aquele amor era como uma prece, uma promessa, um escudo, uma rede. 
-Mais alto! - dizia aquela menina de maria chiquinhas no cabelo dentro de uma rede.
-Mais alto que eu não senti! - repetia a menina ansiosa.
Era isso, só mais um pouco pra poder tocar no teto, tocar no teto pra sentir que o amor, o amor podia me salvar.




terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Dentro de uma liberdade


Ninguém se ama de repente. Isso é paixão. Amar exige tempo, exige cuidado, exige sabedoria. Amar nunca foi fácil e amar-se também não, por isso é bom que se aprenda a se dar um tempo, aprenda a não só se apaixonar por você, porque paixão acaba, feito um coração que não foi pintado por dentro com o giz. 
Um dia você vai querer cuidar daqueles defeitos, outro dia vai deixá-los tão vivos que vai morrer de vergonha de si mesma, mas se você se amar, você vai sorrir da sua imperfeição. Um dia você vai gostar do jeito do seu cabelo, outro dia vai simplesmente amarrá-lo e se preocupar com o jantar. Amar-se também exige tempo, tempo pra se cuidar, tempo para pensar, tempo pra se permitir do que é que se realmente gosta, o que é que a faz sorrir, como é que realmente se sente, do que é que realmente merece. 
Amar é responsabilidade, na melhor das hipóteses, dentro de uma liberdade.

A Carta


Mãe, lhe devo desculpas. Pensei que sabia tudo sobre o amor e na verdade eu nunca soube de nada, por isso tanto sofrimento agora finalmente sanado.  Mãe, de repente parei de te ligar, de repente eu só precisava e não precisava daquilo pra respirar. Será que a senhora pode me fazer uma visita um dia desses? O clima aqui está estranho, eu me sinto tão sufocada e ao mesmo tempo tão sozinha, não conte pra ninguém mas sinto falta da família, se eu pudesse estaria com vocês, estaria com vocês pra sempre. Mas é que eu sei que o nosso fim está contado, devo me aproveitar desses momentos ruins, devo sofrer. Mãe, um dia desses ele e eu perdemos a cabeça numa briga horrível e numa das minhas tentativas de acabar com ela, acabei não me lembro como dentro de uma proposta de casamento sem nem perceber. Não era o que eu queria, aliás, eu acho que ele percebeu, mas ficou tão chateado que me deu a alternativa de terminar tudo e eu fiquei completamente perdida, porque eu não sabia que era capaz de fazê-lo chorar feito uma criança daquele jeito, eu não queria!  Não era pra ter acontecido isso, não era pra ter sido assim, não era pra ter sido de repente, não era mãe, pra eu esconder tantos sentimentos dele, tantos medos, tanta insegurança, não era pra eu esconder minhas coisas feias, meus constrangimentos, meus valores, não era pra eu me cobrir toda vez, nem querer voltar pra casa logo, não era pra eu me deixar ser controlada como se tivesse desistido das minhas reais vontades, eu sempre me conheci tão bem mãe, casar nunca foi uma vontade expressa, casar está entre os últimos de todos os planos e viagens... A senhora tinha essa impressão? Eu acho que ele não me conhece de verdade, na verdade as coisas sempre são muita boas do lado dele, mas é engraçado como eu escondo meus medos, minhas ânsias, meus defeitos ou tento mostrá-los mas não consigo nunca ver claramente os dele, isso me deixa muito preocupada, ele me parece ser muito perfeito, eu não quero me casar com alguém assim, eu nunca pensei que encontraria  alguém quase perfeito, eu sempre aprendi tão  melhor com os erros, eu funciono muito bem com defeitos. Eu... fico me perguntando porque é que tenho esses comportamentos omissos, porque é que me escondo, mas eu sei que é porque não sei com quem estou lidando, não sei pelo o quê estou apaixonada. Tudo que eu sei é que nada disso foi sonhado, nem a minha Barbie mais louca aceitaria se casar desse jeito! Nesse exato momento eu posso ver o fantasma de um vestido branco pendurado na minha sala. Um vestido lindo, dos mais caros, dos mais desejados, dos mais puros. Mas que no coração da minha mulher, é uma pobre alma penada, vazia, solitária. Como pode Mãe? Como pode eu sentir tanto medo daquele vestido?  As vezes eu acho que você e papai, podiam ter me proibido desde o começo, podiam me impedir de cometer tudo isso, podiam me servir de desculpa, pra essa culpa não ser minha, pra eu continuar sendo apenas aquela menina. Essa mulher no espelho não existe mamãe! Por favor, me ajude para que isso não aconteça. Talvez aconteça um acidente antes do casamento, talvez eu seja atropelada por um ônibus, talvez ele perca o emprego, fique doente, não sei... talvez tudo possa dar errado até lá, quem sabe se eu ofender aos pouquinhos, atiçar suas feridas, escrever um email preocupado pra alguém, quem sabe até lá as coisas não dêem errado, não é mesmo? E ai talvez eu não precise lidar com aquele vestido branco que está me assustando ali na sala...e se a senhora falasse que era contra?! Eu acho que você podia ajudar, não sei me parece mais fácil a culpa ser sua...você pode por favor, me fazer uma visita? Não estou feliz e tem uma casa de sombras cada vez mais nítida dentro do meu peito a qual eu estou me aproximando cada dia mais, e não me sinto a vontade pra contar pra ele, porque eu não o conheço de fato, eu não sei nem do que ele tem medo, eu queria, por favor, que você viesse me fazer uma visita, tem um vestido branco na minha sala e eu estou com medo.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Dobrado



Como era difícil encontrar algo que não estava nem em conta gotas dentro de mim. Disputar com todas, por não saber o que eu mesmo gostava. Aceitar um amor daquele tamanho por não ter espaço dentro do peito nem pra mim. Difícil... como era difícil dar amor, retribuir, agradar, elogiar, distinguir...se não tinha o próprio amor nas vasilhas, no espelho, nos sonhos perdidos. E era difícil ser ela mesma e não a moça atropelada, ser ela mesma e não a moça que já amara, ser ela mesma e não a doida que abandonará, ser ela mesma sem comparações, sem fotos apaixonadas...
Como era difícil! Amar errado, amar sem o amor, e por isso também deixar que me amasse tão dobrado.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Vôo Azul

Uma vez a Nina chegou  da escola e me disse que borboletas azuis estavam em extinção. "- Se um dia você ver uma borboleta azul, saiba que seus filhos não poderão ter a mesma chance, você é uma privilegiada! A professora que falou!", aquilo ficou na minha cabeça e eu era tão pessimista que quando procurei saber o que significava a palavra privilegiada já me coloquei em uma lista das garotas que nunca assistiriam um vôo azul. 
Outra vez, em uma dessas tardes ruins do mês de Julho do ano passado, o único momento em que eu não me sentia mal e enjoada era quando eu estava no SESC, no projeto Mediadores de Leitura, no qual eu convivi com crianças inesquecíveis e uma borboleta que vez ou outra sempre parava na minha mão para que eu contasse a sua história. Era a história de Ruth Rocha chamada: "A primavera da Lagarta", e por tanta insistência do inseto, eu privilegiei essa história pra fazer uma das apresentações do projeto na colônia de férias. Era esse livro que me salvava dos meus piores tormentos mentais, que salvava alguns minutos de todos aqueles meus dias ruins, era aquela história que  me fazia entrar dentro daquela floresta encantada onde todos os insetos julgavam e criticavam a preguiça, falta de iniciativa e folga da gulosa lagarta.
Nessa época, por mais otimista que me parecesse, foi também quando conheci pessoas amigas e bem especias. Uma delas foi uma garota que trabalhava no projeto também, mas que eu nunca tinha reparado muito.  Ela era vegetariana, tinha um piercing no nariz e essas duas coisas juntas a deixavam muito mais alternativa pra mim. Também era mais nova aparentemente do que a idade que tinha. Quando ela me ligava, eu podia contar com um pouco de luz,  de alguma maneira ela me fornecia isso dentro daquela casa de sombras da minha cabeça que eu não podia sair. Num desses telefonemas  fomos parar em uma cachoeira muito bonita, July então disse: "- Pula na água e deixa essa energia ai." eu dei um sorriso e entrei morrendo de frio, quando eu sai July me dava tchauzinho em cima de uma pedra, onde conversava com um amigo e eu me sentei num tronco onde o sol pegava pra  poder me esquentar quando de repente... eu vi! Em câmera lenta e a voz da Nina nos meus ouvidos "você é uma privilegiada! A professora que falou!". Era a borboleta azul! Uma enorme borboleta azul voando bem pertinho de mim.
-July!
-O que foi Fê?! - arregalou um sorriso meio assustada.
-Olha! Olha lá! É uma borboleta azul! A-zul!
-Azul? Ah, sim...é! Tem um monte por aqui.
-Sua amiga é engraçada. -comentou o rapaz sentado do lado dela.
E quando eu olhei pra borboleta de novo era como se ela fosse engraçada como meu sorriso e em cada batida delicada do seu vôo de asas azuis eu percebia o seu ir embora na velocidade de um aceno de mão.  Parecia uma mensageira, parecia um resgate, parecia que alguém além da July e do amigo dela, estava de olho em mim, então eu fiquei séria e sorri.


(Para  uma amiga borboleta , da lagarta.)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Pelas pistas que eu deixei


Pensei que quando te visse com outra mulher pararia de respirar, teria um ataque de nervos e morreria inevitavelmente quando essa informação passasse dos meus olhos para o cérebro. Falei que quando o visse amando outra mulher não aguentaria ver, não suportaria pensar em vocês dois e não aturaria acima de tudo ter que ser feliz de novo. Ponderei que quando você simplesmente tivesse interesse por outra mulher meu estômago iria explodir dentro da minha barriga e eu perderia todas as minhas forças, meu juízo, minhas razões, minha estima e minha inadequada fé na vida. Jurei que quando você fosse capaz simplesmente de olhar para outra mulher com os meus olhos e inevitavelmente fosse bem tratado, logo estaria aberto para amar de novo, logo estaria agradando todo outro mundo de uma mulher, (como você bem sabe fazer) e logo, claro, eu estaria queimando no fogo do meu inferno.         
Mas para minha sorte, me parece que tudo aconteceu no tempo certo. De tal modo que eu tive a oportunidade de conhecer também o meu próprio céu antes que você encontrasse sua mulher.  (rs) 
Na medida que você foi se afastando, seu rosto foi ficando cada dia mais assombrado e me parece que a medida que eu ia te perdendo, tudo que eu mais achava bonito e queria inteiramente beijar,  foi umedecendo, foi umedecendo como os guardanapos daquela casinha que me deu de presente e que só me serviu como lenço, umedeceu como  aquelas paredes estragadas daquela casa que fizemos amor. Quando você não dava notícias, tudo que eu mais lembrava e amava queria mais que tudo ser apagado. E eu fui censurado minhas lembranças por uma ditadura militar que cresceu rápido e gritava decisivamente dentro da minha cabeça, me dando ordens e me mostrando o quanto eu podia ser muito mais forte do que eu nem desconfiava  mas no fundo queria, porque a gente é o que quer ser.
Não dava pra entender muito bem o porquê de você de repente ter gostado de viver de aparência. Era muito ruim ouvir dos meus amigos o quanto você estava feliz, cheio de planos, viagens e muito melhor e ocupado sem mim. Eu não entendi muito bem porque o mundo inteiro deveria precisar saber disso e nem porque -agora- você mesmo precisava mentir, porque meu coração era metade do seu então não adiantava mentir, não adiantava porque era um só.                                                                                                                          
Naquela época eu me perguntava se te fiz tão mal pra você fazer tanta questão de não ser mais discreto, de ficar um pouco de luto e me perguntava porque é que você gostava de me ver no inferno. Acho que naquela época eu era tola, porque não percebia que não precisava gostar tão desesperadamente de você, afinal você também gostava de mim. Mas é que quando criança, um caso de amor baseado em desespero e  desprezo me marcou muito. Enfim...Tudo que eu mais queria e adorava em você, foi se apartando, se abduzindo e a partir do momento que você me disse que se sentiu invadido eu vi de perto o tal caso de amor desespero x desprezo e antes que fizesse parte disso eu me retirei com todos os meus membros do corpo que se desmontaram a partir da palavra in-va-di-do e quando me virei pra caminhar eles iam caindo pelo caminho e eu envergonhada ia catando e tentando colar com uma cola que tinha na bolsa e continuava a andar, mesmo que caíssem e continuava a catar mesmo querendo deixá-los, pra se esconder mais depressa... porque assim e só assim eu poderia ter certeza de que se você quisesse (um dia) me encontrar não teria sido pelas pistas que eu deixei e sim por iniciativa própria.
Mas você demorou, meu Deus como você  demorou! Demorou a ponto de eu construir um muro com os restos de comida que sobravam no meu prato. E na medida que você demorava a chegar, vinha pelo correio uma grade de encomenda. E se as semanas continuavam a passar sem os seus eu te amo, eu começava a pintar as cercas novas. E toda vez que anoitecia e as horas no meu telefone marcavam nosso dia e nenhum sinal de fumaça teu fosse visto, eu decidia pregar um prego em cada parede daquela minha nova morada, um prego em cada cômodo pra criar coragem de pregar o último na porta principal.

 “Proibida entrada do seu amor. Fechada pra balanço por tempo indeterminado.”

A partir daí, tudo que eu mais cobiçava em você, nitidamente transformava-se em medo e nosso romance virou uma espécie de filme de terror detestável. Daqueles mal feitos que a gente fica querendo que dê mais medo que dê mais ideias que nos faça rezar  a noite inteira para ter um sono menos covarde e pesadelos mais tenebrosos, daqueles que não nos fazem acordar gritando e com aquela sensação de querer estar vivo, mas que apenas nos deixa um pouco confuso e depois traz a certeza de que o filme é apenas daquele jeito mesmo e nada mais.
Eu resolvi te espiar um dia desses e foi meio frustrante te reconhecer nas fotos, aliás foi desapontador, parece que até seus dentes resolveram ficar esquisitos... ou não sei se é o seu sorriso que acusa uma expressão de pouca verdade no rosto que aponta quase uma fala de alguma coisa que você queira dizer mas não diz. Eu não queria ser grossa Tatu, mas pra ser bem sincera você está feio. Fiquei com uma certa , mas acho que essa não seria uma palavra boa para expressar a pena  que também não seria sensato usar pra ser bem franca quanto a sua aparência. Seu sorriso está bizarro e você está visivelmente gordo também... Acho que você está inchado, não sei... anda bebendo?  É muito chato perceber que está aparentemente muito mais velho, menos fotogênico e me parece que suas entradas na testa, meu Deus! Elas eram bem menores quando... ou será... será Tatu?! Será que foram  meus olhos que mudaram o jeito de te ver?! 
Olha, você precisa se cuidar, o que é isso?! Eu sei que não tenho mais nada a ver com a sua vida mas acho que você precisa se cuidar... de todo jeito, você está perdendo mais cabelo do que de costume então procure um médico, cuida do seu físico e trate de ficar mais bonito, elas não merecem (rs) nem ele. (aquele por quem eu fui incrivelmente apaixonada.)  
Eu pensei que o tempo nunca ia nos maltratar. Eu juro que não fiz por mal...eu pensei que meus olhos nunca mudariam o meu modo de te ver. Eu de fato, nunca acreditei quando você se declarava que era pra sempre, eu na verdade sorria e gostava porque você entrava em êxtase quando percebia que eu podia acreditar nisso. Então, não é de você exatamente que eu sinto falta, não é de você que eu realmente queira me lembrar... É daquele amor, sabe? Aquele amor que não acabava nunca que me fazia acordar aliviada que me fazia dormir sem receios que deixava os problemas sempre menores que seus verdadeiros tamanhos que protegia meus passos e segurava meu futuro no colo que me deixava louca na roupa que me sugava uma energia absurda que me acalmava nas horas difíceis que deixava Palmas cor de rosa que não dava fome mas estava sempre com sede que... chegava de carro só pra mim. Do que eu sinto falta, é daquele amor que eu respirava, daquele amor que...que me faltava.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Atire em mim


Dessa vez minha passada no cemitério foi pra te trazer flores. Descobri que você as merece e que sou muito egoísta. Desculpa-me por não ter vindo antes? Eu só não gosto de fazer visitas aos mortos porque é difícil e injusto dar notícias pra quem não consegue se comunicar com a gente da mesma forma, ou não do mesmo jeito que antes. Hoje está frio, não está? Ou você continua calorento? Se estivesse fazendo sol eu estaria... Ah, é! Não lhe devo mais satisfações e estamos mortos, digo, eu e você e não eu sem você.
Perdoa-me mais uma vez? É muito difícil saber o que você pensa, o que você sente, ou  quando sou eu que de fato - e coração -  já não tenho interesse em querer saber. Dá vontade de dar risada, a gente sofreu tanto assim? Mas bem, como eu dizia eu resolvi dar essa passada no cemitério pra te trazer flores pela primeira vez, porque vim no intuito de nos perdoar.
A vida é uma correria e o cemitério fica muito longe da cidade, eu procuro dar muito atenção aos vivos, tenho coisas pra resolver, pra terminar, então peço que me perdoe se nunca faço questão (e nem fiz) de lhe fazer uma visita ou perguntar como está.  
Pelo visto, o fogo das velas da última visita apagou. Mas como é que elas ainda podem estar tão intactas? Afinal de contas os temporais de chuva foram bem fortes durante esses meses, não é? Podiam pelo menos terem sido derrubadas. Sei lá, vê-las em pé já não me deixa com um medo profundo de que basta um fósforo, basta um fósforo pra...
Olha! depois de ter te dado aqueles tiros depois da sua morte, tudo foi tão mais difícil que por um momento eu achei que seria uma boa alternativa parar de viver. No entanto, agora, as coisas estão voltando a fazer sentido e tudo entra em órbita de novo, ainda bem. Estou mais feliz, mais tranquila, mais forte, me vestindo melhor e já voltei a me preocupar com coisinhas banais como se pinto as unhas dos pés de vermelho ou não. Acho que suas palavras se concretizaram, finalmente eu sou uma dama por dentro e por fora.
Encontrei com o tempo que a culpa é uma desculpa. Tudo é uma questão de dar tempo ao tempo. E eu experimento a saudade sim, só não faço questão e acho justo dizer, mas é uma saudade que desaparece e aparece nos meus sonhos que desaparece e aparece nos meus olhos que desaparece e aparece nos meus gostos que desaparece e aparece nos personagens de filme que desaparece e aparece sorrindo na distração do meu trabalho, por exemplo.
O tempo é cruel quando faz com que meu coração não se sinta mais tão seguro, quando destrói minhas certezas e nos desapega sem tristeza. Mas o tempo também é amigável quando constrói dentro das inconstâncias pulsos firmes, valores, importâncias para se desenvolver melhor, reparar melhor e ter coragem pra pedir, por exemplo, desculpas sinceras por ter sido tão confusa, tão ingrata, tão injusta.
Admito. Soprei balões de mágoas aquele mês de propósito. Era pra espocar no seu aniversário mesmo. É porque você me deu uma no meu aniversário, tá lembrado? O tempo me apontou que eu também sou vingativa e que meu ego não é menor que o seu. (Talvez seja um pouquinho maior ou do mesmo tamanho!!!)
Noto que um dos meus erros foi achar que eu havia me enterrado com você por alguns meses. Na verdade eu me enterrei sozinha. Contudo, ninguém abria minha cabeça de que ficar ali dentro do caixão querendo que o cheiro não fosse tão ruim, forçando pras coisas serem vivas como antes, ia dar em um bom resultado. Ninguém conseguiu me convencer disso (você deve lembrar da minha teimosia) e foi por isso que eu tive que experimentar na pele e o resultado foi entender o quão ridículo tudo pode ser nesse exato momento.
Consegue entender o que me deixou mais puta? É que pra mim foi muita sacanagem ter ganhado uma de aniversário, você me prometia coisas bonitas demais pra de repente eu abrir a caixa e ter que saber como usar aquilo no estado em que eu me encontrava. Mas agora a raiva passou, quanta bobagem...
Olha, você tem todo direito de ter achado que fazia o certo, tem todo o direito de ter errado também, e o pior! Direito de ter perdido a esperança. Eu me esqueci que o amor também é feito de carne e osso, eu me esqueci que podia ter tomado rumos bem piores e sem sucessos aparentes, eu me esqueci que podia ser eu no seu lugar. 
Por muitos dias eu escondi o manual de instrução dessa , tentando fazer com que a pá servisse pra outra coisa... enfeite de jardim, porta retrato, arma, espanta muriçoca, colher de arroz... mas pá é boa mesmo pra cavar, cavar bem profundo e quem sabe pra enterrar. Não entendi o presente, mas talvez tenha dado certo. O  horrível pra mim, foi que eu acabei me perdendo... Era pra cavar e enterrar alguma coisa ou cavar e desenterrar alguma coisa? Você podia ter me dito o que queria, mas eu acho que você queria que eu descobrisse sozinha, ne?
Não entendo até hoje da onde tirei forças, mas eu comecei a cavar. Eu não estava muito forte, como eu já disse, e de repente meu peito ficou pequeno demais para o tamanho da angústia que se encravava. Lembro que tua alma ficou amarrada dentro de um dois sacos plásticos pra não rasgar no meio do caminho e que eu mexi em um dinheiro que não tinha para um caixão mais ou menos. Não te convidei para o velório porque nossa rotina já não se adaptava como antes e decidi não nos dar chance nenhuma porque o dia amanheceu cinza e isso só podia ser um sinal... porque eu adorava dias ensolarados.
É que isso me fez lembrar que você preferia os vidros fechados e o ar condicionado ligado, já eu, preferia tudo aberto e o sol queimando meus braços e clareando meus fios de cabelos. Isso me fez lembrar daquele sonho que você me contou dentro do carro:
“- A cidade inteira estava infectada por um vírus e nós dois fugíamos quando você foi mordida no polegar e infectada. Daí, no grupo dos que não estavam infectados, me entregavam uma arma pra...
- Pra?
- Não vou falar, dói lembrar.
- Fala logo!
- Pra atirar em você.
- E você atirou em mim?
- Não.
- Mas eu era uma ameaça agora, estava infectada, porque não atirou?
- Na verdade eu atirei, mas atirava pra errar o alvo.
- Como assim? Atirava pra não me acertar?
- É. Porque eu não podia vê-la morrer, muito menos pelas minhas mãos. Eu não conseguia.
- Você é um fraco!
- O quê?!
- Quando eu for uma ameaça, atire em mim! Não pense duas vezes, nem tenha dó,  ouviu bem?”
Foi talvez por essa lembrança que eu tenha nos perdoado e entendido um pouco mais sobre tudo. É que talvez, tudo que eu mais precisava era que você atirasse em mim... e você atirou, obrigada.
(Para um cara que me fez chorar e sorrir.)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Tampa da panela

Cruzou as pernas e disse:
-Por um momento eu pensei que era tudo que eu mais queria.
-E depois?
-Depois não.
-Mas por que?
-Porque se eu fosse pensar melhor, já estava tudo perdido.
-Mas você não podia dar um jeito de encontrar?
-Não. 
-Ora, mas por que não?
-Porque quando eu digo perdido, eu não digo perdido de nunca mais conseguir encontrar, eu digo perdido como comida estragada, entende? 
-Explique melhor.
-Você já sentiu cheiro de comida estragada? É meio que insuportável, nojento...e eu aposto que você como eu, não sente muita coragem de comer comida estragada sem tampar o nariz, sem querer vomitar, sem querer imaginar que está comendo alguma outra coisa que não aquilo, sem suar, sem olhar pra ela e se repugnar diversas vezes, sem...
-Bom, isso é verdade, mas as vezes a gente precisa experimentar pra saber.
-Comer comida estragada não me parece muito atraente, apesar de eu concordar que experimentar é válido. Mas sabe, é que de repente tudo estar perdido já não fazia tanta diferença...
-Por quê?
-Porque agora o importante não era a comida, era a saúde. Tudo podia até estar perdido, mas eu não.
-Isso quer dizer que resolveu pensar mais em você do que na comida?
-Mais ou menos.
-Por que mais ou menos?
-É que na verdade com o cheiro ou não, eu sempre estive muito perdida, nunca tinha certeza de nada, mesmo assim não levei isso em consideração e deixei as coisas parecerem mais fáceis.
-Fáceis? Como assim?
-Como quando uma pessoa te guia por um caminho desconhecido, parece fácil até que ao chegar no final do caminho você percebe que não consegue voltar sozinha.
-Por que tem medo de voltar sozinha?
-Não. Porque  deixei  que me guiasse ao ponto de não prestar atenção no caminho.
-Bom, então disso você tinha certeza, não é mesmo?
-Sim. Eu tinha algumas certezas por um lado...certeza de que não tinha certeza, certeza de que não estava prestando atenção no caminho e inclusive certeza de que não estava completamente feliz. Mas eu...
-Precisava experimentar?
-É...como a comida estragada.
-Bom, ás vezes as comidas estragam mesmo, não se culpe tanto.
-Sabe que eu nem me culpo tanto assim? Eu na verdade só queria entender porque escondi a tampa da panela, deixando aberta pra que a comida estragasse.
-Então você acha que deixou a panela destampada de propósito?
-Acho que sim.
-Você já pensou que a tampa da panela podia não estar com você?
-Hum...nunca pensei nessa possibilidade.
-Pois pense e pense melhor ainda, pois toda experiência é válida. Não tente pensar no porquê quis estragar uma comida ao ponto de não querer experimentá-la, tente pensar que talvez apenas não estivesse com tanta fome.
Descruzou as pernas, sorriu e foi embora.