Dessa vez minha passada no cemitério foi pra te trazer flores. Descobri que você as merece e que sou muito egoísta.
Desculpa-me por não ter vindo antes? Eu só não gosto de fazer visitas aos
mortos porque é difícil e injusto dar notícias pra quem não consegue se
comunicar com a gente da mesma forma, ou não do mesmo jeito que antes. Hoje
está frio, não está? Ou você continua calorento? Se estivesse fazendo sol eu
estaria... Ah, é! Não lhe devo mais satisfações e estamos mortos, digo, eu e
você e não eu sem você.
Perdoa-me mais uma vez? É muito difícil saber o que você pensa, o que você sente, ou quando sou eu que de fato - e coração - já não tenho interesse em querer saber. Dá vontade de dar
risada, a gente sofreu tanto assim? Mas bem, como eu dizia eu resolvi dar essa
passada no cemitério pra te trazer flores pela primeira vez, porque vim no
intuito de nos perdoar.
A vida é uma correria e o cemitério fica muito longe da
cidade, eu procuro dar muito atenção aos vivos, tenho coisas pra resolver, pra terminar,
então peço que me perdoe se nunca faço questão (e nem fiz) de lhe fazer uma
visita ou perguntar como está.
Pelo visto, o fogo das velas da última
visita apagou. Mas como é que elas ainda podem estar tão intactas? Afinal de
contas os temporais de chuva foram bem fortes durante esses meses, não é?
Podiam pelo menos terem sido derrubadas. Sei lá, vê-las em pé já não me
deixa com um medo profundo de que basta um fósforo, basta um fósforo pra...
Olha! depois de
ter te dado aqueles tiros depois da sua morte, tudo foi tão mais difícil
que por um momento eu achei que seria uma boa alternativa parar de viver. No
entanto, agora, as coisas estão voltando a fazer sentido e tudo entra em órbita
de novo, ainda bem. Estou mais feliz, mais tranquila, mais forte, me vestindo
melhor e já voltei a me preocupar com coisinhas banais como se pinto as unhas
dos pés de vermelho ou não. Acho que suas palavras se concretizaram, finalmente
eu sou uma dama por dentro e por fora.
Encontrei com o tempo que a culpa é uma desculpa. Tudo é
uma questão de dar tempo ao tempo. E eu experimento a saudade sim, só não faço questão e acho
justo dizer, mas é uma saudade que desaparece e aparece nos meus sonhos que
desaparece e aparece nos meus olhos que desaparece e aparece nos meus gostos
que desaparece e aparece nos personagens de filme que desaparece e aparece
sorrindo na distração do meu trabalho, por exemplo.
O tempo é cruel quando faz com que meu coração não se
sinta mais tão seguro, quando destrói minhas certezas e nos desapega sem
tristeza. Mas o tempo também é amigável quando constrói dentro das inconstâncias
pulsos firmes, valores, importâncias para se desenvolver melhor, reparar melhor
e ter coragem pra pedir, por exemplo, desculpas sinceras por ter sido tão
confusa, tão ingrata, tão injusta.
Admito. Soprei balões de mágoas aquele mês de propósito. Era
pra espocar no seu aniversário mesmo. É porque você me deu uma pá no meu aniversário, tá lembrado? O
tempo me apontou que eu também sou vingativa e que meu ego não é menor que o
seu. (Talvez seja um pouquinho maior ou
do mesmo tamanho!!!)
Noto que um dos meus erros foi achar que eu havia me
enterrado com você por alguns meses. Na verdade eu me enterrei sozinha. Contudo,
ninguém abria minha cabeça de que ficar ali dentro do caixão querendo que o
cheiro não fosse tão ruim, forçando pras coisas serem vivas como antes, ia dar
em um bom resultado. Ninguém conseguiu me convencer disso (você deve lembrar da minha teimosia) e foi por isso que eu tive que
experimentar na pele e o resultado foi entender o quão ridículo tudo pode ser
nesse exato momento.
Consegue entender o que me deixou mais puta? É que pra mim foi muita sacanagem ter
ganhado uma pá de aniversário, você
me prometia coisas bonitas demais pra de repente eu abrir a caixa e ter que saber
como usar aquilo no estado em que eu me encontrava. Mas agora a raiva passou,
quanta bobagem...
Olha, você tem todo direito de ter achado que fazia o certo,
tem todo o direito de ter errado também, e o pior! Direito de ter perdido a
esperança. Eu me esqueci que o amor também é feito de carne e osso, eu me
esqueci que podia ter tomado rumos bem piores e sem sucessos aparentes, eu me
esqueci que podia ser eu no seu lugar.
Por muitos dias eu escondi o manual de instrução dessa pá,
tentando fazer com que a pá servisse pra outra coisa... enfeite de jardim,
porta retrato, arma, espanta muriçoca, colher de arroz... mas pá é boa mesmo pra
cavar, cavar bem profundo e quem sabe pra enterrar. Não entendi o presente, mas
talvez tenha dado certo. O horrível pra
mim, foi que eu acabei me perdendo... Era pra cavar e enterrar alguma coisa ou
cavar e desenterrar alguma coisa? Você podia ter me dito o que queria, mas eu
acho que você queria que eu descobrisse sozinha, ne?
Não entendo até hoje da onde tirei forças, mas eu comecei
a cavar. Eu não estava muito forte, como eu já disse, e de repente meu peito ficou
pequeno demais para o tamanho da angústia que se encravava. Lembro que tua alma ficou amarrada dentro de um dois sacos
plásticos pra não rasgar no meio do caminho e que eu mexi em um dinheiro que
não tinha para um caixão mais ou menos. Não te convidei para o velório porque
nossa rotina já não se adaptava como antes e decidi não nos dar chance nenhuma
porque o dia amanheceu cinza e isso só podia ser um sinal... porque eu adorava dias ensolarados.
É que isso me fez lembrar que você preferia os vidros
fechados e o ar condicionado ligado, já eu, preferia tudo aberto e o sol queimando
meus braços e clareando meus fios de cabelos. Isso me fez lembrar daquele sonho
que você me contou dentro do carro:
“- A cidade
inteira estava infectada por um vírus e nós dois fugíamos quando você foi
mordida no polegar e infectada. Daí, no grupo dos que não estavam infectados,
me entregavam uma arma pra...
- Pra?
- Não vou
falar, dói lembrar.
- Fala logo!
- Pra atirar
em você.
- E você
atirou em mim?
- Não.
- Mas eu era
uma ameaça agora, estava infectada, porque não atirou?
- Na verdade
eu atirei, mas atirava pra errar o alvo.
- Como
assim? Atirava pra não me acertar?
- É. Porque
eu não podia vê-la morrer, muito menos pelas minhas mãos. Eu não conseguia.
- Você é um
fraco!
- O quê?!
- Quando eu
for uma ameaça, atire em mim! Não pense duas vezes, nem tenha dó, ouviu bem?”
Foi talvez por essa lembrança que eu tenha nos perdoado e
entendido um pouco mais sobre tudo. É que talvez, tudo que eu mais precisava
era que você atirasse em mim... e você atirou, obrigada.
(Para um cara que me fez chorar e sorrir.)