Nunca se conheceram. E por mais contraditório que pareça, não deixava de ser um ótimo motivo para de fato não se conhecerem. Uma frase. Foi uma frase que a fez sorrir sem jeito e espiar o jovem autor.
"- A conversa estava tão interessante, que quase me esqueci de te falar..."
Ele parecia jovem, porém de séculos passados pelo vocabulário que usava. Era -não sei de fato- mas sim com ela, muito irritante, pessimista, impaciente, inteligente, perturbado, ansioso, perfeccionista, medroso e... triste. Porque depressão era uma palavra que soava pesado, ela preferia não ouvir, talvez até porque também fosse um pouco, na forma mais passiva de seus sorrisos. Ela parecia experiente, mas era apenas porque brincava muito de escrever, e assim a coerência das frases ajudava, mas os erros de português denunciavam.
“-Dislexa!”
Era comum que ele a insultasse, o que era incomum era ela gostar tanto disso. É que ele fazia ela melhorar. E passaram a se ler e escrever quase todos os dias. Se davam bem pelo efeito que os textos dela, pareciam causar nele. Se davam mal pelas causas sem efeito na vida real. Ela evoluía, diante dos comentários dele e passou a ser mais que bom ser acompanhada por ele, porque ele não a perseguia, apesar de ser muito bonita.
“-Por que passou tanto tempo sem escrever Senhorita? Criei raízes de tanto te esperar.”
Ninguém gosta de escrever com o medo sentado do lado. É que as críticas dele passavam do limite, então o deixou de castigo, pois o problema só podia ser pessoal. E se alguma coisa passava dos limites sendo boa ou má eles determinavam tomar alguns chás de sumiço. Era preciso. Era muito longe. Era muito difícil. Era demorado. Podia ser sofrido. Podia se pouparem. Podiam encontrar alguém mais especial. Podiam se...
“-Sinto falta do meu pai querida.”
Ele disse depois de dizer que ele estava morto. E ela se constrangia sem saber se era o efeito da palavra morto que a remoía, se era a culpa da falta do seu próprio pai que não sentia tanto, ou se o simplório fato de que o que doía nele também lhe doía. Mas não precisava se preocupar muito, pois a distância era considerável e agradável o suficiente para impedir maiores comprometimentos.
“- Te amo, deixa ai enquanto não nos conhecemos.”
O Natal chegou. Qual é a graça dos banquetes natalinos para um vegetariano? Ela se perguntava. Talvez apenas o vinho, lembrou-se da uva que lembrava a itália que lembrava a europa que lembrava existencialismo que lembrava Sartre que lembrava Simone que lembrava Amor: amor livre.
"- O que disse?"
Ela suava enquanto ele provavelmente estaria de meias. Até as estações lhe eram distantes. Mas nada fazia deixarem de ser tão amigos. Depois de tanta asneira compartilhada, ela finalmente conseguiu lhe arrancar o endereço.
"- Eu dizia que a conversa estava tão interessante senhorita, que quase me esqueci de te falar..."
Escreveu então seus melhores sentimentos num papel ecologicamente correto. Não por ser correto, mas por parecer velho. Escrevia pra ele com toda sua alma.
"- Falar o quê pinguim?"
Mas as respostam demoravam a chegar, e quando chegavam eram tardes demais.
“- Coloquei veneno no seu chá querida.”
Era verdade demais pra ser bonito, era platônico. Quem sabe por isso... inesquecível!
(Para um grande amigo e ex amor platônico: Antoine, daquela Senhorita.)

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